Entendo que a minha *opinião* sobre o assunto é irrelevante.  Faço
então apenas uma breve análise lógico-informal do texto enviado, com
um par de comentários adicionais.  Favor ignorar se o tópico
simplesmente não for do interesse.

Até a promulgação da Constituição de 1988, no Basil, era obrigatória a
inclusão da *cor* na Certidão de Nascimento.  (É claro que quase todo
mundo era declarado como "branco".)  De lá para cá os cartórios
passaram a omitir sistematicamente a informação.  Há alguns anos
(confiram a reportagem de 2006) houve contudo quem notasse a falta
deste item nas novas certidões e protestasse:
  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0508200628.htm
"A preocupação de Enilda é que sem o item cor, o governo não tem como
fazer estatísticas oficiais sobre a questão racial e, como
conseqüência, não terá subsídios para elaborar políticas de inclusão
social, como os polêmicos projetos sobre as cotas em universidades e o
Estatuto da Igualdade Racial, ainda em discussão no Congresso."

As antropólogas uspianas autoras do texto circulado abaixo (que
obviamente não leram Roberto DaMatta) parecem acreditar que a inclusão
do item em questão no Lattes ajudariam a mitigar "a realidade de uma
sociedade brasileira altamente racializada em suas práticas cotidianas
e inclusive no que tange o acesso ao ensino superior e à pesquisa
científica no que tange o acesso ao ensino superior e à pesquisa
científica".  Não entendi bem o raciocínio: o *acesso ao ensino
superior* atualmente já se encontra facilitado por cotas várias e
diversos tipos de bolsa, e o Lattes nada tem a ver com isso.  Não me
parece óbvio como o quesito raça afetaria o *acesso à pesquisa
científica*.  Mas talvez haja alguma área científica em que
pesquisadores negros estejam sendo atualmente preteridos, no Brasil, e
eu não estou sabendo.  Bem, já há cotas em vários editais do CNPq para
pesquisadores do Norte e do Nordeste.  Haverá também em breve cotas
para cientistas negros, de implementação facilitada pelo Lattes?
Neste sentido na minha universidade ja há cotas, por exemplo, para
bolsistas de IC considerados "prioritários".  Estamos certamente
evoluindo.

Curiosamente, agora que boa parte das pessoas tem preferido não
declarar sua cor, talvez a porcentagem total de Currículos Lattes com
a opção "negro" se revele muito maior do que o real, e provoque um
viés negativo na "evidência" que segundo as autoras deveria ser
"veiculada de maneira aberta".  Há um adicional interessante:
protestar contra a inclusão do item no preenchimento do Lattes,
segundo as autoras, seria "desautorizar pesquisas", e praticar "um
gesto de obscurantismo".  Por certo *obrigar* cientistas a preencher
isto *no Lattes* produzirá automaticamente uma pesquisa muito eficaz.

* * *

Pessoalmente, mais interessado fico no *perfil religioso* do
pesquisador brasileiro do que no seu *perfil racial*.  O motivo é
simples: religião não combina com ciência.  E, se eu fosse vocês,
tendo em vista a crescente bancada evangélica no nosso Congresso
Nacional, também me preocuparia com este tema.

JM


2013/5/24 Juan Carlos Agudelo Agudelo <juca.agud...@gmail.com>:
> Voltando à discussão cor/raça no Lattes, me tomo a liberdade de enviar um
> correio que circulou em outras listas acadêmicas que estão discutindo sobre
> o assunto, e que mostra a posição de alguns cientistas sociais que
> trabalham com o tema da desigualdade social/racial no Brasil.
>
> #########################################
>
>
>
> From: Marcos Dias Coelho <marvind...@hotmail.com>
> Subject: [estudosafricanos-ufba] RE: [gtafrica] polêmica sobre inserção no
> CV Lattes da pergunta relativa a raça ou cor do/a pesquisador/a.
> To: "historia-u...@yahoogrupos.com.br" <historia-u...@yahoogrupos.com.br>,
> "Pesquisadores Negros" <pesquisadoresnegrosba...@yahoogrupos.com.br>,
> "Linha de pesquisa" <estudosafricanos-u...@yahoogrupos.com.br>,
> "transdicplinar" <teia_transdiscipli...@yahoogrupos.com.br>, "Cristiane
> Unicamp" <criskaso...@gmail.com>, "Vine Unicamp 2" <vineale...@gmail.com>,
> "Luando Sito" <luandas...@gmail.com>, "Josi Unicamp" <joseme...@gmail.com>,
> "Ernenek Unicamp" <ernene...@gmail.com>
> Date: Thursday, May 23, 2013, 7:56 PM
>
>
>
> Ampliando o debate e divulgando...
>
> From: vanijacob...@gmail.com
> To: gtafr...@googlegroups.com
>
> Caros colegas da comunidade acadêmica,
>
>
> Tem causado polêmica a novidade da inserção  no CV Lattes da pergunta
> relativa a raça ou cor do/a pesquisador/a. Nosso objetivo é, mais uma vez,
> incentivar o debate em nossa comunidade e tentar avançar algumas questões
> envolvidas tanto na introdução do quesito, como na reação que ele vem
> causando.
>
> Em primeiro lugar, cabe considerar que as opções constante deste item estão
> perfeitamente de acordo com os parâmetros da auto atribuição que vêm
> norteando a adoção das políticas públicas de inclusão racial no Brasil dos
> últimos anos. Além disso, queremos destacar, que, embora a resposta ao
> quesito seja obrigatória, há opção para o pesquisador que não queira assim
> se caracterizar, responder à última alternativa, “não desejo declarar”,
> resguardando dessa maneira a liberdade daqueles que não concordam com a
> implementação de um política de delimitação do perfil sócio-racial do
> pesquisador brasileiro.
>
> Mas vamos à questão de fundo. Muitos estudiosos têm destacado,
> acertadamente, o fato de raça não ser um conceito cientificamente válido.
> Em nosso entender não há dúvidas a esse respeito. No entanto, tal
> constatação não pode eliminar a realidade de uma sociedade brasileira
> altamente racializada em suas práticas cotidianas e inclusive no que tange
> o acesso ao ensino superior e à pesquisa científica. Julgamos, assim, que
> ao lado das investigações que revelam as falácias de um modelo que usou
> raça de maneira essencial e ontológica (e por isso gerou a prática de
> determinismos e racismos políticos de toda ordem), é hora de avaliarmos
> como o desacreditado conceito, baseado em assertivas biológicas faz muito
> ultrapassadas, continua sendo reatualizado e opera socialmente. Se não
> existem raças – apenas uma, a humana --, no nosso dia a dia raça surge como
> um potente marcador social de diferença, delimitando  hierarquias sociais,
> culturais e econômicas.
>
> Vale, pois, perguntar se devemos exclusivamente criticar o uso canônico do
> termo, ou se seria importante, igualmente, analisarmos as implicações
> cotidianas e recorrentes da utilização da categoria raça na prática social,
> considerando, principalmente a  maneira como esta se inscreve em nossa
> realidade e, em particular, no contexto universitário brasileiro. Entendido
> dessa maneira, o termo continua válido e seria preciso avaliar as
> decorrências da “raça após o racismo”. Falar de raça não significa, em
> nosso entender, instaurar o racismo ou racializar o cotidiano, o qual,
> aliás, já se encontra racializado. Falar de raça implica enfrentar o
> problema sem eufemismos, desvelando  as práticas discursivas que pretendem
> não dizer, dizendo.
>             O conjunto crítico de livros, ensaios, artigos que faz tempo
> vêm mostrando o lado perverso do conceito biológico de raça, cumpriu e
> cumpre um papel fundamental no sentido de trazer de volta valores básicos
> como o universalismo e o humanismo. É por isso que, contando com esses
> ganhos -- com os quais concordamos e nos associamos --, quem sabe seja o
> momento de descer também à lógica do particular, das negociações políticas,
> dos discursos do senso comum que se convertem em práticas tão influentes
> aquelas desmontadas pelas pesquisas que desnudaram, sem pejas, os perigos
> do racismo científico. Hoje falamos de novas formas de  racismo: o social,
> o político, aquele que se inscreve nas formas de discriminação mais
> cotidianas.
>
> Mas voltemos ao documento em pauta. Segundo o CNPQ, a adoção do quesito
> cor/raça encontra-se embasado na Lei 12.228, de 20 de julho de 2010, que
> instituiu o “Estatuto da Igualdade Racial”, cujo objetivo é combater todas
> as formas de exclusão e discrimação racial ainda vigentes em nosso país.
> Tal estatuto, vem corroborando outros esforços e ações públicas,
> especificamente voltadas para a inclusão universitária, na forma do sistema
> cotas adotado pelas universidades federais, entre outras políticas de
> inclusão. A iniciativa do CNPQ vem, pois, na esteira destas políticas e
> pretende utilizar tais dados como base para a elaboração futura de
> políticas científicas de inclusão sócio-racial.
>
> Na página da Instituição consta também que a informação sobre raça será
> para “uso interno” do CNPq.  Por um lado, fica subentendido que tal dado
> não será exibido no currículo acessado publicamente, o que significa que
> não se pretende misturar, na esfera pública, a produção docente com esse
> tipo de caracterização. Aliás, de maneira coerente o CNPQ também não
> divulga dados pessoais, como endereço e  cpf. Por outro lado, é preciso
> indagar como esse tipo de informação será efetivamente aproveitado. Enfim,
> é de interesse da comunidade tomar a “novidade” não como resultado, mas
> como parte de um processo,  cabendo a nós, pesquisadores, o papel de
> interpelar a Instituição sobre os usos desses dados.
>
> De toda maneira, e em nossa compreensão, não nos parece que o objetivo do
> CNPQ seja incentivar a radicalização do debate, mas antes iluminar uma cena
> e evidenciar processos de discriminação facilmente observados por todos
> aqueles que adentram nossos campi  universitários. Não é segredo para
> ninguém, que o pesquisador/a brasileiro/a é majoritariamente branco e, por
> conseguinte, que os quadros de docentes de nossas universidades estão
> compostos igualmente, e também majoritariamente, por homens e mulheres
> brancos. É passível de mérito, portanto, que esse tipo de evidência seja
> veiculada de maneira aberta, e debatida no contexto de nossas políticas
> públicas, para que a comunidade acadêmica brasileira possa refletir acerca
> das demandas de uma sociedade cidadã, atenta às desigualdades e cada vez
> mais avessa aos preconceitos.
>
> Cientista que somos, é nosso mister produzir pesquisas e dados que possam
> deixar mais transparentes o perfil econômico, social e porque não racial de
> nossa comunidade estendida. Não se atropelam iniciativas que visam a melhor
> conscientização, estudo e compreensão de nossa sociedade, antes que elas
> possam minimamente mostrar suas potencialidades. Desautorizar pesquisas é,
> à sua maneira, um gesto de obscurantismo. Abertas como são, as
> investigações, aí sim, poderão se transformar em matéria de análise,
> escrutínio e avaliação crítica.
>
> Tendo em vista tais argumentos, nos colocamos a favor da iniciativa do CNPQ
> que incluiu o critério racial/ cor na definição do perfil do pesquisador/a
> brasileiro/a. Esperamos que a oportunidade retorne à comunidade acadêmica
> sob a forma de novos desafios pautados em informações e dados eticamente
> comprometidos com a pesquisa científica sobre o perfil do/a pesquisador/a,
> da comunidade acadêmica e sobre políticas públicas de inclusão social.
>
> *Lilia Schwarcz*
>
> Professora Titular Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar
> (Princeton)
>
> *Maria Helena P. T. Machado*
>
> Professora Titular, Departamento de História da USP
>
>
> --
> *Vanicléia Silva Santos*
> Profa. História da África
> Departamento de História - FAFICH
> Universidade Federal de Minas Gerais
>
>
> ********************************************
> Marcos Dias Coelho
> Doutorando em História Social da África
> Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
> Skype: marvindico
> ********************************************
_______________________________________________
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http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

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