(Alguns dos maiores neologistas que me vêm agora à mente são Camões e Shakespeare.)
> Guimarães Rosa nãocriou neologismos: ele, em suas prolongadas viagens de > pesquisa pelo interior de Minas anotou os diversos falares, as deturpações > da lingua em função exatamente da falta de continuidade por formas > literárias ou educativas, das formas eruditas dos vocábulos. Não me parece que isto corresponda inteiramente à verdade... Sabe-se de fato que os textos de Guimarães Rosa estão na realidade repletos de arcaísmos (tais como "convinhável", ou "humildoso") e regionalismos (tais como "alimpar", ou "percurar") presentes na fala sertaneja, mas também é fácil encontrar, por exemplo, muitas tupinizações ou apropriações de diversas outras línguas, termos cunhados pelo próprio Rosa (como já havia feito Mário de Andrade antes dele). Há um livro de 568 páginas chamado "O Léxico de Guimarães Rosa", de Nilce Martins, no qual (retiro a informação de uma rescensão crítica da revista veja e outra do JB online) cerca de 30% das palavras registradas são neologismos, tais como "arreleque", "circuntristeza", "coraçãomente", "descreviver", "embriagatinhar", "ensimesmudo", "enxadachim", "imitaricar", "suspirância", "velhouco", "velvo". Três belos exemplos da mais pura criação linguística: (0) "fluifim": pequenino, gracioso, composto da junção de fluir e fino, exemplifica a preocupação de Rosa em fazer a sonoridade acompanhar o significado da palavra (1) "mimbauamanhanaçara": vaqueiro ou "o que vigia o gado", fundindo os termos tupi "mimbaua" (criação, animal doméstico) e "manhana" (vigia) somado ao sufixo "çara" (que faz); (2) "taurophtongo": mugido, voz de touro. Rosa recorreu aos termos gregos "táuros" (touro) e "phtoggos" (som da fala) O próprio Rosa costumava insistir na realidade que escrevia em um "idioma próprio", como afirmou em entrevista ao seu tradutor alemão: "Escrevo, e creio que este é meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, eu extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia." Há contudo um texto interessante do Ubirajara Pinto (http://www.letras.ufmg.br/bay/sites/literaterra/ubirajaraindex.htm) no qual este autor prova que Rosa está equivocado, e não se pode falar de fato na criação de uma "nova língua" em sua obra (como haveria, por exemplo, na obra de Tolkien ou de Anthony Burgess). NO ENTANTO, insisto, há uma quantidade *substancial* de novos vocábulos nos textos de Rosa (como há em Joyce ou em Pound), criados não obstante seguindo ao pé da letra os procedimentos constitutivos usuais das palavras da nossa língua. Sobre a criação de neologismos, de fato, Guimarães Rosa palavrizou bastante em toda a sua obra. Magnífico neste sentido é em particular "Hipotrélico", um dos quatro prefácios do livro "Tutaméia" (palavra derivada de "tuta-e-meia", sinônima de "nonada") --- livro de onde se retira, a própósito, o conselho contraditório de Rosa: "Saia todo mundo a empinar vocábulos seus e aonde é que vai se dar com a língua tida e herdada?" Ali em "Tutaméia" Rosa menciona também algumas invenções linguísticas autorais particularmente bem-sucedidas e há bastante tempo incorporadas à nossa língua (e outras línguas): "ao modo como Cícero fez *qualidade* ("qualitas"), Comte *altruísmo*, Stendhal *egotismo*, Guyau *amoral*, Bentham *internacional*, Turguêniev *niilista*, Fracastor *sífilis*, Paracelso *gnomo*, Voltaire *embaixatriz* ("ambassadrice"), Van Helmont *gás*, Coelho Neto *paredro*, Rui Barbosa *egolatria*, Alfredo Taunay *necrotério*." Não sei que brasileiro terá inventado a palavra "cardápio", que é uma sensacional derivação latina moderna. Ah, um criador de neologismos absolutamente original e genial, que certamente vale mencionar já que até aqui chegamos, é o lógico/contador de historias Lewis Carroll (confira-se "Jabberwocky", por exemplo). > Qualquer pessoa só deve escrever dentro dos parâmetros das regras cultas, > uma delas é usar vocábulos existentes no VOLP É uma boa recomendação geral, mas há que se lembrar também de que quem cria as regras cultas são os homens, cultos ou não. Não se deve ignorar que a língua é usada com frequência como um instrumento de poder e de constrangimento (como quando se aponta o dedo e se afirma que "você escreve errado", "você fala errado", etc). Há demasiado preconceito linguístico neste nosso Brasil... > Autores consagrados - é o caso de guimarães Rosa e o grande poeta lusitano > Fernando Pessoa ousam alterar a formatação dos vocábulos tanto para mostrar > sua erudição como para aprimorar o sentido do texto, o que não os incorpora > oficialmente à língua: são apenas detalhes artísticos. Frequentemente os termos criados pelos escritores se incorporam à língua. Essa é a maneira típica aliás pela qual uma língua cresce! (bons dicionários costumam justificar a introdução de novos vocábulos e ilustrar o seu uso gramatical justamente referindo trechos de "bons autores" onde estes vocábulos são empregados) Faço questão de registrar isto, pois há muitos (legalistas? puristas? conservadores?) que parecem não se dar conta destas coisas, de como os organismos chamados "línguas" crescem e vicejam, de forma cooperativa... > "Termo utilizado para classificar uma palavra nova que surge numa língua > devido à necessidade de designar novas realidades - novos conhecimentos > técnicos, objectos gerados pelo progresso científico (neologismos técnicos e > científicos) e até por questões estilísticas e literárias, tornando a língua > mais expressiva e rica (neologismos literários). Sem dúvida, e um neologismo só se "justifica", em geral mas não obrigatoriamente, quando oferece à língua algo novo, cujo sentido semântico já não é preenchido completamente por outros termos já "estabelecidos", ou quando nos facilita a tarefa comunicativa quando antes recorreríamos a uma perífrase complexa para dizer a mesma coisa. Há ainda o argumento do "sucesso": termos mal criados são muitas vezes adotados e oficializados simplesmente por uma questão democrática --- a língua não pertence a nenhum de seus falantes em particular (e também não pertence à Academia Brasileira de Letras), mas ao conjunto dos falantes como um todo. Os vândalos da língua (ou da Wikipédia), por outro lado, são aqueles que querem impor novos significantes vocabulares sem se preocupar se há um número significativo de falantes que esteja de acordo com os seus significados, ou pretendem "harmonizar" a língua segundo suas opiniões inteiramente pessoais. Uma maravilhosa teorização sobre o neologismo pode ser encontrada na gramática da personagem Emília, de Monteiro Lobato, que afirma, entre outras coisas, que: "Se numa língua não houver neologismos, essa língua não aumenta. Assim como há sempre crianças novas no mundo, é preciso que haja na língua contínua entrada de neologismos!" Queria fazer apenas um breve comentário, e vejo agora que me estendi de mais... Repeço antão que me desperdôem, esparece que endeusiasmei-me. ;-) JM _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
