Não sei quando aprendi esta palavra: *truísmo*.

atte;
Diego
Em sex., 9 de abr. de 2021 às 12:40, Daniel Durante <durant...@gmail.com>
escreveu:

> Salve Tiago,
>
> Que pergunta excelente! Muito boa mesmo! Me fez perder algumas horas desta
> manhã pensando sobre o assunto, e entender melhor por que meus ouvidos doem
> com a classificação de "verdade por vacuidade".
>
> A sua primeira sentença
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm mais de 100 anos."
>
> é mesmo vácua: não tem testemunha (nem exemplo, nem contraexemplo). Mas
> além de vácua ela é uma verdade necessária (admitindo que a aritmética é
> necessária), porque nós já sabemos hoje, aqui, no nosso mundo, que se o
> mundo fosse diferente do que é, e alguns humanos vivessem mesmo mais de 200
> anos, todos esses teriam mais de 100.
>
> Então, apesar de vácua, esta sentença não é considerada verdadeira (só)
> por (causa da sua) vacuidade. Porque mesmo se ela não fosse vácua, ela
> seria verdadeira. Eu não a classificaria como "verdadeira por vacuidade".
> Eu preferiria classificá-la de "necessariamente verdadeira", ou então
> "verdadeira por causa da aritmética". Mas se eu tivesse perguntado isso em
> uma prova e alguém respondesse que ela é "verdadeira por vacuidade", eu não
> teria coragem de dar errado na questão.
>
> Veja que a minha sentença
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm três pés."
>
> é bem diferente. Nós não temos nenhuma razão para supor que se o mundo
> fosse tal que algumas pessoas vivessem mais de 200 anos, todas essas
> pessoas teriam três pés. Ao contrário, eu consigo imaginar que algumas das
> pessoas que vierem a nascer daqui a uns 300 anos (se nossa civilização não
> acabar antes...) poderão viver mais de 200 anos, mas tenho muito mais
> dificuldade para vincular este aumento em nossa expectativa de vida com uma
> mudança anatômica em nossa espécie que nos desse três pés.
>
> Ou seja, diferente da sua primeira sentença, que sabemos que seria
> verdadeira mesmo se não fosse vácua, o conhecimento que temos disponível
> hoje nos sugere que a minha sentença seria falsa se não fosse vácua. Então
> ela é considerada verdadeira (só) por (causa da sua) vacuidade.
>
> A sua segunda sentença
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm mais de 300 anos."
>
> é análoga à minha, só um pouco mais radical. Porque a sugestão que o nosso
> conhecimento disponível hoje nos dá de que ela seria falsa numa situação
> onde não fosse vácua, é mais forte ainda do que no caso da minha sentença.
> Para esta sentença ser verdadeira, em uma situação em que tivesse
> testemunha, seria preciso ter ocorrido um intervalo de 100 anos sem que
> ninguém nascesse, e sem que todas as pessoas com mais de 200 anos
> morressem, de tal modo que não houvesse ninguém com 201,...299,300 anos,
> mas houvesse pessoas com mais de 300 anos. E isso, convenhamos, é bem
> implausível.
>
> No entanto, hoje, aqui, dada nossas convenções de classificação, esta sua
> segunda sentença é sim verdadeira. Verdadeira por vacuidade, porque não tem
> contraexemplo. E a dor nos nossos ouvidos aumenta!
>
> Mas aí, a gente pode ser mais radical ainda e propor a seguinte sentença:
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm menos de 100 anos."
>
> E agora? Ela não tem testemunha e, portanto, deveria ser considerada
> verdadeira por vacuidade. No entanto, sabemos, hoje, que em qualquer
> circunstância concebível em que ela tenha testemunha, ela é falsa.
>
> E aí? Ela é verdadeira ou falsa?
>
> Bem, dado tudo o que vimos até aqui, eu deveria dizer que ela é verdadeira
> (só) por (causa da sua) vacuidade. Mas dizer isso faz meus ouvidos doerem
> muito, a um ponto que eu não suporto. Então a gente precisa de uma saída. E
> dá pra achar. É por isso que eu digo para os meus alunos que a lógica é uma
> disciplina tão escorregadia quanto qualquer outra disciplina filosófica.
>
> Se você perguntar na rua, por aí, para uma pessoa "normal", que não fica,
> como nós, estudando sistemas formais, fazendo provas matemáticas,... se
> você perguntar se a sentença
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm menos de 100 anos"
>
> é verdadeira ou falsa, todas as pessoas "normais" de bom senso vão dizer
> que esta é uma sentença falsa. E não estarão erradas ao fazer isso.
>
> Por que? Bem, porque quando as pessoas se deparam com uma sentença
> claramente vácua do tipo destes nossos exemplos, elas não fazem uma leitura
> INDICATIVA, mas uma leitura SUBJUNTIVA.
>
> Apenas em sua leitura indicativa a formalização mais imediata desta
> sentença é algo como:
>
>   Vx[(Humano(x) & idade(x)>200) -> idade(x)<100]
>
> E nesta formalização, tendo o mundo real como interpretação, esta sentença
> é verdadeira. Verdadeira (só) por (causa da sua) vacuidade.
>
> Mas qual a relação da sentença original em português com esta
> formalização? Ela não é obrigatória nem necessária. E ela não ocorre na
> cabeça da maioria das pessoas que se deparam com uma sentença claramente
> vácua como essas dos nossos exemplos.
>
> Como a gente sabe que ninguém vive 200 anos, a gente interpreta a sentença
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm menos de 100 anos."
>
> como uma afirmação contrafactual, no subjuntivo, que nos convida a
> refletir sobre o que ocorreria se houvesse pessoas com mais de 200 anos.
> Algo como:
>
>   "Qualquer ser humano que tiver mais de 200 anos, terá menos de 100 anos"
>
>   "Se um ser humano tivesse mais de 200 anos, ele teria menos de 100 anos"
>
>   "Todos os seres humanos que tivessem mais de 200 anos, teriam menos de
> 100 anos"
>
> Bem, em qualquer leitura subjuntiva, esta sentença é claramente FALSA. Se
> um ser humano tivesse mais de 200 anos ele não teria menos de 100. E em sua
> leitura subjuntiva, estas sentenças não são simbolizadas pela nossa
> sentença verdadeira
>
>   Vx[(Humano(x) & idade(x)>200) -> idade(x)<100]
>
> Sua simbolização é muito mais sutil e complexa e exige sistemas com
> semânticas intensionais (com mundos possíveis, ou com multivaloração, ou...)
>
> Então, se você me perguntar se a sentença em português
>
>   "Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm menos de 100 anos."
>
> é verdadeira ou falsa, eu fico com as pessoas de bom senso e digo que ela
> é falsa. Se você fizer careta, eu explico minha leitura subjuntiva e digo
> que se você tivesse me perguntado sobre a sentença
>
>   Vx[(Humano(x) & idade(x)>200) -> idade(x)<100]
>
> eu teria dito que ela é verdadeira por falta de contraexemplo.
>
> Saudações,
> Daniel.
>
> -----
> Departamento de Filosofia - (UFRN)
> http://danieldurante.weebly.com
>
> > On 8 Apr 2021, at 16:47, Tiago de Lima <tiagosantosdel...@gmail.com>
> wrote:
> >
> > Olá,
> >
> > Depois do email de Daniel Durante eu fiquei com uma dúvida. Que tal essa
> frase aqui:
> >
> > Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm mais de 100 anos.
> >
> > Daniel, o que você acha? É verdadeiro por vacuidade ou é verdadeiro pour
> um outro motivo? E essa outra:
> >
> > Todos os seres humanos com mais de 200 anos têm mais de 300 anos.
> >
> > é verdadeira?
> >
> > --
> > Tiago.
> >
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