Júlio
(e agora paro senão me chamam a atenção)
Os objetos quânticos têm uma peculiaridade, a de serem invariantes por 
permutação. Se há uma coleção deles, digamos dois elétrons em um átomo de Hélio 
em seu estado fundamental, de menor energia, eles estão em superposição. 
Sabe-se que há dois, logo essa "coleção" tem cardinal dois. Mas não se sabe 
qual é qual (se quiser falar em conceitos maremáticos, há um cardinal mas não 
um ordinal, mas tudo isso deve ser qualificado). Como são dois, pode até dar um 
nome de batismo para cada um deles, digamos Alice e Bob. A função de onda que 
descreve o sistema conjunto é anti-simétrica, pois os elétrons são férmions, 
algo como F = A + B. Não é possível fatorar F e obter a descrição de cada um 
deles em separado. O sistema com os dois é um só. Somente quando é feita uma 
medida F colapsa, mas aí o fenômeno quântico desaparece, e surge um  deles  
passeando no jardim. Antes da medida, segundo Bohr e outros, nada pode ser 
dito. Mas onde  estão A e B? Emaranhados, entangled. Se pesarmos neles como 
"objetos" como aas coisas usuais, entramos em uma sinuca. O bacana é o 
seguinte. Se um dos elétrons for trocado por "outro", digamos por ionização, o 
que ocorre? Fisicamente, nada. O átomo continua tendo exatamente as mesmas 
propriedades do anterior. Se a coleção dos dois fosse um conjunto 
(extensionalmente falando), trocando um por "outro" o conjunto mudaria em 
virtude do axioma da extensionalidade. E neste caso? Haveria violação da 
lógica? Se os elétrons forem entendidos como objetos usuais, parece que sim. 
Mas então, o que são eles? Esta é a grande pergunta. Ninguém sabe. 
Ah, como eu disse, elétrons são férmions, e portanto obedecem ao Princípio de 
Exclusão de Pauli, e portanto não pode haver dois deles em um mesmo estado, 
partilhando TODAS as suas características. Então, você pode dizer, há uma 
diferença. Sim, no exemplo dado, há quanto ao spin. Eles têm spins opostos, mas 
o problema é quem não sabemos QUAL tem spin UP e qual tem DOWN. E isso não é 
algo que aponte para uma ignorância de nossa parte, como queria Einstein, 
dizendo que há mais coisas envolvidas, algumas "variáveis ocultas". Na medida 
em que a MQ esteja certa, é impossível atribuir uma identidade a eles. E isso 
importa? Para a física, quase nada, ou  nada, porque o que importa é o quadrado 
de F, que dá a probabilidade, e ainda que F troque de sinal por uma permutação 
dos dois, F ao quadrado não muda, daí a invariância. Já com bósons, a coisa é 
ainda mais estranha porque eles podem partilhar tudo. Aí são indiscerníveis de 
fato. Como pode isso, mss na lógica usual, e na matemática usual, coisas 
indiscerníveis são A MESMA coisa (princípio de Leibniz, teorema da lógica 
usual). Como ficamos? Pois é. Assim como estamos, com uma barafunda enorme, que 
filosoficamente está cheia de gaps, ainda que a física funcione 
maravilhosamente.
D



------------------------------------------------------
Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
------------------------------------------------------

Em 23/02/2012, às 16:58, julio cesar <[email protected]> escreveu:

> Olá lista,
> 
> aproveitando o papo, tem algumas coisas que nunca entendi, se alguém puder me 
> esclarecer ou indicar algo, ficaria agradecido:
> 
>     - se a função-de-onda for um objeto físico, de que maneira isso seria 
> contra nossas intuições ontológicas (clássica)? Só pela questão da ação 
> fantasmagórica? De fato, isso é um problemaço, mas se não for *só* por isso, 
> por que uma onda do mar não causa o mesmo espanto? Seria pela questão, na MQ, 
> *o que está realmente sendo ondulado ali*? Uma onda, ontologicamente falando, 
> não seria um objeto como qualquer outro com características próprias e tudo 
> mais?
> 
>     - mas se a função-de-onda não for *real* e sim apenas probabilidade, a 
> pergunta volta. Por ex, os jogadores profissionais de Poker trabalham com a 
> probabilidade como se fosse algo real, e ganham (muito) dinheiro com isso 
> porque, em certo sentido, ela é sim algo real! *A sorte não influencia a 
> longo prazo*, é um dito popular no mundo do Poker. A longo prazo, a 
> probabilidade é tão *sólida* quanto qualquer outra coisa. Você pode apostar 
> milhões nela, e você vai ganhar (a longo prazo). Essa questão sobre a 
> ontologia da MQ não se desdobra numa questão sobre a ontologia da 
> probabilidade? 
> 
> tem algum sentido isso?
> 
> abraços,
> Júlio César A. Custódio
> _______________________________________________
> Logica-l mailing list
> [email protected]
> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a