Caro Paulo,

De modo mais geral, a questão que você colocou é a de saber se uma certa 
operação pode ser considerada como a operação de sucessor. Na 
aritmética, obtemos o sucessor de um número somando uma unidade a ele 
(+1). Se b é o sucessor de a (b=a+1) então não há nenhum outro número 
entre a e b. A operação de somar 1 não deixa buracos. A prova deste fato 
é simples, como você mesmo notou.
Mas esta mesma questão que, para o caso dos números naturais de tão 
trivial parece beirar a idiotice, é uma das grandes questões 
irrespondíveis de nosso tempo quando direcionada aos números cardinais 
infinitos, por exemplo. O conhecimento matemático hegemonicamente aceito 
simplesmente é incapaz de decidir se a operação de tomar o conjunto das 
partes (o conjunto de todos os subconjuntos) de um determinado conjunto 
infinito  nos leva ao próximo número infinito. A suposição de que a 
operação de tomar o conjunto das partes representa a operação de 
sucessor para os números cardinais infinitos é conhecida pelo nome de 
hipótese do contínuo, e a nossa principal teoria dos conjuntos (ZFC) é 
compatível tanto com a verdade quanto com a falsidade desta hipótese.
Como podemos saber isso? Gödel e Cohen demonstraram, provaram isso. 
Tanto quanto podemos provar que não há números naturais entre n e n+1, O 
que isso significa? Significa que as nossas idéias intuitivas que 
fundamentam nossas noções de número e conjunto são vagas demais para 
decidir sobre qual é a operação de sucessor para números infinitos.
O que fazer? Temos simplesmente que escolher. Decidir voluntariamente 
qual é o caso. E pode? Pode e foi feito. O que costumamos chamar de 
matemática clássica tomou o partido da hipótese do contínuo. Inclusive 
os físicos, grandes consumidores (e produtores) de matemática avançada 
tomaram este partido.
No entanto, alguns matemáticos defendem a outra alternativa, negando a 
hipótese do contínuo. Isso significa que há, portanto, pelo menos duas 
matemáticas diferentes. E estas duas matemáticas poderiam servir a 
físicas diferentes. Confesso que não sei se há alguma teoria física 
relevante que leva em consideração a negação da hipótese do contínuo. 
Mas em tese poderia haver.
Bem, acho que chegamos em um ponto que conecta este assunto com o outro 
que vem sendo discutido nesta lista. Pouco importa se há gênios, pessoas 
iluminadas por deuses ou leitores de vísceras de porcos. Pouco importa 
se estes métodos funcionam para quem diz que os detém. Podem até 
funcionar. Não nego esta possibilidade. Mas não podemos chamar de 
conhecimento e muito menos de ciência o que não for acessível a TODOS. A 
ciência é pública. Descreva meticulosamente os processos de leitura de 
vísceras ao ponto que QUALQUER pessoa possa fazer a leitura e que dela 
seja possível obter conclusões empiricamente verificáveis. Se o método 
se sair bem nos testes empíricos, então que seja bem vindo ao mundo da 
ciência. Por outro lado, se o método for irrepetível, impreciso, não 
descritível em termos públicos, então tchau. Não é ciência. E isso não é 
o fim do mundo. Não ser ciência não significa não existir. Mas nossa 
educação pública, por exemplo, não deve ter em seu currículo disciplinas 
pseudocientíficas, pois isso seria uma imposição de práticas cuja 
aceitação ou não deveria ser uma questão de escolha pessoal (ou familiar).
Mas voltando à matemática. Tanto quanto o método fundamental de 
justificativa do conhecimento científico é o teste empírico, o método 
fundamental de justificativa do conhecimento matemático é a 
demonstração. Qualquer idéia, intuição, vislumbre, certeza clara que 
venhamos a ter sobre algum assunto matemático, mesmo que seja algo tão 
trivial quanto a afirmação de que não há nenhum número natural perdido 
entre 0 e 1,  é certificada e comunicada através de sua elaboração e 
respectiva demonstração. Este é o método matemático de conhecer. No 
entanto, mesmo na matemática há momentos em que percebemos as limitações 
deste método e somos obrigados a decidir voluntariamente sobre 
determinados assuntos. Nestes momentos há até certa semelhança entre a 
ciência e outras práticas cognitivas não científicas. Afinal de contas, 
elas não poderiam ser tão diferentes assim, já que são todas práticas 
humanas. Nestas horas nos lembramos de que somos falíveis, de que talvez 
não estejamos vendo tudo, de que a ciência, longe de ser perfeita e 
descrever a realidade como ela é, apenas é o que MELHOR podemos 
atualmente fazer para entender o mundo que nos cerca. E o principal 
critério para este julgamento de MELHOR é sua característica pública. 
Nossos métodos não podem ser privados e intransferíveis, incomunicáveis 
ou dependentes de habilidades não disponíveis a todos nós. Temos que ser 
capazes de ensiná-los a TODAS as nossas crianças.

Saudações,
Daniel


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