> Não vou me dar ao trabalho de consultar dezenas de dicionários, mas acho
> que se pode constatar que (a respectiva tradução de) "prova" tem
> (também) o significado indicado acima em todas as outras línguas
> românicas.

Não entendo como se poderia "constatar" algo assim sem sequer se dar
ao trabalho de consultar fonte alguma...

> "Nas línguas latinas 'demonstratio' se traduz como 'démonstration'
> (fr), 'demostración' (es), 'dimostrazione' (it), 'demonstraţie' (ro),
> 'demostració' (ca), et coetera.  Da mesma forma, em português a _boa_
> tradução para este termo é o vocábulo 'demonstração'."
>
> Alguém poderia acrescentar: "nas línguas latinas 'probare' se traduz como
> 'prouver' (fr.), 'probar' (es.) etc. etc. Da mesma forma, em português a
> boa tradução para este termo é o vocábulo... 'provar'". Ou seja, não se
> trata de traduzir "demonstratio" como "prova".

Então do que se trata?  É aí justamente que está o busílis...  Em
todas as línguas citadas ---latim, francês, espanhol, italiano, romeno
ou catalão--- usa-se "prova" quando muito para tratar do tipo de
*evidência* (do lat. "evidentia") que se apresenta em Ciência, e em
^nenhum caso^ para se referir a uma "demonstração" matemática, que
refere obviamente um tipo muito particular de evidência.  O inglês,
neste caso, é que é a única língua anômala neste sentido, na qual o
vocábulo "proof" veio tendo o seu significado desviado há séculos para
se referir em particular à "demonstração" de caráter matemático.

É claro que se você quiser, por isso mesmo, traduzir literalmente
"Proof Theory" como "Teoria da Evidência" terá o direito de fazê-lo.
Mas produzirá um monstro ainda pior do que "Teoria da Prova".

Não há dúvida de que na práxis matemática outros aspectos são
importantes para além da mera "demonstração": em particular o caráter
de "convencimento" que há de ser transmitido pela demonstração, bem
como a "segurança" de que, uma vez demonstrada uma proposição, não há
risco de que ela nos falhe.  A "Beweistheorie" clássica, contudo, é
particularmente cega para quaisquer aspectos demonstracionais de
caráter sociológico.  Seu objeto de estudo são as "Beweise", as
"demonstrações" matemáticas.

> Não entendo como isso pode ser um atentado à língua portuguesa, uma
> barbaridade, uma leviandade, uma prática troglodita, um idiotismo ou algo
> que alguns estudantes e pesquisadores da área de exatas vêm
> consagrando desde 1900.

Como aparentemente não há grandes desenvolvimentos na área feitos
exclusivamente na literatura técnica brasileira/portuguesa (e em
particular os nossos especialistas foram educados e escrevem, via de
regra, em inglês), a impressão que dá é que esta suposta "consagração"
teria sido feita exclusivamente nos trabalhos de dissertação/tese de
alguns estudantes que foram _obrigados_ a escrever em (mau) português,
alheios do debate terminológico aqui levantado pela primeira vez.

Sempre há a possibilidade, imaginamos, de uma reflexão motivar uma
mudança de hábito.  Para isso nos serve a consciência, e essa é a
expectativa que temos da gente da Ciência.
Joao Marcos

-- 
http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a