Oi Cassiano,

Eu não sabia nada sobre o Peirce até encontrá-lo no livrinho do John Lane
Bell sobre o cálculo com infinitesimais nilpotentes (A primer of
infinitesimal analysis).

De acordo com o John L. Bell, Peirce percebeu antes mesmo que Brouwer que
uma análise do contínuo como tal, o contínuo geométrico, da noção
propriamente geométrica de continuidade, acarretaria necessariamente o
abandono da lei do terceiro excluído. E Peirce teria sido um defensor dos
infinitesimais, contra os preconceitos introduzidos pela aritmetização da
análise.

Noutras palavras: muitas vezes queremos praticar matemática e lidar com
criaturas rebeldes (infinitesimais, conjuntos que pertencem a si mesmos,
lembrando o Peter Aczel, contradições, etc.) e vemos que o ambiente de
trabalho padrão nos proíbe de fazer isso, porque, a bem da verdade, o nosso
paradigma dominante serve, em última instância, para preservar a lógica
clássica: é completamente subordinando a ela.

A concepção de Brouwer, por sua vez, ao subordinar a lógica à matemática, e
não o contrário, nos permite trafegar com mais naturalidade por diferentes
mundos e assim não precisamos banir as criaturas rebeldes. Sacrificamos a
lógica clássica e não as ideias matemáticas.

Esta é a vantagem, ao meu ver, do paradigma categorial inaugurado pelas
pesquisas fundacionais do William Lawvere e que culminaram com o
desenvolvimento da teoria dos topos, topos theory (não sei qual a expressão
corrente em português).

Mas há muito mais filosofia e epistemologia da matemática por trás dessa
cristalização de paradigmas. Remonta à diferença entre a concepção de
universo de Parmênides (que levaria à matemática clássica) e concepção de
universo de Heráclito (que levaria à matemática categorial).

Abraços!

M.

Em segunda-feira, 7 de agosto de 2023, Cassiano Terra Rodrigues <
cassiano.te...@gmail.com> escreveu:

> Camaradas, bons dias!
> Acompanhei com vivo interesse a palestra com o Samuel e agora essa
> maravilhosa conversa aqui. Agradeço a vcs, todos e todas.
> A mensagem do Marcio com os pontos de contato com Brower contemplou o q eu
> estava ensaiando para escrever, de modo que escrevo apenas para
> complementar e lançar algumas perguntas, já q eu não sou matemático e nem
> lógico. Perdoem então a minha ingenuidade filosófica.
> O argumento do Samuel para o Daniel me parece funcionar na seguinte base
> "metafísica" : uma vez que é provado, então é possível para além do
> provado. Isso faz da distinção entre lógica e matemática algo menos nítido
> do q as nossas classificações disciplinares parecem sugerir, não?
> Ao mesmo tempo, a ideia de "ambiente de trabalho" preserva a distinção
> entre a linguagem e a atividade científica da matemática em si, digamos
> assim, se for permitido. Pois o q ressalta aos meus olhos é q não se deve
> confundir a própria ciência com a linguagem da qual ela se utiliza, em
> outros termos, uma coisa é o que o matemático faz com o cálculo, outra é o
> próprio cálculo que ele usa. Mas inventar a própria linguagem é algo q os
> matemáticos fazem desde sempre, não? Então, esse aspecto criativo me fez
> pensar q realmente a lógica é q está dentro da matemática, como Brower (e
> Peirce) defendiam, já q os lógicos, para descrever os raciocínios, quando
> inventam linguagens, agem como matemáticos. E me fez pensar ainda no que
> significa dizer q a matemática é ciência, o que é descoberta ou invenção ou
> constatação etc. Não tenho mesmo melhor resposta do q a do Márcio, são
> critérios pragmáticos q decidem isso (ou valores, como quer Kuhn). O que
> não me parece contradizer a ideia de q a matemática nos revela coisas q de
> outra forma não saberíamos (há verdades matemáticas q não dependem de
> arbitrariedades humanas, ainda q sejam verdades puramente hipotéticas).
> Agora, puxando a sardinha pra brasa q eu conheço um pouco melhor, Peirce
> afirma o seguinte sobre a prática da matemática: diante de um estado de
> coisas confuso e intrincado, um físico, um médico ou um filósofo convocam
> um matemático cujo trabalho é desemaranhar essa confusão em termos tão
> simples e relações tão abstratas quanto o permitam as premissas dadas. É a
> criação de um estado de coisas hipotético. Desse modo, evidenciam-se
> relações de outra maneira obscuras e as conclusões podem ser generalizadas
> e esse é o interesse primordial do matemático: extrair conclusões que podem
> ser generalizadas para outros "ambientes de trabalho".
> Faz sentido isso? A pergunta se dá em razão de que recentemente convidei o
> Odilon (Odilon Luciano, da USP, pra quem não sabe) pra uma palestra de um
> Pint of Science e ele lembrou q a maior parte da matemática q se faz
> atualmente era desconhecida até a aurora do século XX. E penso ainda q os
> desenvolvimentos em teoria das categorias pode levar essa situação muito
> adiante e daqui a 100 anos alguém poderá dizer o mesmo do século XXI. Estou
> delirando muito?
> Antes de terminar, aproveitando o outro fio, essa seria uma boa temática,
> penso eu, para uma mesa na SBPC, não?
> Novamente, deixo os agradecimentos.
> Abraços,
> cass.
>
>
>
>

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