The Intercept Brasil

*_Quanto custa o gratuito?_*
Sábado, 21 de maio de 2022 - The Intercept Brasil

*Como universidades brasileiras se tornaram reféns do Google.*
Daqui a dois meses, milhares e milhares de arquivos de universidades
brasileiras podem correr risco. O Google passará a limitar o armazenamento
do Google Workspace for Education, pacote de programas fornecidos
gratuitamente a universidades e escolas, a partir de julho deste ano.

O pacote educacional do Google, propagandeado pela empresa como
"super seguro e de graça", reúne Gmail, Meet, Drive, aplicativo de
planilhas e outras ferramentas. Era oferecido a instituições de ensino no
Brasil de forma agressiva desde 2014, apresentado como uma alternativa
altamente tecnológica, simples e, sobretudo, ilimitada.

Várias universidades sucumbiram ao canto da sereia e adotaram com
entusiasmo as ferramentas da gigante do Vale do Silício. Tecnologia
gratuita, confiável, que poderia ser adotada sem licitação, modernizando as
instituições. Parecia bom demais.

O Google garantia que seu pacote faria as universidades economizarem com
tecnologia da informação. A USP chegou a anunciar uma economia de R$ 6
milhões ao ano.  Na Universidade Federal de São João Del Rei, a adoção do
pacote do Google foi saudada como uma "nova etapa". Na Universidade
Estadual do Pará, como uma "inovação".

Mas a lua-de-mel acabou.

Em fevereiro do ano passado, o Google decidiu que o armazenamento
"ilimitado" passaria a ter limites. A partir de julho, as instituições
terão direito a apenas 100 TB de armazenamento, cada. Parece muito para
nós, usuários individuais, mas estamos falando de muitos anos de produção
acadêmica e de uma quantidade monumental de documentos, vídeos, PDFs,
e-mails, planilhas, apresentações, teses, dissertações, livros digitais,
arquivos de pesquisas etc. Qual a solução? Se uma universidade precisar de
mais espaço, vai precisar comprar – e do Google, se quiser manter as
ferramentas atualmente em uso.

Só na Universidade Federal de Juiz de Fora, a UFJF, por exemplo, a
comunidade universitária usa 700 TB de dados – sim, sete vezes mais do que
o Google vai oferecer gratuitamente. Então, o professor Paulo Vilela, do
departamento de engenharia da universidade, resolveu recorrer ao Procon
contra a empresa.

"Vários usuários, se quiserem manter o que já têm armazenado no Google,
terão que pagar pelo uso do armazenamento adicional", ele explicou ao
Intercept. O professor também diz que a empresa entrou nas universidades
sem licitação porque oferecia um serviço gratuito. Agora que passará a
cobrar, será preciso submeter o fornecimento das tecnologias à licitação
pública. E isso, com toda a demora, pode prejudicar o funcionamento das
universidades.

Nós lemos a resposta do Google ao Procon de Juiz de Fora. Ela é puro suco
de cinismo corporativo: a empresa diz que, por exemplo, as instituições
concordaram com os termos de uso do produto, que preveem “atualizações
comercialmente viáveis nos serviços periodicamente” mediante informação
prévia ao usuário. Também diz que o contrato "estipulou a possibilidade
de a Google descontinuar qualquer serviço do produto ou funcionalidade
relevante associada a ele", desde que comunicados com 12 meses de
antecedência.

Segundo a manifestação de seis advogados da empresa, "o Google também não
contrariou sua oferta inicial, pois, enquanto o contrato previa a
utilização do produto de forma gratuita e ilimitada, nada foi exigido dos
usuários do Workspace. E a comunicação prévia sobre a alteração do
produto, em especial quanto ao armazenamento, permite ao usuário refletir
sobre suas necessidades para uma eventual contratação de espaço extra,
ou mesmo para migrar para outra plataforma, se assim preferir".
De fato, no contrato com a USP, por exemplo, o Google diz que "poderá
fazer alterações comercialmente razoáveis nos serviços de tempos em
tempos. Se houver alterações materiais, a Google informará a USP, desde
que a USP tenha se cadastrado para ser informada pela Google sobre tais
alterações".

Se é verdade que os caudalosos termos de serviço traziam as más notícias,
também é fato que o Google não mencionou o assunto quando fez alarde sobre
suas "boas ações". As universidades acreditaram na boa intenção da big tech
e agora pagam um preço por isso.

Como apontaram os pesquisadores Henrique Parra, Leonardo Cruz, Tel Amiel e
Jorge Machado num artigo de 2018, a promessa do Google se cumpriu: as
universidades deixaram de gastar com as ferramentas, mas também deixaram de
investir em tecnologia. Por isso, se tornaram dependentes da gigante
americana.

No artigo, os pesquisadores elencaram vários problemas na adoção das
tecnologias do Google: falta de soberania tecnológica, coleta
indiscriminada de informações e possível uso dos dados para publicidade,
algo que a empresa jura não fazer, apesar de constituir a base de seu
modelo de negócios. Eles também previram o problema que surge agora,
afirmando que os convênios não eram claros sobre o prazo de vigência da
oferta gratuita. "Afirma-se que os serviços da Google são oferecidos
gratuitamente para as universidades. Mas quanto vale o gratuito?",
questionaram.

Agora, já sabemos a resposta.

Tatiana Dias
Editora Sênior

Paulo Victor Ribeiro
Repórter

-- 
LOGICA-L
Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica 
<logica-l@dimap.ufrn.br>
--- 
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos 
Grupos do Google.
Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br.
Para ver esta discussão na web, acesse 
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAOrCsLeb0wyEAdWc_hQdA-DFotyxc33ZQ1wWM6CqWUZtnq9E2A%40mail.gmail.com.

Responder a