Oi Hermógenes,

 [...] Neste ponto, a única vantagem de TIT em comparação à ZF (sua 
> concorrente igualmente ad hoc), principalmente se você é um computeiro
> ou matemático preocupado com computabilidade, é o fato de TIT ser
> construtiva.


Retomando um pouco o ponto da Valéria sobre a computação/construtividade:

O intuicionismo, concebido como a escola de filosofia da matemática 
iniciada por Brouwer no começo do século XX, é fundamentado na noção de 
computação. Isso certamente é pouco claro em Brouwer, não só por suas 
inclinações ao misticismo, mas talvez principalmente pelo fato de que este 
iniciou o seu programa quase três décadas (1907, 1912) antes do 
amadurecimento matemático da noção de algorítimo fornecida pelos trabalhos 
de Turing e Church em cerca de 1936. Logo a noção de computação na qual 
Brouwer formulou o seu intuicionismo pode parecer obscura, estranha ou 
pouco familiar: uma noção primitiva de “construção mental” ou “intuição 
basal”, rotinas finitas que surgem no curso do tempo.

A matemática seria o resultado de tais construções e a lógica apenas um 
aspecto da matemática. Felizmente, parte dos escritos de Brouwer acerca de 
sua lógica foi polida e tornada mais precisa com a interpretação BHK e 
paradigma de proposição como tipos, 

Me parece que em ambos os quesitos, a) e b), a posição construtivista 
> de vertente intuicionista, conforme tradicionalmente concebida, deixa 
> muito a desejar.  Confesso que, às vezes, me pergunto se o 
> intuicionismo tradicional, como exemplificado pela tradição BHK, seria 
> mesmo uma posição filosoficamente coerente. 


mas, de todo modo, BHK (que se limita aos conectivos lógicos) é não mais 
que uma fotografia parcial do intuicionismo tradicional como todo. Acredito 
que, pela natureza do retrato, é natural que seja incompleto ou 
insatisfatório (nem mesmo todos “conectivos” são explicados, e.g. o que 
significa a igualdade?).

Já o paradigma de proposição como tipos tem provocado muita confusão e 
mal-entendidos, levando muita gente a afirmar que intuicionismo nada mais é 
que meta-matemática [1] [2]. O cerne da questão é que – como recentemente 
comentei com o Fernando off-list – há duas formas na qual podemos entender 
a correspondência entre tipos e proposições.

A primeira forma é bem óbvia: a sintática. A correspondência sintática 
entre proposição e tipos diz que os termos de uma teoria correspondem às 
derivações de uma respectiva teoria lógica. Aqui termos são meras 
caracterizações das derivações de uma teoria lógica. Isso também é 
refletido pelo fato de que o juízo de tipicidade, 'N : M', é analítico (no 
sentido de Martin-Löf [3], i.e. a checagem de tipos é decidível). Este é o 
caso da correspondência que ocorre na teoria de tipos intensional do 
Martin-Löf (MLITT) e é também – ao meu ver – a correspondência usada nos 
argumentos levantados por Rodrigo Freire acerca da circularidade da noção 
de verdade em Martin-Löf em Janeiro do ano passado.

A segunda correspondência, menos conhecida que a primeira, é a endossada 
por Brouwer e a que interessa ao intuicionista: a semântica. Provas são 
caracterizações de uma computação passo a passo que realizam a verdade de 
uma proposição. Provas são termos, mas não termos de qualquer teoria dos 
tipos definida por regras de inferências: termos de uma teoria que traz 
embutida a noção de computação. Esta é a correspondência enfatizada pelas 
explicações de significado (meaning explanations) do Martin-Löf, sobre o 
qual a sua teoria de tipos extensional (MLETT) [4] é fundamentada, e, 
portanto, é a que vale na MLETT. O juízo de tipicidade, normalmente escrito 
'N ∈ M' na literatura relevante à teoria extensional, é sintético (i.e. 
indecidível), dado que expressa não uma noção semântica: N é um programa 
que realiza o problema expresso por M. Ademais, o juízo  'N ∈ M' *deve* ser 
indecidível porque não há nenhuma maneira em geral de decidir se um 
programa, quando executado, gera um valor do tipo determinado: tal programa 
pode não ter nenhum valor. 

Pelo seu conteúdo computacional inerente, MLETT é frequentemente chamado de 
“teoria de tipos computacional” na literatura em torno do assistente de 
prova NuPRL [5], cujo próprio sistema é definido através da semântica 
fornecida pelas explicações de significado. 

De todo modo, o propósito desta mensagem certamente não é tentar convencer 
ninguém, nem retomar discussões passadas, mas apenas buscar ilustrar 
algumas das muitas razões que fazem com que outros e eu acreditem que o 
intuicionismo tradicional, concebida como uma escola em filosofia da 
matemática, apresenta uma posição filosoficamente coerente. Pagamos o preço 
da noção de computação, erguemos o edifício da matemática.

Contudo, a contrapartida (a 
> questão se todos os princípios de raciocínio justificáveis são de fato 
> deriváveis intuicionisticamente), isto é, completude, em terminologia 
> corrente, permanece em aberto no artigo, pois Martin-Löf não oferece 
> nenhum argumento em seu favor.  


PS: Posso estar enganado, mas acho um pouco equivocado e confuso usar a 
palavra “completude” (um termo de cunho técnico ou meta-matemático) neste 
caso quando estamos nos tratando de uma semântica informal ou justificativa 
filosófica (até onde sei, o estudo de semânticas formais para a lógica 
intuicionista nunca foi uma das preocupações principais do Martin-Löf). De 
qualquer forma, não vejo porque as explicações de significado não seriam 
“completas”, no sentido informal, para a MLETT, que, repito, é a única das 
duas vertentes tradicionais de sua teoria de tipos que interessa ao 
intuicionista.

Abraços lógicos,
Bruno

[1] – Bob Harper. Constructive mathematics is not meta-mathematics. 
https://existentialtype.wordpress.com/2013/07/10/constructive-mathematics-is-not-meta-mathematics/
[2] – Bob Harper. Extensionality, Intensionality, and Brouwer’s Dictum. 
https://existentialtype.wordpress.com/2012/08/11/extensionality-intensionality-and-brouwers-dictum/
[3] – Per Martin-Löf. Analytic and Synthetic Judgements in Type Theory. 1994
[4] – Per Martin-Löf. Constructive mathematics and computer programming. 
1982
[5] – PRL Group. Implementing Mathematics with The Nuprl Proof Development 
System. 1985.

--
Bruno Bentzen
https://sites.google.com/site/bbentzena/

On Thursday, April 6, 2017 at 8:59:18 PM UTC+8, Hermógenes Oliveira wrote:
>
> Fernando Yamauti <fgya...@gmail.com <javascript:>> escreveu: 
>
> > [...] 
> > 
> > Um outro caso que me incomoda muito e o Martin-Löf sempre joga em 
> > baixo do tapete: o porquê de " 'A true' infere 'B true' " ser 
> > correto, onde A é falso (onde o "falso" é clássico, ou seja, existe 
> > uma prova de \neg A) , para um construtivista. Como se constrói uma 
> > prova, a partir de uma prova de que o falso é verdadeiro? 
>
> Martin-Löf possui um conceito de "prova hipotética", isto é, em vez de 
> "prova" no sentido categórico, teríamos uma "prova" sob a assunção de 
> hipóteses.  Nesse caso, se nós temos que "¬A true", isto é, "A→⊥ 
> true", e também temos "A true", então "B true" se segue por modus 
> pones e ex contradictione quodlibet (ECQ).  Uma primeira questão, 
> então, seria: 
>
> a) Por que ECQ seria correto de um ponto de vista construtivo? 
>
> Aqui, vale notar que a validade construtiva de ECQ não é uma posição 
> unânime.  Nesse sentido, G. F. C. Griss[1] é um dos dissidentes mais 
> importantes e interessantes, pois parece argumentar de um ponto de 
> vista puramente construtivo.  Outros construtivistas apresentam 
> motivações diversas para se rejeitar ECQ, em especial, motivações 
> relacionadas à relevância e ao uso da implicação na linguagem 
> cotidiana (por exemplo, Johansson[2] e Tennant[3]). 
>
> Eu, pessoalmente, acho ECQ um princípio *muito* suspeito.  O difícil é 
> que, sem ECQ, um construtivista ficaria basicamente sem negação (ao 
> estilo do cálculo mínimo de Johansson), ou a negação cessaria de ser um 
> operador *lógico*.  Uma exceção interessante é o caso da "Core Logic" de 
> Tennant, onde a negação é dada um caráter lógico, mesmo sem ECQ, pela 
> admissão de modus tollendo ponens (ou silogismo disjuntivo) e uma regra 
> especial para a implicação que permite obter ¬A,A⊢B.  Muitos, porém, 
> acham o preço a se pagar muito salgado: falha da transitividade 
> (monotonicidade, regra de corte). 
>
> De qualquer maneira, talvez ECQ possa ser fundamentado de um ponto de 
> vista construtivo.  Contudo, as fundamentações (explicações) 
> oferecidas até o momento, por Martin-Löf e outros, também me parecem 
> insatisfatórias. 
>
> b) Um outro problema é que Martin-Löf explica (reduz) o conceito de 
> "prova hipotética" ao conceito de "prova categórica" (sem hipóteses 
> abertas). 
>
> Isto significa que a correção de uma prova hipotética (dedução) é 
> predicada na possibilidade de se transformar provas categóricas das 
> hipóteses em provas categóricas da conclusão, isto é, na construção de 
> provas categóricas da conclusão com base em provas categóricas das 
> hipóteses.  Portanto, em última instância, a justificativa de 
> inferências como "¬A (A→⊥) true","A true" / "B true" apelam a provas 
> categóricas de "¬A true" e "A true" e daí, por modus ponens, a provas 
> categóricas do absurdo!  Estas provas categóricas não precisam ser 
> provas reais, mas devem, pelo menos, ser concebíveis, se é que a 
> explicação de Martin-Löf faz qualquer sentido.  Caberia a Martin-Löf, 
> e demais construtivistas que defendem posições similares, explicar o 
> que significa conceber provas categóricas do absurdo, em outras 
> palavras, o que significa conceber o impossível. 
>
> Alguns meses atrás, conversava com Bruno Bentzen a respeito de uma 
> anedota sobre o tema.  Segundo a anedota, alguém teria perguntado a 
> Martin-Löf, ou Prawitz, não me lembro qual, como seria possível 
> conceber uma construção que transformasse provas do absurdo em provas 
> de outra sentença, dado que não há provas do absurdo.  Ele teria 
> respondido: "Como se transforma um unicórnio num cavalo?  Cortando 
> fora o chifre.  Mas não há unicórnios."  A anedota é divertida, e 
> ilustra como podemos tratar de construções que talvez nunca poderão 
> ser efetuadas (seja porque não existem unicórnios ou porque não 
> existem provas do absurdo).  Porém, a inexistência de unicórnios 
> parece estar num patamar diferente (contingente) comparado com a 
> inexistência de provas do absurdo. 
>
> A concepção de raciocínios hipotéticos defendida por Martin-Löf, e 
> compartilhada por Prawitz e muitos outros, é tributária de BHK, 
> especialmente a cláusula para implicação.  Esta concepção também 
> recebe o nome de "primazia do categórico sobre o hipotético" ou 
> "concepção das hipóteses como variáveis" (a serem saturadas por provas 
> categóricas)[4].  Ela parece estar por trás de alguns resultados 
> negativos[5][6] publicados nos últimos anos com respeito a 
> fundamentações apoiadas nas regras de introdução, ou nas cláusulas BHK 
> concebidas como regras de introdução.  Estes resultados mostram que, 
> sob certas condições, tais fundamentações fracassam em capturar 
> exatamente os raciocínios intuicionisticamente deriváveis. 
>
> Martin-Löf, no artigo de fundamentação filosófica da sua Teoria dos 
> Tipos[7], assume que as regras de introdução dão o significado das 
> constantes lógicas e, a partir daí, justifica as regras de eliminação. 
> Isto demonstra, em terminologia corrente, a correção da lógica 
> intuicionista (como sistema formal) com respeito a uma fundamentação 
> baseada nas introduções (estilo BHK).  Contudo, a contrapartida (a 
> questão se todos os princípios de raciocínio justificáveis são de fato 
> deriváveis intuicionisticamente), isto é, completude, em terminologia 
> corrente, permanece em aberto no artigo, pois Martin-Löf não oferece 
> nenhum argumento em seu favor.  Os resultados mencionados 
> anteriormente mostram que, sob certas condições que parecem razoáveis 
> de um ponto de vista construtivo, uma fundamentação estilo BHK, quando 
> formulada precisamente (uma vez que BHK é uma espécia de fundamentação 
> (semântica) informal), justificaria inferências que não são 
> intuicionisticamente deriváveis. 
>
> Me parece que em ambos os quesitos, a) e b), a posição construtivista 
> de vertente intuicionista, conforme tradicionalmente concebida, deixa 
> muito a desejar.  Confesso que, às vezes, me pergunto se o 
> intuicionismo tradicional, como exemplificado pela tradição BHK, seria 
> mesmo uma posição filosoficamente coerente. 
>
> > [...] 
> > 
> > Ou ainda, outro problema que leva ao regresso infinito e a 
> > identificação de um objeto do conhecimento com o conhecimento desse 
> > objeto (que o Rodrigo havia comentado a um tempo atras de maneira 
> > diferente). Um juízo do tipo 'A true' pode virar uma proposição onde 
> > '(A true) true' se torna um juízo. E, mais. No ponto de vista 
> > epistemico, essas duas coisas são equivalentes (saber que vc sabe é 
> > igual a saber). Acho que o ponto de vista epistemico não bate com a 
> > teoria, já que garantir que o tipo "A é habitado" não é equivalente 
> > a A (em um dado universo), ou será que é? Ou seja, a justificativa 
> > do ML não é adequada e só a teoria funciona. 
>
> Na minha opinião, o potencial explanatório e de fundamentação da 
> Teoria Intuicionista de Tipos (TIT) se estraçalha a partir do momento 
> que se introduz universos.  A partir daí, me parece, a TIT assume um 
> caráter fortemente ad hoc e muitas da intuições iniciais vão para o 
> espaço.  Neste ponto, a única vantagem de TIT em comparação à ZF (sua 
> concorrente igualmente ad hoc), principalmente se você é um computeiro 
> ou matemático preocupado com computabilidade, é o fato de TIT ser 
> construtiva.  Por outro lado, os argumentos de que ZF seria 
> filosoficamente mais robusta e conceitualmente mais coerente (ver, por 
> exemplo, Harvey Friedman na FOM) não me convencem.  Acontece que, dado 
> que ZF é a doutrina ortodoxa, estamos acostumados a fazer vista grossa 
> para as aberrações em ZF e maldizer excessivamente qualquer 
> idiossincrasia de propostas alternativas, como TIT. 
>
> De qualquer maneira, mesmo num contexto muito elementar, abordar o 
> intuicionismo, ou construtivismo, de um ponto de vista epistemológico, 
> tal como Martin-Löf faz, me parece um equívoco.  Concordo ainda que a 
> discussão epistemológica de Martin-Löf em conexão com a fundamentação 
> da sua Teoria de Tipos é muito confusa, para se dizer o mínimo. 
>
> A epistemologia, contudo, não é a única rota para o intuicionismo, e 
> sequer me parece a melhor.  No âmbito puramente lógico, uma rota mais 
> interessante rumo ao intuicionismo passa pela filosofia da linguagem, 
> em particular, por um certo pragmatismo linguístico.  Neste sentido, 
> princípios lógicos estariam apoiados em práticas linguísticas regradas 
> (ver trabalho recente do Marcos Silva).  Esse tipo de inferencialismo 
> lógico ainda é muito incipiente, é verdade, mas me parece muito 
> promissor. 
>
> Saudações, 
>
> Referências: 
>
> [1] Arend Heyting.  G. F. C. Griss and his negationsless 
> intuitionistic mathematics.  Synthese 9 (1):91-96, 1955. 
> (ver referências nesse artigo para os escritos de Griss) 
>
> [2] Ingebrigt Johansson. Der Minimalkalkül, ein reduzierter 
> intuitionistischer Formalismus.  Compositio Mathematica 4, 119-136, 
> 1937. 
>
> [3] Neil Tennant.  The Taming of the True. Clarendon Press, 1997. 
> (ver também artigos no RSL sobre "Core Logic") 
>
> [4] Peter Schroeder-Heister. The Categorical and the Hypothetical: A 
> critique of some fundamental assumptions of standard 
> semantics. Synthese 187 (3), 925-942, 2012. 
>
> [5] Wagner de Campos Sanz, Thomas Piecha and Peter 
> Schroeder-Heister. Constructive Semantics, Admissibility of Rules and 
> the Validity of Peirce's Law. Logic Journal of the IGPL 22 (2), 
> 297-308, 2014. 
>
> [6] Thomas Piecha, Wagner de Campos Sanz and Peter 
> Schroeder-Heister. Failure of Completeness in Proof-Theoretic 
> Semantics. Journal of Philosophical Logic 44 (3), 321-335, 2015. 
>
> [7] Per Martin-L\"of. On the Meanings of the Logical Constants and the 
> Justifications of the Logical Laws. Nordic Journal of Philosophical 
> Logic 1 (1), 11-60, 1996. 
>
> -- 
> Hermógenes Oliveira 
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