Para além do "teorema do vaivém" de \omega-categoricidade demonstrado
por Cantor, já indicado por Rodrigo, talvez valha a pena apontar
também, com relação ao debatido "critério de identidade", do ponto de
vista efetivo, que a teoria das ordens lineares densas sem pontos
extremos possui eliminação de quantificadores (e, curiosamente, deixa
de possuir se os elementos extremos forem "acrescentados" à estrutura
e à sua correspondente teoria).

JM

On Tue, Feb 19, 2019 at 3:05 PM Rodrigo Freire <[email protected]> wrote:
>
> Olá Daniel,
>
> 1- Sim, o teorema é conhecido, e há uma demonstração é simples: Como todas as 
> ordens enumeráveis densas e sem extremos são isomorfas a Q (= estrutura dos 
> racionais com sua ordem), basta demonstrar para esse caso. A função x + (u - 
> s) é um isomorfismo de Q em Q.
>
> 2- Para responder isso é importante considerar que essa discussão é conhecida 
> no contexto do estruturalismo em filosofia da matemática. Considere o 
> seguinte slogan estruturalista: "A estrutura tem prioridade sobre seus 
> indivíduos, estes devem ser entendidos apenas como posições ou papéis 
> desempenhados na estrutura". Vamos assumir isso. Então seria de se esperar 
> que os diferentes indivíduos da estrutura corresponderiam a diferentes papeis 
> desempenhados. Mas em uma estrutura como Q os indivíduos não podem 
> corresponder a papeis desempenhados desse modo. Um exemplo mais simples: 
> Considere a estrutura com dois indivíduos a e b e a relação binária {(a,b) , 
> (b,a)}. Os indivíduos a e b desempenham o mesmo papel (de estar na relação 
> com o outro). Como poderíamos dizer que a e b são meros papeis desempenhados 
> se parece que só há um papel desempenhado nessa estrutura? É desse modo que 
> entendo o problema, e considero um bom argumento contra o slogan 
> estruturalista.
>
> Abraço
> Rodrigo
>
> On Tue, Feb 19, 2019 at 2:12 PM 'Durante' via LOGICA-L 
> <[email protected]> wrote:
>>
>> Caros colegas lógicos,
>>
>> Dia desses um colega me disse que uma ordem linear densa enumerável e sem 
>> extremos é uma estrutura matemática que não apresenta nenhum critério de 
>> identidade para os seus objetos.
>>
>> Dois exemplos de ordens lineares densas enumeráveis e sem os extremos são:
>>
>> (1) a ordem dos números racionais;
>>
>> (2) a ordem dos números racionais estritamente maiores do que 0 e 
>> estritamente menores do que 1.
>>
>> Minha primeira reação foi pensar: isso é bobagem!
>>
>> Para simplificar e exemplificar, vou argumentar aqui focando apenas no 
>> exemplo (2), a ordem dos racionais maiores que 0 e menores que 1. Mas tudo o 
>> que estou dizendo me parece facilmente generalizável para qualquer ordem 
>> deste tipo.
>>
>> Suponha que eu "pegue" um número em (2) e chame-o de 'd', e um de vocês, 
>> digamos o Samuel, também "pegue" um número em (2) e chame-o de 's'. Nós 
>> conseguiremos saber usando apenas sentenças da estrutura (2) se eu e Samuel 
>> pegamos o mesmo número ou não. A estrutura (2) é "forte" o suficiente para 
>> atribuir valor de verdade às sentenças (3) e (4) abaixo:
>>
>> (3) d < s
>> (4) s < d
>>
>> Se (3) e (4) forem ambas falsas, ou seja, se nenhum dos números for menor do 
>> que o outro, então saberemos que escolhemos o mesmo número. Ou seja (d = s). 
>> Caso uma das sentenças seja verdadeira, a outra será obviamente falsa, e 
>> neste caso saberemos que escolhemos números diferentes. Ou seja (d ≠ s).
>>
>> Bem, então temos um critério de identidade na estrutura (2). Para quaisquer 
>> números racionais d e s maiores do que zero e menores do que um:
>>
>> (5) (d = s) <=> ~(d < s) & ~(s < d).
>>
>> Ok. Mas suponha agora que eu peça para o Samuel apontar para o número 1/2 
>> usando apenas os recursos dados pela estrutura (2). Eu não tenho certeza se 
>> Samuel conseguiria fazer isso, mesmo sendo ele o grande matemático que todos 
>> sabemos que é. Como ele saberia se um dado número q desta estrutura é ou não 
>> igual a 1/2 sem usar nenhum recurso externo? Como ele acharia o 1/2 entre 
>> estes racionais?
>>
>> Uma resposta possível poderia ser: ora, basta ele aplicar o critério de 
>> identidade que definimos acima. Como 1/2 é um racional entre 0 e 1, então 
>> ele é um dos elementos da estrutura (2), que portanto é capaz de atribuir 
>> valor de verdade a (q < 1/2) e a (1/2 < q). Se ambas forem falsas, (q = 
>> 1/2), caso contrário, (q ≠ 1/2). Então, bastaria a Samuel, que tem os 
>> superpoderes de um matemático e não se preocupa com restrições meramente 
>> computacionais e construtivistas, fazer este teste com TODOS os números 
>> racionais entre 0 e 1 e apontar para aquele único que não é nem maior nem 
>> menor do que 1/2. Pronto. Ele conseguiria assim apontar para 1/2.
>>
>> Hum... mas espere um pouco. Tem uma casca de banana aí em cima. Para começar 
>> a fazer o teste acima, Samuel já tem que ter o número 1/2 disponível para 
>> comparar com todos os outros. Para conseguir apontar para o número 1/2 ele 
>> já teria que ter o número 1/2 à sua disposição. Mas eu o estou proibindo de 
>> usar qualquer informação não obtida da estrutura (2). A moral da estória é: 
>> ainda que 1/2 seja um dos números racionais maiores do que zero e menores do 
>> que um, a identificação de um número como sendo 1/2 exige mais recursos do 
>> que uma ordem linear densa, enumerável e sem os extremos pode nos dar.
>>
>> Falando isso de um jeito mais filosófico, eu diria que uma ordem linear 
>> densa, enumerável e sem os extremos não é suficiente para definir o conceito 
>> do número racional 1/2. O significado matemático de 1/2 (metade) exige mais 
>> do que uma tal ordem pode nos dar. Eu usei 1/2 apenas como um exemplo. Na 
>> verdade, nenhum número racional específico é identificável em (2). Ou, dito 
>> de um modo ainda mais geral, uma ordem linear densa enumerável e sem 
>> extremos é uma ordem tão fraca que é impossível fazer referência não ambígua 
>> a qualquer de seus elementos. Apesar de numericamente distintos, é como se 
>> todos os elementos de uma tal ordem fossem cópias da mesma coisa idêntica em 
>> todos os outros aspectos.
>>
>> Vou tentar explicar. Tudo que (2) me autoriza a afirmar de um dado elemento 
>> s é sua ordem relativa a outros elementos de (2). Ou seja, para afirmar algo 
>> de s eu preciso de outros elementos s1,...,sn e preciso posicionar s e estes 
>> outros elementos na ordem, tal como:
>>
>> (6) s1 < ... < s < ... < sn
>>
>> Mas seja qual for o posicionamento de s, sempre haverá infinitos outros 
>> objetos em (2) que se relacionam com s1,...,sn da mesma maneira que s se 
>> relaciona, ou seja, que ocupam a mesma posição de s apontada em (6).
>>
>> Então as coisas que podem ser ditas em (2) de seus elementos não os 
>> individualizam, porque  qualquer coisa que pode ser dita em (2) de algum de 
>> seus elementos, pode ser dita de infinitamente muitos outros.
>>
>> Parece, então, que a única verdadeira identificação dos distintos indivíduos 
>> da estrutura (2) é a identidade numérica. Não há mais nada em (2) que os 
>> distinga uns dos outros.
>>
>> Como falar isso de um jeito mais matemático e mais simples? Como dizer de um 
>> jeito matematicamente simples que a estrutura (2) não fornece um critério 
>> para identificarmos, por exemplo, o número 1/2? Eu acho que poderíamos dizer 
>> isso através do seguinte teorema:
>>
>> (7) TEOREMA - Seja S o conjunto de todos os números racionais r tais que 0 < 
>> r < 1. Para cada s ∈ S existe uma função bijetora f_s:S→S tal que, para todo 
>> t,u ∈ S:
>>    . f_s(s) = 1/2
>>    . (u < t) <=> (f_s(u) < f_s(t))
>>
>> Ou seja, para cada s ∈ S existe um isomorfismo f_s em S que mapeia s em 1/2 
>> e que preserva a ordem dos racionais. Isso significa que qualquer elemento 
>> de S pode "funcionar" como 1/2, pode "fazer o papel de" 1/2, porque 1/2 não 
>> tem papel nenhum na estrutura (2). A estrutura (2) é muito caótica. Ela não 
>> nos ajuda nem a contar nem a medir.
>>
>> Isso é bem estranho para a minha intuição (discreta e finitária). Deixe-me 
>> ilustrar um pouco. Suponha que s seja um número racional bem perto de 0. 
>> Algo como 0,0000000000001.
>> Não importa quão perto 0,0000000000001 esteja de 0, existe uma bijeção f em 
>> que f(0,0000000000001)=1/2 e que mapeia unicamente (espalhando) cada 
>> racional entre 0 e 0,0000000000001 em cada racional entre 0 e 1/2, e que 
>> também mapeia unicamente (espremendo) cada racional entre 0,0000000000001 e 
>> 1 em cada racional entre 1/2 e 1. E esta bijeção é um isomorfismo, pois 
>> preserva a ordem dos racionais. Ou seja, (u < t) <=> (f(u) < f(t)).
>>
>> Como eu entendo isso? Bem, esta ideia de estar mais perto de 0 ou de 1 ou de 
>> estar no meio, não faz sentido na estrutura (2). Apesar da ordem, nenhum dos 
>> elementos de (2) está mais perto de 0 ou de 1 do que qualquer outro. A ordem 
>> é densa, mas enumerável e sem extremos. Isso é quase nada. Viajando um 
>> pouco, acho que um bom nome para uma tal ordem seria "quase-caos".
>>
>> Generalizando o teorema (7) obtemos:
>>
>> (8) TEOREMA - Seja S o conjunto de todos os números racionais r tais que 0 < 
>> r < 1. Para cada s,u ∈ S, existe uma função bijetora f_su:S→S tal que para 
>> todo t,v ∈ S:
>>    . f_su(s) = u
>>    . (v < t) <=> (f_su(v) < f_su(t))
>>
>> Ou seja, dados quaisquer 2 números racionais s e u maiores que 0 e menores 
>> que 1, existe um isomorfismo f_su em S que mapeia s em u e que preserva a 
>> ordem dos racionais. Isso significa que qualquer elemento de S pode fazer o 
>> "papel" de qualquer outro elemento de S e, portanto, os elementos de S são 
>> cópias da mesma coisa. São distinguíveis apenas numericamente (ser o mesmo e 
>> ser outro), mas fora isso, são idênticos.
>>
>> Bem. Finalmente minhas dúvidas.
>>
>> D1. Alguém conhece este teorema (8)? Bem, eu acho que (8) é um teorema. 
>> Parece bem plausível, apesar de, pelo menos para mim, contra-intuitivo. 
>> Suspeito, inclusive, que ele tenha uma prova simples. Se não me engano, a 
>> versão do teorema (8) para o caso geral de qualquer ordem linear densa sem 
>> extremos foi demonstrada pelo próprio Cantor. Mas não estou certo. Algum 
>> palpite da prova?
>>
>> D2. Vocês acham que este teorema (8) é uma boa "interpretação matemática" do 
>> caso em questão? Meu colega disse que (2) é uma estrutura matemática que não 
>> contém nenhum 'critério de identidade' para os seus objetos. Mas eu acho que 
>> isso é um exagero. Há um critério de identidade. d e s são o mesmo se 
>> (~(d<s)&~(s<d)), e são distintos caso contrário. O que eu acho que falta a 
>> (2) [a todas ordens lineares densas enumeráveis e sem extremos] é um 
>> critério de especificidade, ou de definibilidade. Não há nada que eu possa 
>> dizer em (2) de um certo individuo que não seja verdade também de algum 
>> outro. Ou seja, todas as sentenças (finitas) de (2) que são verdadeiras de 
>> um objeto s, são também verdadeiras de muitos outros. (2) não tem capacidade 
>> de especificar nenhum de seus objetos. Então, eu diria que o que falta a (2) 
>> é um critério de definibilidade ou especificidade. Vocês acham que o teorema 
>> (8) captura esta ideia?
>>
>> Desculpem a longa mensagem e sintam-se a vontade para corrigir qualquer 
>> bobagem que eu tenha escrito.
>>
>> Saudações,
>> Daniel.
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