Eu estive em uma discussão sobre isso recentemente.

Fora da eletrodinâmica clássica, o elétron é uma partícula pontual,
inextensível, sem estrutura. Experimentalmente, não podemos verificar
diretamente isso, mas podemos verificar um upper bound muito pequeno, até
onde vai o estado da arte. Há várias propostas de possíveis sub-estruturas
de um elétron, em contraponto a isso. Dei uma olhada em um artigo
interessante com um modelo onde a massa do elétron derivaria de neutrinos,
deixando assim de ser partículas fundamentais.

Enfim, tirando estes casos, este é o nosso objeto de referência quando
estamos em mecânica quântica ou teoria quântica de campos.

Para trabalharmos com partículas pontuais, somos obrigados a empregar
funções generalizadas. Mas as funções generalizadas são *representações*
destas partículas pontuais. Estamos aqui no modo *formal* do discurso.
Quando designamos elétrons por intermédio deste formalismo, a referência é
indireta. Já quando estamos no modo *material* do discurso, nos dirigimos
diretamente a respeito dos objetos de referência, partículas pontuais. As
funções generalizadas não são o objeto de referência.

Um outro exemplo; reações químicas orgânicas são processos estocásticos e
modelamos probabilisticamente as razões esperadas de seus produtos, dadas
condições such and such. O fato do formalismo em nosso modelo empregar
probabilidade (modo formal do discurso) não implica em existir algo
ontologicamente probabilístico em reações químicas (no modo material do
discurso).

Essa distinção de modo formal/material do discurso entretanto pode
encontrar uma série de dificuldades em casos onde a distinção entre o
"concreto" e o "formal/abstrato" se evapora, o que não é um problema para
realistas estruturais ônticos.

Abraços.

2012/2/23 Décio Krause <[email protected]>

> Júlio
> Dou uma resposta parcial, e quem sabe alguém mais habilitado responda
> melhor. Imagine uma ondinha produzida por uma pedra em um lago. Suponha um
> sistema de coordenadas cartesianas ortogonais com origem onde a pedra caiu.
> A onda se move circularmente e caminha segundo a equação do círculo com
> centro na origem, variando continuamente o raio, de zero até um certo
> valor. Suponha dois pontos A e B em um desses círculos com raio não nulo.
> Se fosse a função de onda, você poderia fazer uma medida digamos em A e ela
> colapsaria instantaneamente em A, desaparecendo em B e em todos os demais
> pontos. Então você provocou algo instantaneamente em B a partir de A,
> contrariando o princípio relativista de que não se pode transmitir
> informação com velocidade maior do que a da luz no vácuo.
> Este exemplo foi proposto por Einstein, aqui de forma bem simplificada.
> D
>
>
>
>
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> Décio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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>
> Em 23/02/2012, às 16:58, julio cesar <[email protected]> escreveu:
>
> > Olá lista,
> >
> > aproveitando o papo, tem algumas coisas que nunca entendi, se alguém
> puder me esclarecer ou indicar algo, ficaria agradecido:
> >
> >     - se a função-de-onda for um objeto físico, de que maneira isso
> seria contra nossas intuições ontológicas (clássica)? Só pela questão da
> ação fantasmagórica? De fato, isso é um problemaço, mas se não for *só* por
> isso, por que uma onda do mar não causa o mesmo espanto? Seria pela
> questão, na MQ, *o que está realmente sendo ondulado ali*? Uma onda,
> ontologicamente falando, não seria um objeto como qualquer outro com
> características próprias e tudo mais?
> >
> >     - mas se a função-de-onda não for *real* e sim apenas probabilidade,
> a pergunta volta. Por ex, os jogadores profissionais de Poker trabalham com
> a probabilidade como se fosse algo real, e ganham (muito) dinheiro com isso
> porque, em certo sentido, ela é sim algo real! *A sorte não influencia a
> longo prazo*, é um dito popular no mundo do Poker. A longo prazo, a
> probabilidade é tão *sólida* quanto qualquer outra coisa. Você pode apostar
> milhões nela, e você vai ganhar (a longo prazo). Essa questão sobre a
> ontologia da MQ não se desdobra numa questão sobre a ontologia da
> probabilidade?
> >
> > tem algum sentido isso?
> >
> > abraços,
> > Júlio César A. Custódio
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