Aí já há outra questão, que acho que você desconhece. O que eu afirmei
sobre os significados abstratos admitirem mais interpretações tem base
empírica nos estudos linguísticos. Estou falando de fatos conhecidos acerca
da linguagem. É como os cérebros humanos funcionam mesmo. Agora, por meios
outros que não a constatação empírica outros resultados são produzidos: por
exemplo, pessoas que adotam tais e tais definições e por meios dedutivos
produzem teoremas talvez cheguem a resultados diferentes do que acontece
com os fatos. Aristóteles demonstrava muito bem sua física, mas, ainda que
suas demonstrações fossem corretas, não tinham respaldo empírico.

Ademais, conheço sim o Zalta, inclusive pessoalmente e mais um dos citados
tanto pessoalmente quanto através dos seus trabalhos. Como a Holanda não é
um dos centros mais avançados em estudos da linguagem, eu recomendo a você
que não perca tempo com eles e leia as obras dos linguistas que trabalham
ou com o programa minimalista, ou com programa antissimétrico, HDPSG, ou
seja, de centros dos EUA que têm um entendimento teórico mais elaborado e
com maior base empírica.

Em 28 de janeiro de 2013 14:37, Francisco <[email protected]> escreveu:

> Caro Tony,
>
> Aprecio bastante o esmero e a polidez de sua escrita. Ela me parece
> irretocável, exceto quando se deixa resvalar pelo desconhecimento de seu
> escriba em certos assuntos.
>
> Em uma passagem de sua mensagem voce diz: *Quanto mais abstrato for o
> significado de uma expressão, maior a
> possibilidade e diversidade de interpretações que essa expressão recebe.*
>
> Seu desconhecimento é digno de perdão, pois acredito nunca ter ouvido
> falar nos trabalhos desenvolvidos na área de lógica intensional.
> Notadamente, os trabalhos do *enfant terrible* Pavel Tichy (
> http://til.phil.muni.cz/), Ed. Zalta, Yiannis Moschavakis (
> http://www.math.ucla.edu/~ynm/) e Reinhard Muskens (
> http://let.uvt.nl/general/people/rmuskens/) entre outros.
>
> Boa leitura.
> Francisco
>
> Em 28 de janeiro de 2013 01:16, Tony Marmo <[email protected]>escreveu:
>
>> Caro Professor,
>>
>> A mim a primeira leitura e estudo da teoria de conjuntos axiomática pela
>> visão dos matemáticos é que se trata muito mais de uma teoria metafísica
>> que também pode tratar de questões matemáticas. Eu estava muito mais
>> acostumado com a visão da filosofia analítica até então.
>>
>> Não tenho problemas com essa interpretação, mas os matemáticos não gostam
>> que se lhes diga que do modo que estão lidando com fundamentos
>> metafísicos.
>> Aliás, não raramente encontro gente que recusa qualquer interpretação para
>> os conceitos matemáticos, repetindo: "não, não é isso", mas eles fazem uma
>> certa metafísica ainda que não queiram admitir isso.
>>
>> Aqui cabe duas colocações acerca de linguagem que a maioria dos
>> matemáticos
>> desconhecem e explico porque é balda a tentativa de recusar interpretações
>> ou querer supercontrolá-las:
>>
>> [1] Primeiramente, linguagens formais diferem de línguas naturais
>> (conceito
>> da linguística gerativa e outras) num aspecto crucial: fórmulas não têm
>> intenção comunicativa, expressões de línguas naturais sim. Eu já ouvi
>> gente
>> falar na "intenção por detrás da fórmula", mas isso é de certo modo um
>> unicórnio: simplesmente não está lá, salvo pela nossa imaginação.
>>
>> [2] Quanto mais abstrato for o significado de uma expressão, maior a
>> possibilidade e diversidade de interpretações que essa expressão recebe. É
>> como aquele quadro abstrato em que cada um enxerga o que quiser, conforme
>> sente ou percebe as formas.
>>
>> Ou seja, se você tiver alguma intenção a comunicar, ela não estará nas
>> suas
>> fórmulas: você terá de as escrever em parágrafos em Português, Francês ou
>> outra língua natural. Pensou que colocou na fórmula, você a perdeu.
>>
>> Mas, se você quiser, ao contrário disso, fazer um trabalho com noções
>> altamente abstratas, quanto mais abstrato for o seu pensamento, mais os
>> seus leitores estarão livres para o entender como quiserem ou sentirem.
>> Não
>> adianta dizer-lhes depois: não é nada disso, porque você mesmo já abriu
>> espaço para tudo isso quando escolheu níveis muito altos de abstração.
>>
>> Agora, nada disso é grande novidade, por exemplo, para engenheiros: eles
>> sempre arrumam interpretações concretas para os conceitos matemáticos,
>> para
>> eles a matemática significa o que as suas aplicações em engenharia
>> permitem
>> produzir. E eles não estão errados: do prisma deles, esse modo de
>> interpretar as coisas é que racional. Afinal de contas, a razão não busca
>> o
>> saber inútil.
>>
>> Em 27 de janeiro de 2013 09:16, Décio Krause <[email protected]
>> >escreveu:
>>
>> > Caros
>> > Lembrem que podemos desenvolver ZF sem usar a palavra "conjunto", como
>> um
>> > teoria formal. Na verdade, os "conjuntos" não estão lá, nós é que os
>> > colocamos depois...
>> >
>> > Alguém aí quis me dar uma aula...agradeço, mas continuo com a mesma
>> > opinião.
>> >
>> > Julio, seu link cai no MDPI. Baixei o app, mas como acesso seu artigo?
>> > Cada vez que clico no link ele cai na mesma coisa, pedindo para baixar o
>> > app de novo...
>> > D
>> >
>> > *
>> > *
>> > *
>> > *
>> > *------------------------------------------------------*
>> > *Décio Krause*
>> > *Departamento de Filosofia*
>> > *Universidade Federal de Santa Catarina*
>> > *88040-900 Florianópolis - SC - Brasil*
>> > *http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause*
>> > *------------------------------------------------------*
>>
>> >
>> > Em 27/01/2013, às 08:56, Julio Stern <[email protected]> escreveu:
>> >
>> > Caros Redistas:
>> >
>> > Varios dos pontos em discussao referem-se aa construcao de
>> > uma Ontologia Mateematica adequada aos nossos propositos.
>> > Discuto varios destes ponto na
>> > Secco 3,  Mathematical Ontology,  do artigo:
>> >
>> > Constructive Verification, Empirical Induction,
>> > and Falibilist Deduction: A Threefold Contrast.
>> >
>> > disponivel no link
>> >
>> > http://www.mdpi.com/2078-2489/2/4/635
>> >
>> >
>> > Varios pontos a discutir:
>> >
>> > 1) A nocao de Objeto Concreto
>> > presupoe uma epistemologia fortemente realista
>> > ou um processo ingenuo de reificacao, isto eh,
>> > ou os tais Objetos Concretos nos sao dados a priori
>> > nO Mundo Real, ou eu ingenuamente acho que sei muito bem
>> > quais sao os ditos cujos Objetos Concretos.
>> >
>> > 2) O Sentido Cotidiano de conjunto pode ate nao ser o
>> > mesmo que (um dado) Sentido Matemático, mas isto nao quer
>> > dizer que seja possivel fazer (uma) matematica (util) que
>> > nao reflita os conceitos de alguma ontologia cientifica.
>> >
>> > Imre Lakatos discute o assunto en detalhe em um livrinho
>> > de leitura deliciosa: Proofs and Refutations: The Logic of
>> > Mathematical Discovery (que eu aho que foi traduzido no Brasil).
>> >
>> > Na verdade, Lakatos esta apenas buscando respostas a uma
>> > pergunta fundamental formulada por seu professor, Arpad Szabo:
>> >
>> > Como (diabos) foi que Matematica se tornou uma ciencia dedutiva?!
>> >
>> > Abraco a todos,
>> > ---Julio Stern
>> >
>> >
>> >
>> > ----------------------------------------
>> >
>> > Date: Sun, 27 Jan 2013 01:15:48 -0200
>> >
>> > From: [email protected]
>> >
>> > To: [email protected]; [email protected]
>> >
>> > Subject: Re: [Logica-l] a resposta do Zerrmelo Fraenkel
>> >
>> >
>> > Muito obrigado, Rodrigo. Permita-me citá-lo, na sua reflexão genial que
>> >
>> > chega ao ponto que eu queria:
>> >
>> >
>> > "Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
>> >
>> > entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem
>> conter
>> >
>> > objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
>> >
>> > russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
>> >
>> > objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David
>> Lewis,
>> >
>> > mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
>> >
>> > seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
>> >
>> > concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia
>> analítica,
>> >
>> > diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são
>> conjuntos de
>> >
>> > mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
>> >
>> > continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
>> >
>> > cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number
>> of
>> >
>> > objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
>> the
>> >
>> > same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
>> >
>> > their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
>> >
>> > concretos podem ter cor ou distribuição espacial."
>> >
>> >
>> > Isto vai ao ponto que disse eu em mais de uma mensagem: [1] a
>> construção da
>> >
>> > matemática admite mais de uma interpretação e [2] lógica e matemática
>> não
>> >
>> > são a mesma coisa, ainda que tenham muito a ver uma com a outra. Talvez
>> nem
>> >
>> > toda interpretação da construção da matemática coincida com a
>> interpretação
>> >
>> > de um matemático, ou nem toda tenha interesse como diz o João Marcos.
>> Mas,
>> >
>> > as várias interpretações estão aí. E certamente os lógicos não enxergam
>> as
>> >
>> > noções matemáticas exatamente como os matemáticos, não só porque as
>> >
>> > interpretam de modo diferente, mas porque têm interesses diferentes. E
>> você
>> >
>> > primorosamente traz à tona a observação de que a filosofia analítica tem
>> >
>> > uma visão diferente do que sejam conjuntos, que é a visão que interessa
>> >
>> > mais aos lógicos. Ora, quando eu digo que a lógica tem e pressupõe um
>> >
>> > ambiente cultural-filosófico próprio, que remonta a uma tradição pelo
>> menos
>> >
>> > desde Aristóteles, a filosofia analítica faz parte justamente disso.
>> >
>> >
>> > Fico uma vez mais agradecido pelas suas contribuições e considero-me
>> mais
>> >
>> > que contemplado pela última.
>> >
>> >
>> > Em 26 de janeiro de 2013 23:39, Rodrigo Freire <[email protected]
>> > >escreveu:
>> >
>> >
>> > O João Marcos está correto aqui:
>> >
>> >
>> > O "sentido cotidiano" de *conjunto* não é o "sentido matemático", e o
>> >
>> > primeiro tem tanta relevância para o segundo quanto o sentido
>> >
>> > cotidiano de *continuidade* tem relevância para o sentido matemático
>> >
>> > da mesma noção. Não saber separar os dois é ser incapaz de fazer
>> >
>> > qualquer tipo de Análise Matemática minimamente interessante.
>> >
>> >
>> >
>> >
>> > Conjuntos (permitindo objetos concretos na relação ancestral de
>> >
>> > pertencimento ou não) são objetos organizados em uma hierarquia de um
>> modo
>> >
>> > específico que *não* é compatível com o uso na linguagem corrente da
>> >
>> > expressão "coleção". Conjuntos não são coleções. Vou reproduzir aqui
>> dois
>> >
>> > argumentos que acredito são suficientes para ver isso:
>> >
>> >
>> > A1- Considere a coleção de bibliotecas da universidade federal fictícia
>> do
>> >
>> > mato grosso do norte (UFFMGN). Uma biblioteca é uma coleção de livros,
>> uma
>> >
>> > coleção de bibliotecas é uma coleção de coleções de livros. Suponha que
>> o
>> >
>> > professor de lógica da UFFMGN pergunta para o bibliotecário da mesma
>> >
>> > universidade se a coleção de bibliotecas contém o livro de lógica de
>> >
>> > Hilbert-Ackermann. É coerente com o uso cotidiano da palavra coleção
>> ouvir
>> >
>> > a seguinte resposta: "Sim, as duas edições do Hilbert-Ackermann estão na
>> >
>> > coleção de bibliotecas da UFFMGN."
>> >
>> > O problema é que o Hilbert-Ackermann "está na coleção", segundo o uso
>> >
>> > cotidiano de coleção, mas não pertence à coleção porque o
>> Hilbert-Ackermann
>> >
>> > não é uma biblioteca.
>> >
>> > O argumento não tem nada a ver com bibliotecas e pode trivialmente ser
>> >
>> > reformulado em termos de outras coleções de coleções. O uso cotidiano de
>> >
>> > "coleção" não respeita a organização hierárquica dos conjuntos.
>> >
>> >
>> >
>> > A2- Se conjuntos são coleções no sentido cotidiano, então o conjunto
>> vazio
>> >
>> > é uma coleção. Isso faz de mim um colecionador de armas de fogo.
>> Contudo,
>> >
>> > como não tenho nenhuma arma de fogo eu não sou um colecionador de armas
>> de
>> >
>> > fogo segundo o uso cotidiano do termo: eu não preciso fazer nenhum
>> registro
>> >
>> > na polícia federal ou nas forças armadas, não faz sentido ir ao encontro
>> >
>> > brasileiro de colecionadores de armas, se tal coisa existir, etc.
>> >
>> >
>> >
>> > Olhei rapidamente o arquivo de materiais online que o Mario colocou
>> aqui.
>> >
>> > Comparando a oferta de materiais de Lógica com a de outra área em que
>> >
>> > também atuo (Geometria), fica claro que a situação da Lógica é bem
>> >
>> > precária. Contudo, tenho dúvidas se vale a pena investir em construir
>> uma
>> >
>> > literatura em português para o assunto.
>> >
>> >
>> > Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
>> >
>> > entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem
>> conter
>> >
>> > objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
>> >
>> > russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
>> >
>> > objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David
>> Lewis,
>> >
>> > mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
>> >
>> > seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
>> >
>> > concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia
>> analítica,
>> >
>> > diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são
>> conjuntos de
>> >
>> > mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
>> >
>> > continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
>> >
>> > cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number
>> of
>> >
>> > objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
>> the
>> >
>> > same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
>> >
>> > their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
>> >
>> > concretos podem ter cor ou distribuição espacial.
>> >
>> >
>> >
>> > É verdade que mesmo o básico em Lógica (e em todas as outras áreas) não
>> é
>> >
>> > tema sem controvérsia. Livros adoram começar com alguma afirmação
>> >
>> > categórica sobre o que é a lógica: ciência do raciocínio, estudo das
>> leis
>> >
>> > do pensamento, estudo de relações formais entre portadores de valor de
>> >
>> > verdade, estudo da argumentação válida, etc. Seria muito melhor começar
>> >
>> > discutindo essas e outras possibilidades, bem como as várias traduções
>> >
>> > possíveis da palavra logos. Mas para isso precisa ter competência em
>> >
>> > análise conceitual. Os estudantes também parecem apreciar essas
>> afirmações
>> >
>> > categóricas, mesmo que delas não entendam nada. Eles parecem precisar
>> dessa
>> >
>> > "paz de espírito" para seguir em frente, já que essas discussões
>> iniciais
>> >
>> > "não vão render resultados".Esse espírito nada investigativo parece ser
>> >
>> > dominante em todas as áreas. Ninguém começa um livro de matemática
>> >
>> > arriscando dizer o que é a matemática. Não sei quando foi a última vez
>> que
>> >
>> > vi algum livro de geometria tentando começar com algo do tipo:
>> "geometria é
>> >
>> > o estudo de formas espaciais". Não é que essas coisas tenham sido
>> >
>> > resolvidas, ao contrário. As pessoas passaram a ignorá-las, talvez por
>> >
>> > acreditarem que isso não renda papers que vão valorizar seus
>> currículos...
>> >
>> >
>> > Podemos nos perguntar pelos motivos dessa postura anti-investigativa.
>> Vejo
>> >
>> > que, atualmente, os cursos de pós-graduação em matemática são feitos em
>> um
>> >
>> > ritmo muito acelerado, porque tanto o professor quanto os alunos querem
>> >
>> > chegar rápido em algum resultado lá na frente. Não importa se ninguém
>> >
>> > entendeu nada desde o básico, incluindo o professor. Acredito que a
>> idéia
>> >
>> > que esses cursos transmitem é que pesquisa em matemática é sempre sobre
>> >
>> > alguma coisa longe e estranha. Quando alguém é perguntado sobre o
>> "básico"
>> >
>> > a resposta pronta é "isso está feito", mesmo quando ninguém sabe onde ou
>> >
>> > como, ou até mesmo quando não está feito... Talvez seja por isso que os
>> >
>> > matemáticos tem pouco apreço pelos fundamentos: eles acreditam que "está
>> >
>> > feito", mesmo sem saber o que significaria "estar feito" nesse caso.
>> >
>> >
>> > Abraço
>> >
>> > Rodrigo
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