> Desculpa, mas parei no (A).
> Teria algum exemplo concreto de (A)?
> Não acompanho estes livros nem estes canais no YouTube (apesar de eu ter um 
> canal no YouTube, bem pequeno, por sinal, não costumo ver vídeos no YouTube).

Agradeço pela pergunta, Adolfo.

Em conversas com o tal colega, ele me citou livros que são utilizados
em disciplinas introdutórias de graduação tanto no Brasil quanto no
exterior:

Fundamentos de Matemática Elementar, vol. 1 - Iezzi et al
Iniciação à Lógica Matemática - Alencar Filho
Book of Proof - Hammack
The Tools of Mathematical Reasoning - Lakins

Ele nota que vários desses livros ensinam tabelas de verdade sem uma
conexão clara e bem justificada com a atividade de "fazer matemática".
Além disso, ele conta que várias disciplinas que cursou/assistiu
durante a graduação eram reflexo dessa tradição de livros escritos
neste estilo.  Em um episódio que assistiu, por exemplo, conta-me o
colega, o professor que estava ensinando conjuntos num curso de
Introdução à Análise diz que é o papel da Lógica elencar "o que é
argumentação aceitável", e este professor diz isso para logo em
seguida usar tabelas de verdade para "quebrar uma bi-implicação".  No
mesmo episódio, o professor apresenta um raciocínio pseudo-lógico
irreconhecível (a saber, um monte de fórmulas, uma após a outra) à
guisa de "demonstração matemática", logo após afirmar que "uma
demonstração por linguagem inteiramente formal é um saco".

E aqui um exemplo estrangeiro:
https://www.youtube.com/watch?v=y9N_85Ca3xo
Logo no início do curso o cara afirma que ensinará "how to do proofs".
Após 6 aulas ensinando pura lógica, essencialmente via tabelas de
verdade, lá na aula 7 ele faz a promessa de que ensinará ali sobre
"methods of proof".  Uma das primeiras coisas que ele faz é apresentar
um certo "method of contrapositive", que consiste em primeiro trocar o
problema inicial expresso na forma lógica de uma implicação
(universalmente quantificada), pelo problema equivalente expresso na
forma lógica da contrapositiva (universalmente quantificada) da dita
implicação.  Com isso ele troca uma implicação por outra, mas, como
seria de se esperar, ele não usa a tabela da implicação para
demonstrar o resultado que ele queria demonstrar.  Essencialmente o
mesmo ocorrerá mais adiante, quando ele apresenta o "method by cases"
dele, e em seguida quando ele apresenta seu "method of contradiction".
Não há nisto tudo, em isolado, nenhuma contribuição óbvia à afirmação
inicial do curso de que ele ensinaria "how to do proofs".

Espero que estes exemplos concretos ajudem a esclarecer a que eu me referia!

[]s, Joao Marcos


> On Tue, Dec 26, 2023, 12:46 PM Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote:
>>
>> PessoALL:
>>
>> Uma conversa com um colega estes dias me motivou a escrever a presente
>> mensagem, que tem tanto um componente sociológico quanto um componente
>> mais propriamente lógico (bem como um interesse de fundo pedagógico).
>>
>> %%%
>>
>> (A)
>>
>> Segundo meu colega, é bem comum nas aulas, nos vídeos e nos livros de
>> Matemática pelo Brasil (talvez fora do Brasil também?) um uso mais ou
>> menos relaxado[§] da Lógica para justificar certas passagens
>> argumentativas.  Em particular, muitos professores de Matemática
>> presumivelmente acenariam para a possibilidade de justificar
>> estratégias de demonstração (digamos, o raciocínio por contraposição)
>> usando *tabelas de verdade*, o que também explicaria a razão pela qual
>> vários livros de "matemática elementar" ---usados a nível de
>> graduação, vejam bem---, bem como vários vídeos no YouTube também
>> falariam de tabelas de verdade como um procedimento matematicamente
>> relevante para esclarecer ou fundamentar a lógica subjacente a um
>> determinado argumento matemático.
>>
>> [§] O adjetivo "relaxado", acima, aponta para usos absolutamente
>> informais de tautologias como justificativas para certas passagens,
>> através de rabiscos feitos ao lado da demonstração principal, no
>> quadro, supostamente para "explicar por que a coisa funciona".
>> Note-se, em particular, que em tais usos nunca há qualquer menção a
>> resultados de completude, digamos, conectando tabelas e demonstrações
>> formais (ou semi-formais).
>>
>> As primeiras perguntas que me vêm à mente sobre aquilo que foi relatado 
>> acima:
>> (A1) Quais as opiniões de vocês ---seja como discentes, seja como
>> docentes--- acerca das situações suprarreferidas, a partir de suas
>> experiências em sala de aula?
>> (A2) Quais destes procedimentos ---tabelas de verdade? argumentos
>> dedutivos? estratégias de demonstração?--- poderiam (ou deveriam) ser
>> trazidos para mais cedo, para o ensino pré-universitário, com alguma
>> vantagem para os alunos?
>>
>> (A minha impressão inicial sobre A2 seria de que não há nada no
>> procedimento das tabelas de verdade, em particular, possivelmente
>> usadas para ensinar "raciocínio lógico" ---resolver charadas, por
>> exemplo---, que precise ou deva esperar até além do Ensino Médio.  Mas
>> também não estou seguro de o quanto isto tudo ajudaria quando a
>> "matemática de verdade" ---vejam o item B, abaixo--- chega, no Ensino
>> Superior.)
>>
>> %%%
>>
>> (B)
>>
>> Esta segunda parte é talvez mais opiniosa (opiniática?), da minha parte.
>>
>> Mesmo ciente de que muitos livros de "matemática elementar" têm seus
>> capítulos sobre lógica proposicional, incluindo tabelas de verdade, e
>> mesmo ciente de que vários colegas gastam boas aulas sobre este
>> assunto (e não estou falando de aulas sobre Circuitos Lógicos), por
>> exemplo, em um curso inicial de Matemática Discreta, de Topologia, ou
>> de Análise, parece-me algo surpreendente que as *tabelas de verdade*
>> tenham um papel muito relevante para justificar argumentações
>> matemáticas mais sofisticadas.  Com efeito, se é fácil imaginar como
>> usar tabelas de verdade para procedimentos _refutativos_, por exemplo,
>> usar a tabela de verdade da implicação para justificar porque a
>> sentença A-implica-B é falsa quando A é verdadeira e B falsa, ou como
>> usar a tabela de verdade da disjunção para justificar a falsidade de
>> uma sentença da forma A-ou-B dada a falsidade de ambos e B, parece-me
>> no mínimo desafiante usar diretamente as tabelas da implicação ou da
>> disjunção para justificar, digamos, uma demonstração por _raciocínio
>> hipotético_ ou uma demonstração por _raciocínio por casos_ (e eu
>> provavelmente estenderia a minha perplexidade de modo a cobrir
>> praticamente qualquer outra estratégia matemática clássica de
>> argumentação).
>>
>> As primeiras perguntas que me vêm à mente, neste caso, são:
>>
>> (B1) Será mesmo o caso que é útil recorrer a tabelas de verdade (ou
>> lógica proposicional) para justificar estratégias matemáticas mais
>> sofisticadas (e absolutamente comuns)?  Se pensamos em um curso de
>> Análise Real, por exemplo, os passos argumentativos de mais interesse,
>> logo nas primeiras aulas, envolvem quantificadores aninhados.  Se
>> pensamos em um curso de Matemática Discreta, conceitos como
>> divisibilidade, congruência-módulo, supremos e ínfimos pressupõem que
>> entendemos como lidar com expressões quantificadas.  As equivalências
>> lógicas que poderiam "facilitar a vida", nestes casos, geralmente
>> envolvem mais do que conectivos proposicionais --- e quer me parecer
>> que nem mesmo os fragmentos proposicionais das ditas equivalências, no
>> fundo, _precisam_ ser justificados via tabelas de verdade.
>>
>> (B2) Consideremos um teorema "típico" de livro-texto, em Matemática:
>> "Seja C um coiso com as propriedades A e B.
>> Então C tem a propriedade D."
>> Poderíamos traduzir isto assim, digamos:
>> (\forall C:coiso)((A(C)\land B(C))\to D(C))
>> (Para ficar mais interessante a pergunta que segue abaixo, sugiro
>> assumirmos que existe um coiso C que nem tem a propriedade D nem falha
>> a propriedade A&B.)
>> Bem, baseado na parte A, acima, um uso que consigo imaginar para
>> tabela de verdade, aqui, seria para justificar, digamos, a
>> curryficação ---como é usual fazer em Computação ou em
>> Linguística/Semântica Formal--- da sub-expressão (A(C)\land B(C))\to
>> D(C) para uma expressão da forma A(C)\to (B(C)\to D(C)).  O restante
>> do raciocínio, numa demonstração direta do "teorema típico",
>> tipicamente seria conduzido "identificando contextos, criando e
>> descarregando hipóteses", como fazemos, por exemplo, através do
>> formalismo da Dedução Natural.  Vocês acham que haveria outros usos
>> interessantes para tabelas de verdade, neste tipo de argumentação
>> através de "raciocínio direto"?  Seria justificável, para tais usos,
>> que gastássemos muito tempo das aulas de Matemática a nível superior
>> ensinando os estudantes a fazerem tabelas de verdade?
>>
>> (Subjacentes às minhas perguntas, claramente, está a opinião
>> ---enviesada?--- de que tabelas de verdade são bem menos úteis do que,
>> digamos, um "filósofo tradicional" poderia imaginar, no que diz
>> respeito ao trabalho diário do "matemático praticante".)
>>
>> %%%
>>
>> Agradeço desde já aos colegas desta lista por compartilharem seus
>> sentimentos acerca destes assuntos.
>>
>> []s, Joao Marcos
>>
>> --
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