Caro Tony,

Aprecio bastante o esmero e a polidez de sua escrita. Ela me parece
irretocável, exceto quando se deixa resvalar pelo desconhecimento de seu
escriba em certos assuntos.

Em uma passagem de sua mensagem voce diz: *Quanto mais abstrato for o
significado de uma expressão, maior a
possibilidade e diversidade de interpretações que essa expressão recebe.*

Seu desconhecimento é digno de perdão, pois acredito nunca ter ouvido falar
nos trabalhos desenvolvidos na área de lógica intensional. Notadamente, os
trabalhos do *enfant terrible* Pavel Tichy (http://til.phil.muni.cz/), Ed.
Zalta, Yiannis Moschavakis ( http://www.math.ucla.edu/~ynm/) e Reinhard
Muskens (http://let.uvt.nl/general/people/rmuskens/) entre outros.

Boa leitura.
Francisco

Em 28 de janeiro de 2013 01:16, Tony Marmo <[email protected]> escreveu:

> Caro Professor,
>
> A mim a primeira leitura e estudo da teoria de conjuntos axiomática pela
> visão dos matemáticos é que se trata muito mais de uma teoria metafísica
> que também pode tratar de questões matemáticas. Eu estava muito mais
> acostumado com a visão da filosofia analítica até então.
>
> Não tenho problemas com essa interpretação, mas os matemáticos não gostam
> que se lhes diga que do modo que estão lidando com fundamentos metafísicos.
> Aliás, não raramente encontro gente que recusa qualquer interpretação para
> os conceitos matemáticos, repetindo: "não, não é isso", mas eles fazem uma
> certa metafísica ainda que não queiram admitir isso.
>
> Aqui cabe duas colocações acerca de linguagem que a maioria dos matemáticos
> desconhecem e explico porque é balda a tentativa de recusar interpretações
> ou querer supercontrolá-las:
>
> [1] Primeiramente, linguagens formais diferem de línguas naturais (conceito
> da linguística gerativa e outras) num aspecto crucial: fórmulas não têm
> intenção comunicativa, expressões de línguas naturais sim. Eu já ouvi gente
> falar na "intenção por detrás da fórmula", mas isso é de certo modo um
> unicórnio: simplesmente não está lá, salvo pela nossa imaginação.
>
> [2] Quanto mais abstrato for o significado de uma expressão, maior a
> possibilidade e diversidade de interpretações que essa expressão recebe. É
> como aquele quadro abstrato em que cada um enxerga o que quiser, conforme
> sente ou percebe as formas.
>
> Ou seja, se você tiver alguma intenção a comunicar, ela não estará nas suas
> fórmulas: você terá de as escrever em parágrafos em Português, Francês ou
> outra língua natural. Pensou que colocou na fórmula, você a perdeu.
>
> Mas, se você quiser, ao contrário disso, fazer um trabalho com noções
> altamente abstratas, quanto mais abstrato for o seu pensamento, mais os
> seus leitores estarão livres para o entender como quiserem ou sentirem. Não
> adianta dizer-lhes depois: não é nada disso, porque você mesmo já abriu
> espaço para tudo isso quando escolheu níveis muito altos de abstração.
>
> Agora, nada disso é grande novidade, por exemplo, para engenheiros: eles
> sempre arrumam interpretações concretas para os conceitos matemáticos, para
> eles a matemática significa o que as suas aplicações em engenharia permitem
> produzir. E eles não estão errados: do prisma deles, esse modo de
> interpretar as coisas é que racional. Afinal de contas, a razão não busca o
> saber inútil.
>
> Em 27 de janeiro de 2013 09:16, Décio Krause <[email protected]
> >escreveu:
>
> > Caros
> > Lembrem que podemos desenvolver ZF sem usar a palavra "conjunto", como um
> > teoria formal. Na verdade, os "conjuntos" não estão lá, nós é que os
> > colocamos depois...
> >
> > Alguém aí quis me dar uma aula...agradeço, mas continuo com a mesma
> > opinião.
> >
> > Julio, seu link cai no MDPI. Baixei o app, mas como acesso seu artigo?
> > Cada vez que clico no link ele cai na mesma coisa, pedindo para baixar o
> > app de novo...
> > D
> >
> > *
> > *
> > *
> > *
> > *------------------------------------------------------*
> > *Décio Krause*
> > *Departamento de Filosofia*
> > *Universidade Federal de Santa Catarina*
> > *88040-900 Florianópolis - SC - Brasil*
> > *http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause*
> > *------------------------------------------------------*
> >
> > Em 27/01/2013, às 08:56, Julio Stern <[email protected]> escreveu:
> >
> > Caros Redistas:
> >
> > Varios dos pontos em discussao referem-se aa construcao de
> > uma Ontologia Mateematica adequada aos nossos propositos.
> > Discuto varios destes ponto na
> > Secco 3,  Mathematical Ontology,  do artigo:
> >
> > Constructive Verification, Empirical Induction,
> > and Falibilist Deduction: A Threefold Contrast.
> >
> > disponivel no link
> >
> > http://www.mdpi.com/2078-2489/2/4/635
> >
> >
> > Varios pontos a discutir:
> >
> > 1) A nocao de Objeto Concreto
> > presupoe uma epistemologia fortemente realista
> > ou um processo ingenuo de reificacao, isto eh,
> > ou os tais Objetos Concretos nos sao dados a priori
> > nO Mundo Real, ou eu ingenuamente acho que sei muito bem
> > quais sao os ditos cujos Objetos Concretos.
> >
> > 2) O Sentido Cotidiano de conjunto pode ate nao ser o
> > mesmo que (um dado) Sentido Matemático, mas isto nao quer
> > dizer que seja possivel fazer (uma) matematica (util) que
> > nao reflita os conceitos de alguma ontologia cientifica.
> >
> > Imre Lakatos discute o assunto en detalhe em um livrinho
> > de leitura deliciosa: Proofs and Refutations: The Logic of
> > Mathematical Discovery (que eu aho que foi traduzido no Brasil).
> >
> > Na verdade, Lakatos esta apenas buscando respostas a uma
> > pergunta fundamental formulada por seu professor, Arpad Szabo:
> >
> > Como (diabos) foi que Matematica se tornou uma ciencia dedutiva?!
> >
> > Abraco a todos,
> > ---Julio Stern
> >
> >
> >
> > ----------------------------------------
> >
> > Date: Sun, 27 Jan 2013 01:15:48 -0200
> >
> > From: [email protected]
> >
> > To: [email protected]; [email protected]
> >
> > Subject: Re: [Logica-l] a resposta do Zerrmelo Fraenkel
> >
> >
> > Muito obrigado, Rodrigo. Permita-me citá-lo, na sua reflexão genial que
> >
> > chega ao ponto que eu queria:
> >
> >
> > "Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
> >
> > entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem conter
> >
> > objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
> >
> > russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
> >
> > objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David
> Lewis,
> >
> > mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
> >
> > seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
> >
> > concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia analítica,
> >
> > diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são conjuntos
> de
> >
> > mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
> >
> > continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
> >
> > cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number
> of
> >
> > objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
> the
> >
> > same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
> >
> > their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
> >
> > concretos podem ter cor ou distribuição espacial."
> >
> >
> > Isto vai ao ponto que disse eu em mais de uma mensagem: [1] a construção
> da
> >
> > matemática admite mais de uma interpretação e [2] lógica e matemática não
> >
> > são a mesma coisa, ainda que tenham muito a ver uma com a outra. Talvez
> nem
> >
> > toda interpretação da construção da matemática coincida com a
> interpretação
> >
> > de um matemático, ou nem toda tenha interesse como diz o João Marcos.
> Mas,
> >
> > as várias interpretações estão aí. E certamente os lógicos não enxergam
> as
> >
> > noções matemáticas exatamente como os matemáticos, não só porque as
> >
> > interpretam de modo diferente, mas porque têm interesses diferentes. E
> você
> >
> > primorosamente traz à tona a observação de que a filosofia analítica tem
> >
> > uma visão diferente do que sejam conjuntos, que é a visão que interessa
> >
> > mais aos lógicos. Ora, quando eu digo que a lógica tem e pressupõe um
> >
> > ambiente cultural-filosófico próprio, que remonta a uma tradição pelo
> menos
> >
> > desde Aristóteles, a filosofia analítica faz parte justamente disso.
> >
> >
> > Fico uma vez mais agradecido pelas suas contribuições e considero-me mais
> >
> > que contemplado pela última.
> >
> >
> > Em 26 de janeiro de 2013 23:39, Rodrigo Freire <[email protected]
> > >escreveu:
> >
> >
> > O João Marcos está correto aqui:
> >
> >
> > O "sentido cotidiano" de *conjunto* não é o "sentido matemático", e o
> >
> > primeiro tem tanta relevância para o segundo quanto o sentido
> >
> > cotidiano de *continuidade* tem relevância para o sentido matemático
> >
> > da mesma noção. Não saber separar os dois é ser incapaz de fazer
> >
> > qualquer tipo de Análise Matemática minimamente interessante.
> >
> >
> >
> >
> > Conjuntos (permitindo objetos concretos na relação ancestral de
> >
> > pertencimento ou não) são objetos organizados em uma hierarquia de um
> modo
> >
> > específico que *não* é compatível com o uso na linguagem corrente da
> >
> > expressão "coleção". Conjuntos não são coleções. Vou reproduzir aqui dois
> >
> > argumentos que acredito são suficientes para ver isso:
> >
> >
> > A1- Considere a coleção de bibliotecas da universidade federal fictícia
> do
> >
> > mato grosso do norte (UFFMGN). Uma biblioteca é uma coleção de livros,
> uma
> >
> > coleção de bibliotecas é uma coleção de coleções de livros. Suponha que o
> >
> > professor de lógica da UFFMGN pergunta para o bibliotecário da mesma
> >
> > universidade se a coleção de bibliotecas contém o livro de lógica de
> >
> > Hilbert-Ackermann. É coerente com o uso cotidiano da palavra coleção
> ouvir
> >
> > a seguinte resposta: "Sim, as duas edições do Hilbert-Ackermann estão na
> >
> > coleção de bibliotecas da UFFMGN."
> >
> > O problema é que o Hilbert-Ackermann "está na coleção", segundo o uso
> >
> > cotidiano de coleção, mas não pertence à coleção porque o
> Hilbert-Ackermann
> >
> > não é uma biblioteca.
> >
> > O argumento não tem nada a ver com bibliotecas e pode trivialmente ser
> >
> > reformulado em termos de outras coleções de coleções. O uso cotidiano de
> >
> > "coleção" não respeita a organização hierárquica dos conjuntos.
> >
> >
> >
> > A2- Se conjuntos são coleções no sentido cotidiano, então o conjunto
> vazio
> >
> > é uma coleção. Isso faz de mim um colecionador de armas de fogo. Contudo,
> >
> > como não tenho nenhuma arma de fogo eu não sou um colecionador de armas
> de
> >
> > fogo segundo o uso cotidiano do termo: eu não preciso fazer nenhum
> registro
> >
> > na polícia federal ou nas forças armadas, não faz sentido ir ao encontro
> >
> > brasileiro de colecionadores de armas, se tal coisa existir, etc.
> >
> >
> >
> > Olhei rapidamente o arquivo de materiais online que o Mario colocou aqui.
> >
> > Comparando a oferta de materiais de Lógica com a de outra área em que
> >
> > também atuo (Geometria), fica claro que a situação da Lógica é bem
> >
> > precária. Contudo, tenho dúvidas se vale a pena investir em construir uma
> >
> > literatura em português para o assunto.
> >
> >
> > Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
> >
> > entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem conter
> >
> > objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
> >
> > russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
> >
> > objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David
> Lewis,
> >
> > mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
> >
> > seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
> >
> > concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia analítica,
> >
> > diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são conjuntos
> de
> >
> > mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
> >
> > continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
> >
> > cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number
> of
> >
> > objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
> the
> >
> > same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
> >
> > their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
> >
> > concretos podem ter cor ou distribuição espacial.
> >
> >
> >
> > É verdade que mesmo o básico em Lógica (e em todas as outras áreas) não é
> >
> > tema sem controvérsia. Livros adoram começar com alguma afirmação
> >
> > categórica sobre o que é a lógica: ciência do raciocínio, estudo das leis
> >
> > do pensamento, estudo de relações formais entre portadores de valor de
> >
> > verdade, estudo da argumentação válida, etc. Seria muito melhor começar
> >
> > discutindo essas e outras possibilidades, bem como as várias traduções
> >
> > possíveis da palavra logos. Mas para isso precisa ter competência em
> >
> > análise conceitual. Os estudantes também parecem apreciar essas
> afirmações
> >
> > categóricas, mesmo que delas não entendam nada. Eles parecem precisar
> dessa
> >
> > "paz de espírito" para seguir em frente, já que essas discussões iniciais
> >
> > "não vão render resultados".Esse espírito nada investigativo parece ser
> >
> > dominante em todas as áreas. Ninguém começa um livro de matemática
> >
> > arriscando dizer o que é a matemática. Não sei quando foi a última vez
> que
> >
> > vi algum livro de geometria tentando começar com algo do tipo:
> "geometria é
> >
> > o estudo de formas espaciais". Não é que essas coisas tenham sido
> >
> > resolvidas, ao contrário. As pessoas passaram a ignorá-las, talvez por
> >
> > acreditarem que isso não renda papers que vão valorizar seus
> currículos...
> >
> >
> > Podemos nos perguntar pelos motivos dessa postura anti-investigativa.
> Vejo
> >
> > que, atualmente, os cursos de pós-graduação em matemática são feitos em
> um
> >
> > ritmo muito acelerado, porque tanto o professor quanto os alunos querem
> >
> > chegar rápido em algum resultado lá na frente. Não importa se ninguém
> >
> > entendeu nada desde o básico, incluindo o professor. Acredito que a idéia
> >
> > que esses cursos transmitem é que pesquisa em matemática é sempre sobre
> >
> > alguma coisa longe e estranha. Quando alguém é perguntado sobre o
> "básico"
> >
> > a resposta pronta é "isso está feito", mesmo quando ninguém sabe onde ou
> >
> > como, ou até mesmo quando não está feito... Talvez seja por isso que os
> >
> > matemáticos tem pouco apreço pelos fundamentos: eles acreditam que "está
> >
> > feito", mesmo sem saber o que significaria "estar feito" nesse caso.
> >
> >
> > Abraço
> >
> > Rodrigo
> >
> >
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