Salve Hermógenes,

Vamos tentar de novo. Você copiou a definição errada do Ebbinghaus, essa
não é a 2.6. Você pegou o item (b) da 2.5, página 160, que corresponde a
register-decidable (R-decidable), não register-enumerable (R-enumerable), e
trocou as palavras register-decidable por register-enumerable. Vou copiar
aqui a definição correta de R-enumerable por conveniência:

(b) W is said to be register-enumerable (R-enumerable) if there is a
program which ***enumerates*** W. (Def. 2.6, página 160 ênfase minha)

Aqui está toda a confusão:

- W é recursivamente enumerável  (ou R-enumerable, como diz o Ebbinghaus)
 **não** é o mesmo que  W é recursivo.

A decidibilidade de W é identificada com W é recursivo, não com W é
recursivamente enumerável. Se W é recursivo, então W é recursivamente
enumerável, mas não vale a volta.

Muito bem, agora vamos ao teorema de Trakhtenbrot: As sentenças válidas nas
estruturas finitas não são todas demonstráveis em um sistema dedutivo
(qualquer). É exatamente a negação da propriedade do teorema da completude:
As sentenças válidas (em todas as estruturas) são todas demonstráveis em um
sistema dedutivo apropriado. Não há esse problema que você aponta no
parágrafo da wikipedia. O teorema da completude é formulado abstratamente
nesses termos mesmo: O conjunto de sentenças válidas é recursivamente
enumerável.

A demonstração do Trakhtenbrot está feita: O conjunto de sentenças válidas
nas estruturas finitas não é recursivamente enumerável. Portanto, não é o
caso que toda sentença válida nas estruturas finitas seja demonstrável em
um sistema dedutivo. Em particular, como um corolário *mais fraco*, o
conjunto de sentenças válidas nas estruturas finitas não é decidível.


Abraço
Rodrigo
















2016-09-24 7:22 GMT-03:00 Hermógenes Oliveira <
hermogenes.olive...@student.uni-tuebingen.de>:

> Salve, Rodrigo!
>
> Rodrigo Freire <freires...@gmail.com> escreveu:
>
> > Caros,
> >
> > Corrigindo:
> >
> >     Afinal, a completude semântica da lógica de predicados no caso
> >     finito é apenas um caso especial da completude semântica para o
> >     caso geral (infinito), demonstrado por Gödel na sua tese de
> >     doutorado.
> >
> > Não. Segundo o teorema de Trakhtenbrot, não há sistema dedutivo cujos
> > teoremas são exatamente as sentenças válidas (para uma linguagem
> > canônica) em todas as estruturas finitas. Essa propriedade também é
> > chamada de incompletude (semântica, como você diz).
>
> Eu certamente não chamaria isso de incompletude semântica!  Para ser
> mais claro, o que eu chamo de (in)completude semântica (segundo o que
> creio ser a prática mais comum) é a propriedade demonstrada por Gödel em
> 1929 e que normalmente é ensinada em cursos de lógica de predicados
> juntamente com correção (soundness), embora atualmente se prefira
> métodos diferentes daqueles usados por Gödel, como, por exemplo,
> conjuntos de Hintikka, no caso do livro conhecido de Smullyan.[1]
>
> Resumindo, em termos gerais:
>
> Completude (semântica): Para toda sentença válida há uma demonstração no
> sistema dedutivo. Ou, toda sentença válida é demonstrável.
>
> Embora eu esteja incerto, pois a sua formulação me parece um pouquinho
> imprecisa, eu chamaria a propriedade que você enuncia de
> *indecidibilidade* mesmo. Isto é, "não há sistema dedutivo cujos
> teoremas são exatamente as sentenças válidas em todas estruturas
> finitas" significa, assumindo um sistema dedutivo comum (sem indução
> transfinita ou qualquer outra regra infinita), que validade é
> indecidível em todas estruturas finitas.
>
> Talvez eu não tenha sido claro o suficiente na minha mensagem original.
> Para esclarecer um pouco mais, o problema com o parágrafo da entrada da
> Wikipédia inglesa é que ele relaciona o resultado de Trakhtenbrot com
> completude no sentido de Gödel (1929), inclusive com um vínculo à
> entrada correspondente, apesar do teorema de Trakhtenbrot não ter nada a
> ver com completude nesse sentido.  Cito novamente:
>
> "It is considered a very important result, since it implies that the
> completeness theorem
> [https://en.wikipedia.org/wiki/G%C3%B6del%27s_completeness_theorem]
> (that is fundamental to First-Order Logic) does not hold in the finite
> case. Also it seems counter intuitive that being valid over all
> structures is 'easier' than over just the finite ones."
>
> O que é pior, o parágrafo sugere que completude valeria para o caso
> infinito mas não para o caso finito, o que é completamente absurdo pois
> o teorema é demonstrado para o caso geral do qual validade em estruturas
> finitas é apenas um caso específico!
>
> > Se por incompletude sintática você quer dizer o mesmo que negação
> > incompletude (não vale que uma entre A e ~A é teorema, para qualquer
> > sentença A), então incompletude sintática também não é o mesmo que
> > indecidibilidade. Há contraexemplos triviais: a lógica proposicional é
> > decidível e não é negação completa, a lógica de primeira ordem com um
> > símbolo de propriedade (unário) também é contraexemplo, a teoria dos
> > domínios com no máximo k>1 elementos com igualdade apenas, etc.
>
> Eu estou ciente dessas questões.  Veja:
>
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msg/logica-l/
> Y2ZEqSBL7TQ/doXMXsEMAwAJ
>
> Com relação à terminologia, eu prefiro chamar o primeiro teorema de
> Gödel (1931) de teorema de *indecidibilidade*.  E mais, creio que se
> referir a este teorema como teorema de *incompletude* arrisca uma
> catástrofe comunicativa, pois conecta este resultado de 1931 com o
> resultado de completude de 1929 que trata de algo inteiramente distinto.
> A distinção está clara para quem compreende os artigos originais de
> Gödel e conhece a literatura de base com a qual ele trabalhou
> (principalmente o "Grundzüge der theoretischen Logik" de Hilbert e
> Ackerman).  Porém, Deus sabe lá o porquê, muitos passaram a chamar o
> resultado de 1931 de teorema de incompletude...
>
> Contudo, para poder me comunicar com aqueles que preferem "incompletude"
> em vez de "indecidibilidade", costumo distinguir entre (in)completude
> semântica e sintática, sendo (in)completude semântica aquela de Gödel
> (1929) e incompletude sintática aquilo que gostaria de chamar de
> "indecidibilidade".
>
> O raciocínio para essa imprecisa terminologia de compromisso é
> justamente aquela que você indicou acima: Para linguagens calibradas
> para a matemática (aritmética), é natural presumir aquilo que você
> chamou de "negação incompletude" (uma vez que não há sentenças
> contingentes).  Reconheço que essa terminologia é completamente
> insatisfatória, mas essa é a melhor justificativa que eu conheço para se
> usar a terminologia "incompletude" quando aplicada ao teorema de Gödel
> (1931).
>
> > A demonstração do teorema de Trakhtenbrot é simples:
> >
> > Dada uma máquina de Turing m e uma entrada n, há uma sentença canônica
> > A_mn que descreve a operação de m com entrada n na interpretação
> > padrão. A sentença A_mn tem modelo finito se e somente se m para com a
> > entrada n. De fato, por um lado, A_mn é satisfeita na subestrutura da
> > interpretação padrão cujo domínio é o intervalo de operação de m com a
> > entrada n. Por outro lado, é fácil ver que se m não para com a entrada
> > n então A_mn só tem modelos infinitos. Segue-se do problema da parada
> > que a satisfatibilidade em estruturas finitas não é recursiva. Como a
> > satisfatibilidade em estruturas finitas é recursivamente enumerável (a
> > satisfatibilidade em cada estrutura finita é recursiva), temos que a
> > validade em estruturas finitas não é recursivamente enumerável.
> > Portando, não há sistema dedutivo (recursivamente enumerável) que
> > tenha como teoremas exatamente as sentenças válidas em todas as
> > estruturas finitas. Fim.
>
> Isso demonstra a *indecidibilidade* do conjunto das sentenças válidas em
> todas as estruturas finitas.
>
> > Referências: Alguns livros de lógica "undergraduate" contém os
> > detalhes. Ebbinghaus, Flum e Thomas é um deles. Pessoalmente, gosto
> > (mais) do Boolos, Burgess e Jeffrey, mas neste o teorema de
> > Trakhtenbrot é enunciado em um exercício apenas.
>
> Eu consultei o livro de Ebbinghaus, Flum e Thomas.  Ali, o teorema é
> demonstrado como um teorema de indecidibilidade:
>
> "5.4 Trahtenbrot's Theorem. The set of first-order sentences
> valid in all finite structures is not R-enumerable." p. 171
>
> onde
>
> "W is said to be register-enumerable (abbreviated: R-enumerable) , if
> there is a program which decides W" p. 160 (Definition 2.6)
>
> O manuscrito de Stephen Simpson que consta nas referências da entrada na
> Wikipédia apresenta o teorema de Trakhtenbrot como um reforço do
> resultado de Church (não mencionei isso na mensagem anterior pois
> somente agora me dei conta do manuscrito):
>
> http://logic.amu.edu.pl/images/2/21/Churchtrakhtenbrot.pdf
>
> Saudações,
>
> --
> Hermógenes Oliveira
>
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