Cláudio Sampaio wrote:
Nem todo mundo se sensibiliza pela causa das liberdades de softwares e
direitos digitais, infelizmente. Algumas, provavelmente, por não
conseguirem ver com clareza as consequências dessas causas.
Oi Patola,
Eu diria que quase totalidade não vê absolutamente nada. As pessoas não
têm a mínima noção de como funciona, por exemplo, o correio eletrônico
ou o acesso a uma página de internet. (Eu também não sei quase nada
sobre isso, mas sei o suficiente pra configurar navegadores e o
firestarter.)
Então, nessas
horas, mais que apelar para longínquos princípios incompreensíveis para a
maioria das pessoas, mais vale apontar problemas práticos mais próximos ao
cotidiano delas. E nesse sentido, o pessoal do Facebook tem "colaborado",
tornando-o cada vez menos usável; além de interface irritante e carregada,
ultimamente, para capitalizar (ou no jargão atual anglicista: "monetizar"),
eles criaram os assim chamados "post promovidos", em que você faz
micropagamentos para que seu post chegue ao mural de todos os seus
contatos. A consequência disso é que se você *não* paga, seu post só é
visto por uns gatos pingados.
Por isso digo que a questão não é técnica, é política. Mas o problema
dessa abordagem é que se surgir algo mais "usável", que não seja
"irritante" ou "carregado", as pessoas vão achar que faz sentido mudar
para lá, mesmo que seja algo ainda mais perverso que o Facebook ou o
Google. É o que está acontecendo, por exemplo, com aquele backdoor
chamado Google Chrome, que está se difundindo e tirando usuários do
Firefox. A abordagem de recursos técnicos tem que ser secundária, como
argumentação suplementar, não pode ser o foco da mensagem. Exemplos de
abusos não faltam para a abordagem política.
Os problemas práticos mais relevantes são invasões, abusos, espionagem,
software fora de controle dos usuários, spyPhones que fazem gravações,
fotos e vídeos à revelia dos usuários, dados em mãos de terceiros,
tráfico de informações pessoais, eleições infiscalizáveis, etc.
A parte mais difícil é que, como você já disse, cada um desses temas --
que são os que realmente importam -- é complicado de explicar e
entender. O que a sociedade precisa é de uma formação tecnológica
disponível a todos desde a infância, para poder entender e se defender
desses abusos.
Mas as pessoas *querem* uma rede social. Não adianta.
Esse não é nenhum problema. É legítimo que queiram e usem. Mas elas
precisam saber dos altos custos de algumas dessas redes.
Então como até agora
o Google Plus tem sido menos censurador e menos "caça-níqueis" que o
Facebook, tenho chamado as pessoas para lá.
Acho isso triste. Seria melhor puxar para Diaspora* ou algum outro meio.
Pelo menos, as pessoas precisam saber que não devem usar serviços
pessoais do Google no mesmo navegador que usam para outros sítios e
outros serviços do Google.
Eu mesmo fiquei muito dependente da funcionalidade de uma rede social.
Consegui contatos preciosos, e informações que têm me enriquecido muito.
Não vejo problemas em redes sociais em princípio. Não tenho interesse
nelas porque minha personalidade não é muito sociável.
Não é muito legal a situação em que nos encontramos, mas acho que meio que
inevitável. Quem ganha algum poder acaba o usando pra algo. E o poder de
agregação de comunidades é algo muito potente.
Você vê nisso algo similar ao uso temporário de Unix pelo RMS para
iniciar o GNU? Ou como motins no interior de uma prisão perpétua?
Minha visão é pessimista, acho que está mais pro lado da prisão perpétua.
Suspeitei. Também não sou otimista.
Vejo a funcionalidade de rede social como inevitável (as pessoas querem) e
vejo como únicos controladores eficientes delas empresas privadas como
Facebook e Google. Eu também meio que não sei "pra onde ir", visto que,
concordo, o Google tem tomada atitudes abertamente malignas ultimamente. :(
Pelo menos desde 2003 o Google has been very evil.
Ah, Netflix: é um serviço de streaming de vídeo que funciona de modo
parecido a uma televisão a cabo, com bastante conteúdo - inclusive conteúdo
original da própria empresa - e assinatura mensal barata. Tem tomado a
internet de assalto e erodido de forma bastante violenta o lucro das
operadoras de tevê a cabo. As pessoas vêem Netflix como uma "alforria" da
tevê a cabo, sem perceberem que estão entrando em uma prisão talvez até
maior (ainda que mais barata) que envolve o sequestro de seus computadores
para fazer operações que são contra o seu interesse (o DRM).
Serviços de TV digital remotamente monitorada (e.g. TV a cabo) também
são um outro tipo de coisa completamente inadmissível para mim.
Isso me fez lembrar um ponto crucial desses desserviços todos que
estamos criticando: o usuário não paga porque não é o cliente, é a
mercadoria. Aí está o talvez o maior de todos os problemas de
dependência desses desserviços, a maior dificuldade de compabê-los:
trata-se de atividades que têm um custo de manutenção, mas alternativas
honestas não conseguem vingar, tendo de concorrer com esses atrativos
"gratuitos".
Isso é inclusive algo que ninguém menos que Bruce Perens disse numa
entrevista não-tão-recente[1]. O usuário não-técnico, ou mesmo desligado de
tendências e ideologias, tem rejeição ao discurso das liberdades de
software e direitos digitais porque lhe parece algo que confrontará outras
"liberdades" que a indústria lhe deu.
Essa visão não deveria ser acatada, mas combatida, mesmo que pareça
batalha perdida. Vou dar uma olhada na entrevista.
Para nós, um iPhone é um dispositivo
o mais fechado e ultrajante possível, mas com ele veio, para este usuário,
uma facilidade imprecedente, uma "liberdade" da complicação técnica e
"feitiços inextrincáveis" antes acessíveis apenas a aqueles nerds de óculos
sem habilidades sociais. Algo cheio de DRM, patentes, segredos industriais,
EULAs draconianos e demais desrespeitos pode ainda assim parecer
brilhantemente liberador para uma pessoa comum, e de certo modo, é. Nosso
discurso deveria mudar para abordar isso.
[1]
http://news.slashdot.org/story/12/11/05/0122238/bruce-perens-answers-your-questions
Mudar de onde para onde?
Eu, pessoalmente, não posso fazer um discurso que amenize problemas que
eu considero altamente repugnantes -- seria desonesto, inclusive comigo
mesmo. Minha inquietação atual se deve justamente a ter ficado calado
por muito tempo frente a situações repugnantes, apenas por buscar
tolerar a ignorância alheia como algo "aceitável" por estar na moda,
evitar ser muito radical. (As atitudes "radicais" mantenho firmemente
quanto a minha própria vida.)
De qualquer modo, penso que a simultaneidade de abordagens diferentes
pode ser positiva, porque alcança contextos que uma abordagem rígida e
una não alcançaria -- uma visão darwiniana. Por exemplo, não é um
fracasso total para o software livre a existência da "open source
initiative" -- atrapalha bastante por um lado, mas tem alguns resultados
positivos por outro, que podem ser aproveitados. Então, acho importante
que exista tanto a visão "radical", "extremista", quando outras
"neo-pós-modernistas-pero-no-mucho-y-al-revés". Autenticidade é essencial.
Valeu pelas informações!
Até mais,
Hudson
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