Concordo com você, Julio. Os lógicos e o pessoal dos fundamentos não são 
legisladores e nem juízes da matemática. São apenas cronistas.

Saudações,
Daniel.

Em terça-feira, 8 de agosto de 2023 às 07:54:10 UTC-3, jmstern escreveu:

> > "Todo matemático, em geral, escolhe uma das seguintes alternativas: 
> > A matemática está inteiramente internalizada na Teoria dos Conjuntos;
> > A matemática pode ser inteiramente internalizada na Teoria dos Conjuntos;
> > A matemática deve ser inteiramente internalizada na Teoria dos 
> Conjuntos" 
>
> Car(a/o)s: 
> Permitam-me apresenta uma visao alternativa: 
>
> -- A maioria dos matematicos, simplesmente Nao esta interessada nesta 
> questao. 
> Esta questao eh pertinente para -- Fundamentos da Matematica -- , 
> uma Area Especifica muito interessante, para uma minoria que gosta do 
> assunto,   
> mas provavelmente desnecessaria para o trabalho da maioria dos 
> matematicos.  
>   
> Reproduzo a seguir um pequeno trecho do artigo: 
>  
> Julio Michael Stern (2020). Prof. Carlos Edgard Harle: Boas Lembranças e 
> Sábias Lições. Revista Matematica Universitária, 2020, 2, 56-61. 
> <https://www.ime.usp.br/~jmstern/wp-content/uploads/2020/12/Ste20RMU.pdf> 
> doi: 10.21711/26755254/rmu202025 
> <https://doi.org/10.21711/26755254/rmu202025>
>  
> ------------------------------------
>
> 2.3.  [Terceira Licao:] 
> Em engenharia, a construção de uma casa começa pelo trabalho nos 
> fundamentos. 
> Em matemática, os fundamentos são feitos no final, para suportar a casa 
> que já temos! 
>    
> Enquanto fazia meu mestrado, tive notícia de uma suposta prova topológica 
> de inconsistência de ZFC (a teoria de conjuntos de Zermelo–Fraenkel 
> acrescida pelo Axioma da Escolha), uma ferramenta padrão de fundamentos da 
> matemática. Lá fui eu, muito preocupado, conversar a respeito com meu 
> orientador. 
> O Harle logo me tranquilizou, explicando que, verdadeira ou não, a notícia 
> pouco impacto teria sobre nosso trabalho em geometria [Lorentziana/ 
> Riemanniana]. 
> Para o Harle, o papel da geometria seria o de tratar racional e 
> sistematicamente uma classe de problemas que se nos apresentam no mundo em 
> que vivemos; situação semelhante à de outras disciplinas científicas ou 
> especialidades da matemática. 
>
> Na visão do Harle, o papel da área de fundamentos seria o de prover uma 
> base comum que atendesse às necessidades de um programa avançado e 
> abrangente de axiomatização de todas estas disciplinas. 
> Tal programa seria altamente meritório; todavia, eu deveria ter sempre em 
> mente a terceira lição, como acima enunciada. 
>
> Muito mais tarde na vida, encontrei uma perspectiva (em minha visão) 
> semelhante, na citação seguinte atribuída a Kurt Gödel, vide Mehlberg 
> (1962, p.86), Lakatos(1978, p.27) e Stern (2011, p.645-647). Mais uma vez, 
> esta lição, que aprendi com o Harle, sobre o papel que cabe em ciências 
> exatas a seus fundamentos axiomáticos, veio a influenciar 
> significativamente meu trabalho futuro. 
>
> [...] o papel das assim chamadas ‘fundações’ é comparável à função 
> exercida, nas teorias físicas, por hipóteses explicativas. [...] A real 
> função dos axiomas é a de explicar os fenômenos descritos pelos teoremas 
> deste sistema, e não o de prover uma genuína ‘fundação’ para estes 
> teoremas. (Kurt Gödel) 
>    
> --------------------------------------
>
> No artigo seguinte, faco uma analise mais detalhada desta (minha?) visao 
> "empiricista" da matematica:  
>
> Julio Michael Stern (2011). Constructive Verification, Empirical 
> Induction, and Falibilist Deduction: A Threefold Contrast.  *Information*,  
> 2, 4, 635-650. 
> <https://www.ime.usp.br/~jmstern/wp-content/uploads/2020/10/Ste11Axi.pdf>  
> doi:10.3390/info2040635 <http://doi.org/10.3390/info2040635> 
>
> Como referencia fundamentais (pun intended) para esta posicao, cito: 
>
> Arpad Szabo (1978). The Beginnings of Greek Mathematics; Akademiai Kiado:  
> Budapest, Hungary.  
>
> Imre Lakatos, J. Worall, E. Zahar, eds. (1976). Proofs and Refutations: 
> The Logic of Mathematical Discovery;  Cambridge University Press: 
> Cambridge, UK. 
>
> Imre Lakatos (1978). Philosophical Papers. V.1 -- The Methodology of 
> Scientific Research Programmes. V.2. -- Mathematics, Science, and 
> Epistemology. Cambridge University Press: Cambridge, UK. 
>
> ------------------------------------------ 
>
> Notem ainda que Logica tem varios papeis relevantes nesta discussao. 
>
> - Um papel, aceito e tradicional, da Logica e teoria dos conjuntos eh 
> justamente o de construir ferramentas para Fundamentos Axiomaticos da 
> Matematica, sendo ZFC o paradigma mais conhecido. 
>
> Outros papeis relevantes (na minha opiniao) da Logica seriam os de: 
>
> > Estudar os processos -- Indutivos -- (sim, sim; Indutivos, nao 
> dedutivos!) que levam a abstracao de estruturas matematicas a partir da 
> formalizacao de teorias Fisicas (ou em outras ciencias empiricas), e 
>  
> > Estudar a melhor forma de construir e oganizar Ontologias da (ou de 
> partes da) Matematica e a melhor forma para sua  insercao nas ou 
> interacao com as ontologias de ciencias empiricas.       
>  
> Tudo de bom, 
> ---Julio Stern 
>     
>
> ------------------------------
> *From:* 'Samuel Gomes da Silva' via LOGICA-L <logi...@dimap.ufrn.br>
> *Sent:* Monday, August 7, 2023 5:45 PM
> *To:* Daniel Durante <dura...@gmail.com>
> *Cc:* LOGICA-L <logi...@dimap.ufrn.br>; marciopalmares <
> marciop...@gmail.com>; LOGICA-L <logi...@dimap.ufrn.br>; Petrucio Viana <
> petruci...@id.uff.br>; Marcos Silva <marcos...@gmail.com>; Grupo de 
> pesquisa CLEA <pin...@googlegroups.com>; valeria.depaiva <
> valeria...@gmail.com>; Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>
> *Subject:* [Logica-l] Re: ao 
>  
> Caros,
>
> A mensagem do Cassiano eu preciso digerir mais, hehe,
>
> Daniel, sua analogia com "geometria é álgebra" é pertinente sim,
>
> E na verdade me lembrou do prefácio de um excelente livro de graduação de 
> Teoria dos Conjuntos, o do Enderton: se não me falha a memória, vai na 
> seguinte linha:
>
> "Todo matemático, em geral, escolhe uma das seguintes alternativas:
>
> A matemática está inteiramente internalizada na Teoria dos Conjuntos;
>
> A matemática pode ser inteiramente internalizada na Teoria dos Conjuntos;
>
> A matemática deve ser inteiramente internalizada na Teoria dos Conjuntos"
>
> Apesar do que alguém poderia pensar, mesmo com o meu "matemática é ZFC", 
> eu tendo a pensar mais pela segunda alternativa, talvez nesse espírito de 
> "ambiente de trabalho".
>
> (E como pintura do cachimbo, claro...)
>
> Abraços
>
> []s Samuel 
>
> PS: Ah sim, isso de "geometria é álgebra"
> tem a haver com a internalização da geometria dentro da álgebra, aí da 
> mesma forma a pessoa pode decidir entre "está", "pode ser", "deve ser"...
>
>
>
>
>
>  
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
>
> ----- Mensagem original -----
> De: Daniel Durante <dura...@gmail.com>
> Para: LOGICA-L <logi...@dimap.ufrn.br>
> Cc: marciopalmares <marciop...@gmail.com>, LOGICA-L <logi...@dimap.ufrn.br>, 
> samuel <sam...@ufba.br>, Petrucio Viana <petruci...@id.uff.br>, Daniel 
> Durante <dura...@gmail.com>, Marcos Silva <marcos...@gmail.com>, Grupo de 
> pesquisa CLEA <pin...@googlegroups.com>, valeria.depaiva <
> valeria...@gmail.com>, Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>
> Enviadas: Mon, 07 Aug 2023 10:41:05 -0300 (BRT)
> Assunto: Re: ao
>
> Oi Marcio e colegas,
>
> Eu acho, Marcio, que quando Samuel fala que a matemática é ZFC, ele não 
> está querendo dizer isso literalmente, no sentido de que os números são 
> certos conjuntos e que as funções são conjuntos de pares com certas 
> propriedades,... Ele está falando de um jeito menos literal. Os números 
> são 
> qualquer coisa que se comporte como aqueles conjuntos se comportam em ZFC 
> e 
> as funções são qualquer coisa que se comporte como aqueles conjuntos de 
> pares se comportam em ZFC.
>
> Porque veja, junto com dizer que a matemática é ZFC ele diz também que ZFC 
> não tem modelo canônico e que a matemática não são nem as regras do jogo, 
> nem os diversos tabuleiros onde o jogo é jogado - nem os axiomas de ZFC, 
> nem seus muitos modelos.
>
> A matemática não é a formalização de ZFC e também não é cada uma das 
> possíveis estruturas que verificam os axiomas. A matemática seria aquilo 
> que todas as estruturas que verificam os axiomas têm em comum.
>
> Aí, cabe tanto os matemáticos contemporâneos que nem sabem quais são os 
> axiomas de ZFC, mas que os respeitam, porque vivem em (jogam) versões 
> desse 
> jogo, ainda que talvez nem saibam disso. E cabe também, em certo sentido, 
> os matemáticos do passado que também jogavam versões desse jogo sem saber.
>
> Talvez, se a gente procurar na história, a gente encontre os momentos em 
> que as regras do jogo foram se estabelecendo, e o jogo foi sendo 
> consolidado. Nessa visão dá para entender até o protesto de Valéria, por 
> exemplo, que nos lembrou que muitos matemáticos se recusam a utilizar o 
> axioma da escolha e se limitam a jogadas que cabem em ZF, uma versão 
> simplificada do jogo.  
>
> E protestos desse tipo ajudam também a explicar e acomodar as abordagens 
> fundacionais alternativas. Qual seria a principal motivação de quem pensa 
> em fundar a matemática na Teoria das Categorias, ou na Teoria dos Tipos? 
> Eu 
> acho que a principal motivação é ajustar o JOGO para alguma divergência 
> que 
> não se encaixa perfeitamente em ZFC.
>
> Acho que um bom exemplo para entender isso é a relação da geometria com a 
> álgebra. Veja, não sou matemático e se eu tiver falando bobagem, vocês 
> simplesmente desconsiderem. Mas vejo a afirmação de que a matemática é ZFC 
> de um modo paralelo à afirmação de que a geometria é álgebra.
>
> Em um certo sentido, isso está correto. Que eu saiba, não há nada na 
> geometria que não caiba na álgebra, no sentido de que não há nenhum 
> resultado geométrico que não tenha contrapartida algébrica. Então, em um 
> sentido matemático, de resultados, geometria é álgebra. Mas é claro que 
> Euclides, ou os geômetras de régua e compasso não são algebristas e não 
> estavam fazendo álgebra. É claro que conseguimos entender certas 
> estruturas, relações e conceitos muito melhor e mais claramente na 
> geometria que na álgebra, que todos temos intuições geométricas, mas que 
> só 
> alguns poucos de nós, matematicamente treinados, têm as intuições 
> algébricas equivalentes.
>
> Então, em um outro sentido muito forte, geometria não é álgebra. Mas esse 
> outro sentido muito forte, não é o sentido matemático. Em um sentido 
> matemático, de resultados matemáticos, geometria é álgebra.
>
> Então, pensando nesses termos, eu concordo com a tese de Samuel de que a 
> matemática é ZFC. Mas isso não me impede de concordar se o Eduardo Ochs ou 
> alguém da teoria das categorias me disser que a matemática é Teoria das 
> Categorias ou outra teoria qualquer, desde que as eventuais divergências 
> extensionais entre a teoria nova e ZFC sejam convincentemente justificadas.
>
> Não sei se o Samuel, que é o "pai da criança", enxerga sua própria 
> abordagem desse jeito. Mas é assim que eu vejo. E nesses termos, eu 
> concordo com ela.
>
> Saudações,
> Daniel.
>
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