Oi Cassiano,

Sim algumas poucas pessoas têm duas graduações, muito poucas.

Outras, inclusive muito dos meus alunos e ex-alunos,  têm graduação em
filosofia ou emgenharia e pós-graduação em lógica ou outra coisa assim.

Mas repito e insisto: a tal reserva de mercado não está interessada na
pós-graduação, só está interessada no "canudo" do bacharelado!

Então, por exemplo meu ex-aluno Alfredo (permito-me falar sobre ele até
para defendê-lo) tem uma ótima graduação em engenharia no ITA e um
doutorado em filosofia-- mas  não vai ter chance, sendo que é um dos
excelentes lógicos da sua geração.

Gostaria até de ouvir o pessoal da UnB sobre isso.

Abraços,

W


Em qua., 14 de dez. de 2022 17:29, Cassiano Terra Rodrigues <
cassiano.te...@gmail.com> escreveu:

> Walter, especificamente à sua pergunta, conheço vários colegas q têm duas
> graduações, na filosofia ou qq outra área. Isso sem falar na pós-graduação.
>
> Abraços,
> cass.
> Cassiano Terra Rodrigues
> Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA
>
> Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206
> Campus do DCTA
> São José dos Campos
> São Paulo, Brasil
> CEP: 12228-463
> Tel. (+55) 12 3305 8438
>
> --
> lealdade, humildade, procedimento
>
>
> On Wed, Dec 14, 2022 at 5:24 PM Walter Carnielli <walte...@unicamp.br>
> wrote:
>
>> Oi Cassiano,
>>
>> Você escreveu umas 60 ou 70 linhas como advogado do diabo, só que o diabo
>> escorrega no seguinte:
>>
>> alguém consegue ter bacharelado em matemática e licenciatura em
>> filosofia, ou vice-versa?
>>
>> Você  conhece alguém nessa situação fora dos   Estados Unidos,  onde o(a)
>> cara faz o major e o  minor?
>>
>> Aqui não tem isso , não existe, não conheço ninguém que tenha essa
>> capacidade de fazer bacharelado em alguma coisa e licenciatura em outra em
>> áreas tão diferentes.
>>
>>
>> De mais a mais, quando essa "reserva de mercado"  fala em graduação, eles
>> estão interessados só em bacharelado.
>>  Licenciatura para eles é lixo...
>>
>> Abs
>>
>> W.
>>
>> Em qua., 14 de dez. de 2022 14:05, Cassiano Terra Rodrigues <
>> cassiano.te...@gmail.com> escreveu:
>>
>>> Camaradas, bons dias.
>>> Como se trata de dar opinião,  vou dar a minha, já q sou graduado e pós
>>> graduado em filosofia, pela UNICAMP, e tive uma formação pífia em lógica,
>>> pois na minha graduação havia 1 único semestre reservado para a disciplina
>>> e muito desprezado tanto pelo corpo docente quanto pelo discente. Estou
>>> falando da década de 1990, qdo a graduação em filosofia na UNICAMP era
>>> recém nascida. Hoje, creio eu, a situação é outra, tanto por parte da carga
>>> horária quanto por parte do interesse, e até onde sei muita coisa mudou,
>>> não apenas na UNICAMP. da qual podem falar com propriedade quem está lá.
>>> No entanto, para fazer o advogado do diabo e tentar apresentar um
>>> contexto mais amplo, não posso deixar de lembrar q "reservas de mercado"
>>> não surgem do nada e não sobrevivem pairando no céu. Relativamente ao
>>> concurso da UnB, o edital diz "graduação em filosofia", o que me parece
>>> incluir licenciatura e bacharelado, não? Posso estar enganado, não li o
>>> edital todo, mas se for realmente isso, a pessoa pode ter bacharelado em
>>> matemática, engenharia ou direito e licenciatura em filosofia (ou
>>> vice-versa) e estaria apta a prestar o concurso. Se for isso mesmo, não
>>> vejo tanto problema na exigência; é restritivo, mas nem tanto. Digo isso pq
>>> acho q cabe aqui lembrar q a carreira docente nas universidades brasileiras
>>> inclui a docência, apesar de muita gente não gostar disso. E a realidade no
>>> Brasil é q há mais cursos de filosofia com professores q são formados em
>>> teologia ou direito do q em filosofia (a CAPES, até bem pouco tempo,
>>>  reunia as áreas de Teologia e Filosofia, e a separação não mudou a
>>> realidade). Isso incapacita os professores a priori? Não creio q seja o
>>> caso. Mas é um fato a se pensar q nem Aristóteles, nem Galileo enfrentaram
>>> o contexto da profissionalização q hoje é imprescindível. Diploma não é
>>> garantia de conhecimento, mas se prescindirmos dos diplomas, então q seja
>>> abolida também a estrutura disciplinar, departamental e burocrática q
>>> sustenta a universidade como instituição de produção capitalista de
>>> conhecimento (lembremos q a "modernização" departamental foi uma imposição
>>> do regime militar, severamente criticada à época; hj, é praticamente um
>>> dado da natureza, tamanha a falta de questionamento). Não me parece q temos
>>> o q por no lugar em nenhum país do mundo e isso nada tem q ver com recusar
>>> a interdisciplinaridade; inclusive, eu diria q no atual estágio de
>>> capitalização das universidades no mundo, a interdisciplinaridade é um
>>> fator desejado para a reprodução do capital. Eu mesmo faço um elogio da
>>> interdisciplinaridade e sou a favor de concursos abertos à diferentes
>>> áreas, mas é preciso defender a especificidade da formação ao mesmo tempo,
>>> não apenas para a pesquisa, mas sobretudo para a docência, pois a
>>> interdisciplinaridade no conhecimento vem do aprofundamento específico - é
>>> por aprofundar o conhecimento na sua área q alguém busca o de outras,
>>> deixem-me dizer assim - é o próprio desenvolvimento das questões q leva à
>>> necessidade de recorrer a outros saberes, pois conhecer, pesquisar,
>>> filosofar ou fazer ciência são atividades essencialmente comunicativas. No
>>> contexto de fragmentação das áreas de conhecimento, a filosofia, coitada,
>>> parece q perdeu tanto terreno q até hoje sofre a perda da identidade, mas
>>> tb sofre de falta de respeito por parte de outras áreas, q são
>>> esquizofrênicas qdo se trata de lidar com a filosofia. Se é possível
>>> filosofar em alemão, tupi ou mesmo português, e poetas e até donos de
>>> padaria filosofam, ao mesmo tempo filosofia não é qualquer coisa q basta
>>> querer fazer para conseguir. A esquizofrenia está aí: ninguém sabe o q é
>>> filosofia, mas todo mundo quer filosofar e acha q consegue. Longe de mim
>>> dizer quem pode ou não fazer qq coisa, mas entre a intenção e o gesto vai
>>> uma distância e não me parece q seja possível muito menos desejável
>>> escamotear q para não ficarmos presos ao senso comum é fundamental a
>>> sistematização formal do conhecimento (e isso é um direito q as escolas
>>> públicas devem garantir aos estudantes, aliás). Ao mesmo tempo, na minha
>>> avaliação, o insulamento da área de filosofia no Brasil levou a tal
>>> ignorância e descolamento da realidade q resultaram em elitismos
>>> vergonhosos; mas mesmo internamente à filosofia o insulamento é terrível,
>>> muitos sequer reconhecem a importância de estudar com um mínimo de
>>> seriedade algo q não está na sua prateleira elegida (não é de escolhas
>>> pessoais q falo, afinal, cada um escolhe a sua área de dedicação por razões
>>> psicológicas, qdo a situação o permite). Felizmente, penso, isso está
>>> mudando, ainda que talvez de modo muito indutivo. O diploma garante alguma
>>> coisa, nesse sentido? Acho q não, ou muito pouco. Mas o diploma, não como
>>> documento, mas como resultado de um percurso, é prescindível? Não creio q o
>>> seja e acho q poderia ser melhor.
>>> Perdoem-me o relato pessoal, mas não é por desabafo, é para levar ao
>>> ponto q o faço. Na minha graduação, tive péssimos professores formados em
>>> qualquer área, simplesmente pq, apesar de contratados e pagos como
>>> professores, detestavam lecionar.  Eu tb não gostava tanto assim de ir às
>>> aulas, então, não faço condenações pessoais. E gostar de lecionar, é claro,
>>> tampouco garante a qualidade da aula. O ponto é o sentido da formação e o
>>> compromisso com a formação, q a meu ver deve necessariamente ir além do
>>> carreirismo pessoal. Muitos professores ainda hoje não lecionam um único
>>> curso sequer em vários anos ou, se conseguem, lecionam apenas na
>>> pós-graduação cursos q interessam aos seus orientandos (a UNICAMP era uma
>>> bolha elitista, naquela época; basta citar q havia pouquíssimos cursos
>>> noturnos e muitos em período integral). Já ouvi de mais de um colega q dar
>>> aulas é como um pedágio para fazer pesquisa. Então, pra q serve a
>>> indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão? Nem vou falar da
>>> função social da extensão, ultimamente muito debatida. Mas a continuar essa
>>> mentalidade, tanto faz o diploma, pois é muito fácil lecionar a bel-prazer.
>>> Falta de compromisso pedagógico e liberdade docente são coisas bem
>>> diferentes, e, falando especificamente agora, planejar e executar um curso
>>> de lógica que dialogue com a formação em filosofia, da perspectiva da
>>> lógica contemporânea, não é fácil e exige muito mais q conhecimento da
>>> disciplina, exige tanto formação em lógica e filosofia quanto formação
>>> pedagógica. Nesse sentido, é mesmo estranho q nesse edital a filosofia
>>> esteja ausente. Mas o q me parece ruim mesmo é a falta de exigência
>>> pedagógica, o q fica a critério da banca, no fim das contas. Mas será q o
>>> bacharelado basta e isso pode ser relegado ao juízo da banca? Faz sentido,
>>> pq, afinal, o último projeto nacional de formação de professores foi de
>>> fato o Normal (o Magistério foi um remanejamento para baixo do Normal) e as
>>> licenciaturas não dão conta dessa tarefa.
>>> Eu entendo q a finalidade da pesquisa é a formação do estudante, pois
>>> sem isso a própria pesquisa não continua, então acho muito complicado q
>>> para concursos de instituições regidas pela indissociabilidade citada baste
>>> o diploma de bacharel e a prova didática seja avaliada por pessoas cuja
>>> única formação docente é, na maioria das vezes, a própria experiência ou
>>> quase isso. Não vejo muito outro jeito, pois de temos de partir do real,
>>> mas sem imaginar um futuro diferente fica difícil mudar.
>>>
>>> Saudações,
>>> cass.
>>> On Wednesday, December 14, 2022 at 11:17:16 AM UTC-3 Joao Marcos wrote:
>>>
>>>> > Me parece que a questão é a completa ausência de temas relacionados a
>>>> filosofia da lógica em um concurso para um departamento de filosofia.
>>>>
>>>> Não sei se dá para dizer que esta é "a questão", nesta thread, mas
>>>> certamente é uma _outra questão_ importante, além daquela que foi
>>>> levantada por João Ferrari.
>>>>
>>>> Vários anos atrás rolaram algumas conversas aqui interessantes sobre
>>>> que temas deveriam fazer parte de um concurso como este. Uma thread
>>>> nesta direção, do longínquo ano de 2008, foi esta, na qual
>>>> participaram em particular os saudosos amigos Andrea Loparic e Carlos
>>>> Gonzalez:
>>>>
>>>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/aBuc6Lyg4R0/m/y3OqInfGt6IJ
>>>>
>>>> Teria sido interessante acompanhar a evolução do tema ao longo dos
>>>> anos, com a coleta evidencial de programas de concursos que já
>>>> ocorreram, no país, para a área de Lógica na Filosofia. (Fiz isso
>>>> durante vários anos, e divulguei sempre nesta lista. Depois me
>>>> cansei, tendo notado haver pouco interesse na área de Filosofia para
>>>> dar continuidade a este diálogo.)
>>>>
>>>> > O candidato que domina os 10 temas do concurso não necessariamente
>>>> sabe sobre como fazer filosofia. Independente da graduação.
>>>>
>>>> E será que a _graduação_ específica em Filosofia, neste caso,
>>>> garantiria que o candidato aprovado "sabe sobre como fazer filosofia"?
>>>> (Esta questão particular está claramente relacionada à questão
>>>> original desta thread.)
>>>>
>>>> []s, JM
>>>>
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