Omar Kaminski wrote:
E se as ferramentas de monitoramento estiverem colocadas nos backbones
ou nos provedores, deixar de usar a internet?

Oi Omar,

Eu não teria muita dificuldade em fazer isso. Nenhuma tecnologia é imprescindível -- exceto na área médica.

Mas há, na sua pergunta, um otimismo exagerado, provalvemente apenas retórico: "e se...?" As ferramentas de monitoramento de fato *estão* nos principais centros de dados. Já é sabido que a NSA instalou centros de monitoramento ao lado de clusters e coleções de servidores de Google e Amazon. A internet não é muito descentralizada. O que as grandes redes sociais e mega agregadores de informação têm de especial é que a mineração dos dados é muito mais fácil, pois elas já têm tudo pronto para isso.

A questão é que apenas sair desses ambientes monitorados o quanto for possível não é eficar para combater a vigilância e abusos.

Na sessão de perguntas de uma de suas palestras, alguém perguntou ao RMS se não seria mais eficiente usar o Facebook como meio de divulgação de software livre e em outras campanhas (pois é lá que se encontra muita gente), ao invés de descartar completamente seu uso e acabar atingindo um público menor. A resposta do Stallman foi (aproximadamente nestes termos) que não se trata de um jogo contra um adversário, mas de uma guerra contra um inimigo -- e não se deve colaborar com o inimigo.

Então, é preciso pensar em alternativas de resistência, mesmo que implique se expor ao inimigo (e ía eu citaria novamente o texto do Stallman sobre compromissos ruinosos, em que há que avaliar as conseqüências das ações), correndo o risco de contribuir com o inimigo de alguma forma -- até repito a comparação com luta armada, vejo o dilema (como escreveu o Patola) com um grau de gravidade muito alto.

O que não dá, e nisso concordo com o Anahuac, é usar esses desserviços sem fazer um estardalhaço de alerta s outras pessoas, senão fica parecendo que, por exemplo, se inscrever como um "target" do Facebook é algo aceitável, afinal o/a ativista fulano/a também tem uma conta lá. (Pra quem não sabe, o Facebook representa internamente suas vítimas, digo, usuários ou signatários, como "targets" -- alvos.)

Quanto aos provedores, sim, são um problema. Meus firewalls (em série) são configurados para não passar nada dos servidores de google e facebook (entre outros), por causa de sítios que contêm scripts daquelas empresas. Mas de vez em quando elas acrescentam algum IP novo e conseguem furar o bloqueio (aparentemente os scripts conseguem detectar as falhas de conexão), e isso aconteceu na semana passada. O que achei curioso é que o google estava usando não um servidor dos EUA, mas um da Telemar.

Para reduzir a bisbilhotagem, algumas sugestões que devem ser amplamente difundidas são:

1- O uso de HTTPS e conexões encriptadas sempre que possível, por exemplo, através do plugin "HTTPS Everywhere" para Firefox/Iceweasel/Iececat/TorBrowserBundle;

2- O uso de ofuscadores de conexão como Tor (com as devidas precauções, conforme as características desses recursos);

3- Criptografia de ponta a ponta com GPG, que poderia ser mais usada em correio eletrônico. Isso é algo que eu gostaria de fazer, mas que por não ser simples o suficiente, acaba desestimulando seu uso.

4- SSH, TLS, StartTLS e outros métodos de criptografia que podem reduzir ou impedir a bisbilhotagem. Configurar o cliente de correio eletrônico para usar conexão encriptada.

5- Redes sem fio abertas, ou, melhor dito, de usuários múltiplos e anônimos. Li que, infelizmente, certos provedores de acesso como GVT impõem, nos contratos de adesão, multas de cerca de 10 mil reais em caso de "aluguel", "sublocação", etc. o que pode dar margem a proibir que os usuários deixem suas redes sem fio abertas. Uma observação é que redes sem fio "abertas" ("unsecured", sem senha) podem ser realmente inseguras, mas há a possibilidade de usar criptografia com senha pública, o que já dá uma boa segurança. Nos EUA existe o movimento OpenWireless.Org , que é um bom exemplo de campanha a se reproduzir por aqui. Devemos lutar para manter o direito de compartilhar nosso acesso a internet com quem quisermos. (Um minuto, para eu religar o rádio... Pronto, estou de volta.)

Espero que os colegas tenham outras sugestões.

(Aliás, ainda aproveitando a questão e fazendo um comentário ao texto recente do Anahuac, em que ele sugere o RiseUp.net como alternativa ao GMail: para o vigilantismo do governo dos EUA não adianta muito, porque o RiseUp -- criado por pessoas do Ocupy Wall Streeet -- fica nos EUA e, portanto, está sujeito tratorada da ditatura de lá. O que ele reduz é o acesso direto e mastigado que haveria com o uso dos grandes serviços de correio-e feitos para monitorar. O uso do StartTLS também é algum atrativo, comparado aos correios tradicionais que não têm criptografia absolutamente nenhuma. O que precisamos é de criar "RiseUps" no Brasil, na América Latina, mantidos com dinheiro nosso e sem nenhuma relação com empresa dos EUA, para ficar fora da ingerência imediata do Grande Irmão.)


E se há cada vez mais câmeras de vigilância nas cidades, deixar de
sair nas ruas?

E se as empresas cada vez mais vigiam os que os funcionários fazem,
deixar de ir trabalhar?

O importante é rejeitar o quanto possível esse monitoramento, lutar contra ele. Não aceitá-lo passivamente. Não dar a entender nem por um minuto que ele seja aceitável. Nos contextos em que for possível, sim, evitá-los -- pode não ser eficiente de maneira direta, mas por uma questão de princípio e de conscientização. Ou ainda para dizer, tal como os palestinos sitiados, que a um gato engaiolado resta-lhe pelo menos mostrar as garras.

Até mais,
Hudson
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