Muito obrigado pela resposta, Walter!

Do que você nos conta sou levado a concluir que o uso relaxado da
Lógica para justificar certas passagens argumentativas é mais ou menos
_tradicional_ entre os professores de matemática brasileiros, e há
bastante tempo.  Talvez o ponto (1) que você levantou ajude a explicar
a razão pela qual isto ocorre.

%%%

Sobre o seu ponto (2), que me parece estar relacionado ao que escrevi
na minha resposta ao Adolfo, confesso que não compreendo bem como os
"procedimentos de prova" usuais da matemática seriam justificados
"baseado na tabela da implicação".  Talvez seja isto justamente uma
das coisas que mais me incomoda...  Esta conexão entre tabelas de
verdade e estratégias de demonstração, digamos, via raciocínio
hipotético, contraposição, ou redução ao absurdo, me parece ser,
quando muito, _obscura_.  Exemplifico a minha perplexidade a este
respeito com o teorema citado no item (B2) da minha mensagem original
neste fio:
"Seja C um coiso com as propriedades A e B.
 Então C tem a propriedade D."
[o que segue é o que eu chamaria de "demonstração típica",
estruturada, por contraposição]
ENUNCIADO FORMAL:
Seja C um objeto de tipo D com a propriedade A.
Demonstre que C tem a propriedade B.
DEMONSTRAÇÃO:
> Declaração: Considere um objeto C arbitrário de tipo D.
% Objetivo: Queremos demonstrar que A(C) implica em B(C).
>> Para tal efeito, suponhamos <por contraposição> que não-B(C) é o caso.
%% Novo objetivo: Queremos concluir não-A(C).
[preencha o argumento com detalhes específicos, de acordo com os
detalhes concretos dos conceitos usados no enunciado]
Note-se que não há nenhum papel para tabelas de verdade, acima, na
argumentação "típica" apresentada.

%%%

Acrescento, por fim, que não vejo porque discordar das suas críticas
sobre o "Ensino Colegial", mas reitero a minha questão inicial: será
que o estudo de tabelas de verdade (que, no meu entendimento, não
ajudam nada ou quase nada no quesito "métodos de demonstração") não
teriam melhor lugar, de fato, no estudo pré-universitário?

Abraços,
Joao Marcos

On Wed, Dec 27, 2023 at 1:00 PM Walter Carnielli <walte...@unicamp.br> wrote:
>
> Olá João e. outra(o)s   interessados:
>
> Dou aqui minha contribuição sobre a questão. Estudei matemática de
> forma profissional na Unicamp  por 7 anos, bacharelado,  mestrado e
> doutorado,e depois   pós-doutorado na Universidade de Califórnia e em
> Münster, na Alemanha. Nunca.  ninguém usou coisas  elementares de
> lógica em disciplinas e matemática, nem  no IMPA, na Unicamp, USP,
> Berkeley, , Münster, etc, Mas todos  tinham. por trás  a. premissa
> que os estudantes sabiam essas coisas. através do ensino médio.
> (chamado "colegial". na. época, muito. melhor. nome).
>
> E de fato durante meus 7 anos de "ginásio" e. "colégio"no Culto  à
> Ciência os professores de  matemática, com  formação em Rio Claro e na
> PUC na época, tinham uma boa noção de lógica, pelo menos intuitiva.
> Não citavam a questão da completude,  ou compacidade,  mas
> enfatizavam o seguinte:
>
> 1)  "Similaridade " (isomorfismo) ) entre  as operações lógicas e as
> operações conjuntistas (no fundo,  uma versão intuitiva do Teorema de
> Representação de  Stone.).
> 2) Falavam dos procedimentos  ds. prova. por redução ao absurdo,
> baseado na. tabela da . implicação, em especial usos de equivalência
> em demonstrações elementares  de  trigonometria
> 3) Mencionavam sempre as tabelas  usuais  da  conjunção, disjunção,
> implicação, negação para. guiar  o raciocínio
> 4) Sempre se mencionavam rudimentos de. lógica  quantificada
> (existencial, universal, etc)
> 5) Esclarecem o papel dos axiomas principalmente em geometria
> 6) Mostravam métodos heurísticos de solução de e problemas  com régua
> e compassos (como o método de e Pappus de Alexandria, em "supor  um
> problema resolvido para tentar a solução"  )
> etc.
>
> Tudo isso a gente já sabia quando entrava em um curso de matemática,
> física, engenharia e computação.  Nao se vê  mais nada disso, Os
> professores de ensino médio não têm a menor ideia.
> Mas de fato, alguns expositores no YouTube, da velha escola, mencionam
>  coisas assim.
> Por tudo isso   acho fundamental voltar a  ensinar  essas coisas aos
> nossos estudantes universitários,
>
> Abs
>
> Walter
>
> Em ter., 26 de dez. de 2023 às 12:46, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> 
> escreveu:
> >
> > PessoALL:
> >
> > Uma conversa com um colega estes dias me motivou a escrever a presente
> > mensagem, que tem tanto um componente sociológico quanto um componente
> > mais propriamente lógico (bem como um interesse de fundo pedagógico).
> >
> > %%%
> >
> > (A)
> >
> > Segundo meu colega, é bem comum nas aulas, nos vídeos e nos livros de
> > Matemática pelo Brasil (talvez fora do Brasil também?) um uso mais ou
> > menos relaxado[§] da Lógica para justificar certas passagens
> > argumentativas.  Em particular, muitos professores de Matemática
> > presumivelmente acenariam para a possibilidade de justificar
> > estratégias de demonstração (digamos, o raciocínio por contraposição)
> > usando *tabelas de verdade*, o que também explicaria a razão pela qual
> > vários livros de "matemática elementar" ---usados a nível de
> > graduação, vejam bem---, bem como vários vídeos no YouTube também
> > falariam de tabelas de verdade como um procedimento matematicamente
> > relevante para esclarecer ou fundamentar a lógica subjacente a um
> > determinado argumento matemático.
> >
> > [§] O adjetivo "relaxado", acima, aponta para usos absolutamente
> > informais de tautologias como justificativas para certas passagens,
> > através de rabiscos feitos ao lado da demonstração principal, no
> > quadro, supostamente para "explicar por que a coisa funciona".
> > Note-se, em particular, que em tais usos nunca há qualquer menção a
> > resultados de completude, digamos, conectando tabelas e demonstrações
> > formais (ou semi-formais).
> >
> > As primeiras perguntas que me vêm à mente sobre aquilo que foi relatado 
> > acima:
> > (A1) Quais as opiniões de vocês ---seja como discentes, seja como
> > docentes--- acerca das situações suprarreferidas, a partir de suas
> > experiências em sala de aula?
> > (A2) Quais destes procedimentos ---tabelas de verdade? argumentos
> > dedutivos? estratégias de demonstração?--- poderiam (ou deveriam) ser
> > trazidos para mais cedo, para o ensino pré-universitário, com alguma
> > vantagem para os alunos?
> >
> > (A minha impressão inicial sobre A2 seria de que não há nada no
> > procedimento das tabelas de verdade, em particular, possivelmente
> > usadas para ensinar "raciocínio lógico" ---resolver charadas, por
> > exemplo---, que precise ou deva esperar até além do Ensino Médio.  Mas
> > também não estou seguro de o quanto isto tudo ajudaria quando a
> > "matemática de verdade" ---vejam o item B, abaixo--- chega, no Ensino
> > Superior.)
> >
> > %%%
> >
> > (B)
> >
> > Esta segunda parte é talvez mais opiniosa (opiniática?), da minha parte.
> >
> > Mesmo ciente de que muitos livros de "matemática elementar" têm seus
> > capítulos sobre lógica proposicional, incluindo tabelas de verdade, e
> > mesmo ciente de que vários colegas gastam boas aulas sobre este
> > assunto (e não estou falando de aulas sobre Circuitos Lógicos), por
> > exemplo, em um curso inicial de Matemática Discreta, de Topologia, ou
> > de Análise, parece-me algo surpreendente que as *tabelas de verdade*
> > tenham um papel muito relevante para justificar argumentações
> > matemáticas mais sofisticadas.  Com efeito, se é fácil imaginar como
> > usar tabelas de verdade para procedimentos _refutativos_, por exemplo,
> > usar a tabela de verdade da implicação para justificar porque a
> > sentença A-implica-B é falsa quando A é verdadeira e B falsa, ou como
> > usar a tabela de verdade da disjunção para justificar a falsidade de
> > uma sentença da forma A-ou-B dada a falsidade de ambos e B, parece-me
> > no mínimo desafiante usar diretamente as tabelas da implicação ou da
> > disjunção para justificar, digamos, uma demonstração por _raciocínio
> > hipotético_ ou uma demonstração por _raciocínio por casos_ (e eu
> > provavelmente estenderia a minha perplexidade de modo a cobrir
> > praticamente qualquer outra estratégia matemática clássica de
> > argumentação).
> >
> > As primeiras perguntas que me vêm à mente, neste caso, são:
> >
> > (B1) Será mesmo o caso que é útil recorrer a tabelas de verdade (ou
> > lógica proposicional) para justificar estratégias matemáticas mais
> > sofisticadas (e absolutamente comuns)?  Se pensamos em um curso de
> > Análise Real, por exemplo, os passos argumentativos de mais interesse,
> > logo nas primeiras aulas, envolvem quantificadores aninhados.  Se
> > pensamos em um curso de Matemática Discreta, conceitos como
> > divisibilidade, congruência-módulo, supremos e ínfimos pressupõem que
> > entendemos como lidar com expressões quantificadas.  As equivalências
> > lógicas que poderiam "facilitar a vida", nestes casos, geralmente
> > envolvem mais do que conectivos proposicionais --- e quer me parecer
> > que nem mesmo os fragmentos proposicionais das ditas equivalências, no
> > fundo, _precisam_ ser justificados via tabelas de verdade.
> >
> > (B2) Consideremos um teorema "típico" de livro-texto, em Matemática:
> > "Seja C um coiso com as propriedades A e B.
> > Então C tem a propriedade D."
> > Poderíamos traduzir isto assim, digamos:
> > (\forall C:coiso)((A(C)\land B(C))\to D(C))
> > (Para ficar mais interessante a pergunta que segue abaixo, sugiro
> > assumirmos que existe um coiso C que nem tem a propriedade D nem falha
> > a propriedade A&B.)
> > Bem, baseado na parte A, acima, um uso que consigo imaginar para
> > tabela de verdade, aqui, seria para justificar, digamos, a
> > curryficação ---como é usual fazer em Computação ou em
> > Linguística/Semântica Formal--- da sub-expressão (A(C)\land B(C))\to
> > D(C) para uma expressão da forma A(C)\to (B(C)\to D(C)).  O restante
> > do raciocínio, numa demonstração direta do "teorema típico",
> > tipicamente seria conduzido "identificando contextos, criando e
> > descarregando hipóteses", como fazemos, por exemplo, através do
> > formalismo da Dedução Natural.  Vocês acham que haveria outros usos
> > interessantes para tabelas de verdade, neste tipo de argumentação
> > através de "raciocínio direto"?  Seria justificável, para tais usos,
> > que gastássemos muito tempo das aulas de Matemática a nível superior
> > ensinando os estudantes a fazerem tabelas de verdade?
> >
> > (Subjacentes às minhas perguntas, claramente, está a opinião
> > ---enviesada?--- de que tabelas de verdade são bem menos úteis do que,
> > digamos, um "filósofo tradicional" poderia imaginar, no que diz
> > respeito ao trabalho diário do "matemático praticante".)
> >
> > %%%
> >
> > Agradeço desde já aos colegas desta lista por compartilharem seus
> > sentimentos acerca destes assuntos.
> >
> > []s, Joao Marcos
> >
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