Voltando à discussão cor/raça no Lattes, me tomo a liberdade de enviar um
correio que circulou em outras listas acadêmicas que estão discutindo sobre
o assunto, e que mostra a posição de alguns cientistas sociais que
trabalham com o tema da desigualdade social/racial no Brasil.

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From: Marcos Dias Coelho <marvind...@hotmail.com>
Subject: [estudosafricanos-ufba] RE: [gtafrica] polêmica sobre inserção no
CV Lattes da pergunta relativa a raça ou cor do/a pesquisador/a.
To: "historia-u...@yahoogrupos.com.br" <historia-u...@yahoogrupos.com.br>,
"Pesquisadores Negros" <pesquisadoresnegrosba...@yahoogrupos.com.br>,
"Linha de pesquisa" <estudosafricanos-u...@yahoogrupos.com.br>,
"transdicplinar" <teia_transdiscipli...@yahoogrupos.com.br>, "Cristiane
Unicamp" <criskaso...@gmail.com>, "Vine Unicamp 2" <vineale...@gmail.com>,
"Luando Sito" <luandas...@gmail.com>, "Josi Unicamp" <joseme...@gmail.com>,
"Ernenek Unicamp" <ernene...@gmail.com>
Date: Thursday, May 23, 2013, 7:56 PM



Ampliando o debate e divulgando...

From: vanijacob...@gmail.com
To: gtafr...@googlegroups.com

Caros colegas da comunidade acadêmica,


Tem causado polêmica a novidade da inserção  no CV Lattes da pergunta
relativa a raça ou cor do/a pesquisador/a. Nosso objetivo é, mais uma vez,
incentivar o debate em nossa comunidade e tentar avançar algumas questões
envolvidas tanto na introdução do quesito, como na reação que ele vem
causando.

Em primeiro lugar, cabe considerar que as opções constante deste item estão
perfeitamente de acordo com os parâmetros da auto atribuição que vêm
norteando a adoção das políticas públicas de inclusão racial no Brasil dos
últimos anos. Além disso, queremos destacar, que, embora a resposta ao
quesito seja obrigatória, há opção para o pesquisador que não queira assim
se caracterizar, responder à última alternativa, “não desejo declarar”,
resguardando dessa maneira a liberdade daqueles que não concordam com a
implementação de um política de delimitação do perfil sócio-racial do
pesquisador brasileiro.

Mas vamos à questão de fundo. Muitos estudiosos têm destacado,
acertadamente, o fato de raça não ser um conceito cientificamente válido.
Em nosso entender não há dúvidas a esse respeito. No entanto, tal
constatação não pode eliminar a realidade de uma sociedade brasileira
altamente racializada em suas práticas cotidianas e inclusive no que tange
o acesso ao ensino superior e à pesquisa científica. Julgamos, assim, que
ao lado das investigações que revelam as falácias de um modelo que usou
raça de maneira essencial e ontológica (e por isso gerou a prática de
determinismos e racismos políticos de toda ordem), é hora de avaliarmos
como o desacreditado conceito, baseado em assertivas biológicas faz muito
ultrapassadas, continua sendo reatualizado e opera socialmente. Se não
existem raças – apenas uma, a humana --, no nosso dia a dia raça surge como
um potente marcador social de diferença, delimitando  hierarquias sociais,
culturais e econômicas.

Vale, pois, perguntar se devemos exclusivamente criticar o uso canônico do
termo, ou se seria importante, igualmente, analisarmos as implicações
cotidianas e recorrentes da utilização da categoria raça na prática social,
considerando, principalmente a  maneira como esta se inscreve em nossa
realidade e, em particular, no contexto universitário brasileiro. Entendido
dessa maneira, o termo continua válido e seria preciso avaliar as
decorrências da “raça após o racismo”. Falar de raça não significa, em
nosso entender, instaurar o racismo ou racializar o cotidiano, o qual,
aliás, já se encontra racializado. Falar de raça implica enfrentar o
problema sem eufemismos, desvelando  as práticas discursivas que pretendem
não dizer, dizendo.
            O conjunto crítico de livros, ensaios, artigos que faz tempo
vêm mostrando o lado perverso do conceito biológico de raça, cumpriu e
cumpre um papel fundamental no sentido de trazer de volta valores básicos
como o universalismo e o humanismo. É por isso que, contando com esses
ganhos -- com os quais concordamos e nos associamos --, quem sabe seja o
momento de descer também à lógica do particular, das negociações políticas,
dos discursos do senso comum que se convertem em práticas tão influentes
aquelas desmontadas pelas pesquisas que desnudaram, sem pejas, os perigos
do racismo científico. Hoje falamos de novas formas de  racismo: o social,
o político, aquele que se inscreve nas formas de discriminação mais
cotidianas.

Mas voltemos ao documento em pauta. Segundo o CNPQ, a adoção do quesito
cor/raça encontra-se embasado na Lei 12.228, de 20 de julho de 2010, que
instituiu o “Estatuto da Igualdade Racial”, cujo objetivo é combater todas
as formas de exclusão e discrimação racial ainda vigentes em nosso país.
Tal estatuto, vem corroborando outros esforços e ações públicas,
especificamente voltadas para a inclusão universitária, na forma do sistema
cotas adotado pelas universidades federais, entre outras políticas de
inclusão. A iniciativa do CNPQ vem, pois, na esteira destas políticas e
pretende utilizar tais dados como base para a elaboração futura de
políticas científicas de inclusão sócio-racial.

Na página da Instituição consta também que a informação sobre raça será
para “uso interno” do CNPq.  Por um lado, fica subentendido que tal dado
não será exibido no currículo acessado publicamente, o que significa que
não se pretende misturar, na esfera pública, a produção docente com esse
tipo de caracterização. Aliás, de maneira coerente o CNPQ também não
divulga dados pessoais, como endereço e  cpf. Por outro lado, é preciso
indagar como esse tipo de informação será efetivamente aproveitado. Enfim,
é de interesse da comunidade tomar a “novidade” não como resultado, mas
como parte de um processo,  cabendo a nós, pesquisadores, o papel de
interpelar a Instituição sobre os usos desses dados.

De toda maneira, e em nossa compreensão, não nos parece que o objetivo do
CNPQ seja incentivar a radicalização do debate, mas antes iluminar uma cena
e evidenciar processos de discriminação facilmente observados por todos
aqueles que adentram nossos campi  universitários. Não é segredo para
ninguém, que o pesquisador/a brasileiro/a é majoritariamente branco e, por
conseguinte, que os quadros de docentes de nossas universidades estão
compostos igualmente, e também majoritariamente, por homens e mulheres
brancos. É passível de mérito, portanto, que esse tipo de evidência seja
veiculada de maneira aberta, e debatida no contexto de nossas políticas
públicas, para que a comunidade acadêmica brasileira possa refletir acerca
das demandas de uma sociedade cidadã, atenta às desigualdades e cada vez
mais avessa aos preconceitos.

Cientista que somos, é nosso mister produzir pesquisas e dados que possam
deixar mais transparentes o perfil econômico, social e porque não racial de
nossa comunidade estendida. Não se atropelam iniciativas que visam a melhor
conscientização, estudo e compreensão de nossa sociedade, antes que elas
possam minimamente mostrar suas potencialidades. Desautorizar pesquisas é,
à sua maneira, um gesto de obscurantismo. Abertas como são, as
investigações, aí sim, poderão se transformar em matéria de análise,
escrutínio e avaliação crítica.

Tendo em vista tais argumentos, nos colocamos a favor da iniciativa do CNPQ
que incluiu o critério racial/ cor na definição do perfil do pesquisador/a
brasileiro/a. Esperamos que a oportunidade retorne à comunidade acadêmica
sob a forma de novos desafios pautados em informações e dados eticamente
comprometidos com a pesquisa científica sobre o perfil do/a pesquisador/a,
da comunidade acadêmica e sobre políticas públicas de inclusão social.

*Lilia Schwarcz*

Professora Titular Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar
(Princeton)

*Maria Helena P. T. Machado*

Professora Titular, Departamento de História da USP


-- 
*Vanicléia Silva Santos*
Profa. História da África
Departamento de História - FAFICH
Universidade Federal de Minas Gerais


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Marcos Dias Coelho
Doutorando em História Social da África
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
Skype: marvindico
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