Olá João e Daniel

Alguns breves comentários que talvez ajudem a esclarecer.

Sobre a distinção entre "demonstrabilidade" e "verdade". Minhas
considerações serão restritas a enunciados matemáticos.

-Entendo que na matemática há dois usos da palavra "verdade" que devem ser
distinguidos.

1) Primeiro, é comum, em matemática, dizer de alguns enunciados P que "é
verdade que P". Exemplo: "é verdade que todo conjunto de números reais
limitado superiormente possui um supremo."

2) Segundo, podemos dizer de uma sentença A que formaliza um enunciado P em
uma linguagem formal L e de uma estrutura E para L que "A é verdade em E".

Sobre 1): "é verdade que P" não é um enunciado matemático, é a afirmação de
P. Esse primeiro uso da palavra "verdade" não desempenha um papel matemático
porque "é verdade que P" não é uma sentença da matemática. Afirmar "é
verdade que P" é o mesmo que simplesmente afirmar P.

Sobre 2): "A é verdade em E" é um enunciado matemático, e um enunciado
diferente de P. Por exemplo, para L uma linguagem de primeira ordem e E uma
estrutura de primeira ordem, "A é verdade em E" expressa a definição de
Tarski, uma definição matemática, por indução no comprimento de A, por
exemplo. Mais especificamente, "A é verdade em E" é uma sentença da teoria
de conjuntos diferente de A.


-Também entendo o uso de "demonstrável" em dois sentidos:

1) "P é demonstrável" pode ser entendido no sentido que P é demonstrado a
partir de alguns princípios que poderão ser aceitos como axiomas.

2) "P é demonstrável" pode ser usado também para expressar que uma sentença
A que formaliza o enunciado P no sistema formal F é teorema de F.


Para um enunciado matemático P, entendo que há apenas um modo de justificar
a afirmação "é verdade que P" (no primeiro sentido): apresentando uma
demonstração de P a partir de princípios aceitos como axiomas. Ou seja, a
única garantia para a verdade de um enunciado matemático P é a demonstração
de P a partir de axiomas. Isso não quer dizer que se P é independente então
P não é nem verdadeiro nem falso. Se P é independente então não há garantia
para a verdade de P segundo os axiomas atualmente aceitos, mas isso não quer
dizer que é impossível dar qualquer garantia para a verdade de P. P pode ser
demonstrável no sentido 1). Tampouco há aqui qualquer tese sobre a
subjetividade ou objetividade da verdade de P.


Falando de enunciados matemáticos e de sistemas para a matemática, então é
mesmo uma consequência dos teoremas da incompletude que verdade e
demonstrabilidade não são coextensivas:
-Se os axiomas de um sistema para a matemática são inconsistentes então
demonstrabilidade é trivial. Senão, a consistência do sistema não é
demonstrável e é verdadeira por hipótese. Portanto mesmo permitindo o
sentido 1) para "P é demonstrável", que é mais generoso, demonstrabilidade e
verdade não são coextensivas. Mesmo acrescentando novos axiomas, a
consistência do novo sistema sempre fornecerá a sentença verdadeira e
indemonstrável, a menos que o novo sistema seja inconsistente.


Os teoremas de correção e completude é a equivalência, no contexto lógica de
primeira ordem, entre A é teorema de F e A é *válida em todo modelo de F*.
Não vejo aqui uma correspondência entre demonstrabilidade e verdade.


Concluindo: nenhum dos dois usos da palavra "verdade" que expliquei acima
podem ser identificados a qualquer um dos sentidos de demonstrável.

O primeiro uso de "verdade" está relacionado com "demonstrável" no sentido
estamos justificados em afirmar P apenas se temos uma demonstração de P, mas
isso não identifica "é verdade que P" com nenhum dos dois sentidos de "P é
demonstrável".

O segundo uso de "verdade" também está relacionado com "demonstrável" no
sentido 2) pelos teoremas de correção e completude. No entanto, esses
teoremas enunciam a equivalência entre demonstrável e válido, não entre
demonstrável e verdadeiro. Portanto, também não vejo aqui uma identificação.

Abraço
Rodrigo
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