Caro Rodrigo.

Os problemas começam quando se toma o Teorema de Goedel como sendo o que ele
não é.  Segundo o seu texto:

  "Gödel pôde demonstrar que nesse sistema ou algum outro equivalente é
possível construir uma frase, G, que (1) é demonstrável a partir das
premissas e axiomas do sistema, mas que (2) afirma de si mesma que é
indemonstrável. "

Lamento, mas o que o Teorema diz é que, se uma teoria T for uma extensão da
Aritmética de Peano, então existe uma fórmula A:

  a) SE A TEORIA T FOR CONSISTENTE, A não é demonstrável em T; e
  b) SE A TEORIA T FOR omega-CONSISTENTE, a negação de A não é demonstrável
em T.

Essas pré-condições de consistência são absolutamente fundamentais tanto
para a demonstração quanto para a compreensão do teorema. (Rosser depois
mostrou que a omega-consistência pode ser reduzida a apenas consistência
usando uma outra fórmula).  A sua análise, e muitas outras, omitem este
facto.

Aliás, o teorema é chamado de "incompletude", pois uma teoria é incompleta
se existe uma fórmula tal que nem ela nem sua negação podem ser
demonstradas.  O Teorema de Gödel diz q a aritmética de Peano é incompleta e
não pode ser completada.

Em nenhum lugar está dito que a fórmula A responsável pela incompletude é
"demonstrável a partir das premissas e axiomas do sistema".  Aliás, se ela
assim fosse, ou o teorema ou a aritmética seriam inconsistentes.  Por sinal,
a auto referência da fórmula A não é direta, mas se dá através de um sistema
de codificação de fórmulas e provas em elementos da aritmética (de peano).
Esta codificação não é única, diversas codificações distintas servem de base
para o teorema.

Espero ter ajudado.

[]s

Marcelo




2009/8/3 Rodrigo Oliveira <[email protected]>

>
> Olá a todos,
>
> Estou lendo o livro Pragmática da Comunicação Humana, do Paul Watzlawick.
> No fim do livro ele faz uma relação entre o teorema de Gödel e o que ele
> chama de o paradoxo fundamental da existência humana, sendo o Tractatus de
> Wittgenstein uma maneira de expressar esse paradoxo. Reproduzo aqui o texto,
> que é um pouquinho longo para um e-mail. Gostaria de ouvir comentários obre
> ele, dado que qui se encontram especialistas nos temas abordados. Penso em
> coisas como: o modo como ele apresenta o teorema é adequado? A relação que
> ele apresenta faz sentido? Se a estrutura é semelhante mesmo, como
> Wittgenstein aparentemente não entendeu o teorema de Gödel? O teorema de
> Gödel envolve a auto-referência, Wittgenstein negava tal coisa... Que pensam
> disso?
>
> Abraços
>
> Rodrigo
>
>
> Segue o texto:
>
> As hierarquias como aquelas com que estamos agora ocupados foram
> detalhadamente exploradas num ramo da matemática moderna, com o qual nosso
> estudo tem grande afinidade, exceto o fato de que a matemática é de uma
> coerência e rigor incomparavelmente maiores do que nós podemos ter sequer
> esperança de alcançar. O Ramo em questão é a teoria da prova - ou
> metamatemática. Tal como esta última denominação claramente implica, essa
> área da matemática trata de si mesma, isto é, das leis inerentes à
> matemática e o problema de saber se a matemática é ou não coerente.
> Portanto, não surpreenderá que os matemáticos tenham encontrado e
> investigado, essencialmente, as mesmas consequências paradoxais da
> auto-reflexividade, muito antes de que analistas da comunicação humana
> estivessem cônscios sequer de sua existência. De fato, o trabalho nessa área
> remonta a Schöder (1895), Löwenheim (1915) e, especialmente, a Hilbert
> (1918). A teoria da prova, ou metamatemática, era então a preocupação
> altamente abstrata de um brilhante, embora reduzido, grupo de matemáticos,
> situado, por assim dizer, fora da corrente principal da atividade
> matemática. Segundo parece, dois acontecimentos serviram, subsequentemente,
> para que a teoria da prova ocupasse o foco das atenções. Um deles foi a
> publicação, em 1931, do histórico artigo de Gödel sobre as proposições
> formalmente indetermináveis, um trabalho que os professores da Universidade
> de Harvard descreveram como o mais importante progresso realizado num quarto
> de século no campo da lógica matemática. O Outro acontecimento foi o
> aparecimento quase explosivo do computador, depois da II Guerra Mundial.
> Essas máquinas foram rapidamente desenvolvidas a partir de autômatos
> rigidamente programados, até se converterem em organismos artificiais
> imensamente versáteis que começaram a propor problemas fundamentais sobre a
> teoria da prova, logo que a sua complexidade estrutural atingiu um ponto em
> que foi possível fazê-los decidir por si mesmos qual era, entre vários, o
> procedimento otimal de computação. Por outras palavras, surgiu a
> possibilidade de projetar computadores que não só executavam um programa
> mas, ao mesmo tempo, eram capazes de efetuar mudanças em seus programas.
>
> Na teoria da prova, a expressão *procedimento de decisão, *refere-se à
> questão de apurar se existe ou não um procedimento do tipo que se acaba de
> descrever. Portanto, um problema de decisão tem uma solução positiva de
> puder ser encontrado um procedimento de decisão para resolvê-lo, enquanto
> que uma solução negativa consiste em provar que tal procedimento não existe.
> Nesta conformidade, os problemas de decisão são referidos ou como
> computáveis ou como insolúveis.
>
> Entretanto, existe uma terceira possibilidade. As soluções definidas
> (positivas ou negativas) de um problema de decisão só são possíveis quando o
> problema em questão se encontra *dentro do domíni*o (a área de
> aplicabilidade) desse específico procedimento de decisão. Se esse
> procedimento de decisão for aplicado a um problema *fora* do seu domínio,
> a computação prosseguirá indefinidamente, sem provar jamais que uma solução
> (positiva ou negativa) está prestes a ser alcançada. É neste ponto que
> voltamos a encontrar o conceito de *indeterminabilidade.*
>
> Este conceito é o tema central do acima citado artigo de Gödel sobre as
> proposições formalmente indetermináveis. O sistema formalizado que esse
> autor escolheu para o seu teorema foi os *Principia Mathematica*, a
> monumental obra de Whitehead e Russel, explorando os alicerces da
> matemática. Gödel pôde demonstrar que nesse sistema ou algum outro
> equivalente é possível construir uma frase, G, que (1) é demonstrável a
> partir das premissas e axiomas do sistema, mas que (2) afirma de si mesma
> que é indemonstrável. Isto significa que, se G é demonstrável no sistema, a
> sua indemonstrabilidade (que é o que di de si mesmo) também seria
> demonstrável. Mas se tanto a demonstrabilidade como a indemonstrabilidade
> podem ser derivadas dos axiomas do sistema e os próprios axiomas são
> coerentes (o que faz parte da prova de Gödel, então G é *indemonstrável em
> termos do sistema*, tal como a previsão paradoxal apresentada em s. 6.441
> é indeterminável em termos do seu "sistema", que é a informação contida no
> anúncio do diretor da escola e o contexto em que é feito. A prova de Gödel
> reveste-se de consequências que vão muito além da lógica matemática; de
> fato, demonstra de uma vez para sempre que qualquer sistema formal
> (matemático, simbólico etc.) é necessariamente incompleto no sentido acima
> estabelecido e que, além disso, a coerência de um tal sistema só pode ser
> demonstrada recorrendo a métodos de prova que são mais genéricos do que
> aqueles que o próprio sistema pode gerar.
>
> Detivemo-nos mais demoradamente no trabalho de Gödel porque vemos nele a
> analogia matemática do que chamaríamos o paradoxo fundamental da existência
> humana. O homem é, em última instância, sujeito e objeto de sua busca.
> Conquanto seja sobre se a mente pode ser considerada algo semelhante a um
> sistemaformalizado, tal como foi definido no parágrafo precedente, a bsca
> humana de uma compreensão do significado de sua existência *constitui uma
> tentativa de formalização*. Somente nesse sentido entendemos que certos
> resultados da teoria da prova especialmente nas áreas da auto-reflexividade
> e da indeterminabilidade) são pertinente. Isto não é, de maneira alguma, uma
> descoberta nossa; de fato, dez anos antes de Gödel apresentar o seu
> brilhante teorema, outras das grandes inteligências do nosso século já
> formulara esse paradoxo em termos filosóficos; referimo-nos a Ludwig
> Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-Philosophicus. Provavelmente, em
> nenhuma outra obra foi esse paradoxo existencial definido de maneira mais
> lúcida nem ao *místico* foi conferido uma posição mais digna como o passo
> final que transcende esse paradoxo.
>
> Wittgenstein mostra-nos que só poderíamos saber algo sobre o mundo, em sua
> totalidade, se pudéssemos sair fora dele; mas se isso fosse possível, este
> mundo já não seria *todo* o mundo. Contudo, a nossa lógica nada conhece
> fora dele:
>
> "A lógica enche o mundo: os limites do mundo são também seus imites.
> Portanto, não podemos dizer em lógica: Isto e isto há no mundo, aquilo não
> há.
> Pois isso, evidentemente, pressuporia que excluímos certas possibilidades e
> tal não pode ocorrer, dado que, de outro modo, a lógica tem que sair dos
> limites do mundo; que dizer, se pudéssemos considerar estes limites também
> do outro lado.
> O que não podemos pensar, não podemos pensar; portanto não podemos dizer o
> que não podemos pensar."
>
> O mundo, assim, é finito e, ao mesmo tempo, ilimitado; ilimitado,
> precisamente, porque nada existe fora que, junto ao de dentro, possa
> constituir uma fronteira. Mas, assim sendo, deduz-se que "O mundo e a vida
> são uma só coisa. Eu sou o meu mundo". Logo, sujeito e mundo já não são
> entidades cuja função relacional é, de algum modo, governada pelo verbo
> auxiliar *ter* (que um *tem* o outro, contém ou lhe pertence) mas,
> outrossim, pelo *ser* existencial: "O sujeito não *pertence* ao mundo, *é* um
> limite do mundo".
>
> Dentro desse limite, é possível formular e responder a perguntas
> significativas: "Se é víavel formular uma pergunta, então também *se pode* 
> responder-lhe".
> Mas "a solução do enigma da vida no espaço e no tempo está *fora* do
> espaço e do tempo". Pois, como já deve estar mais do que esclarecido, nada
> *dentro* de um quadro de referência pode enunciar ou mesmo *perguntar *coisa
> alguma *sobre* esse quadro de referência. Portanto, a solução não consiste
> em encontrar uma resposta para o enigma da existência mas em compreender que
> esse enigma não existe. Esta é a essência das belas frases finais do
> Tractatus, com seu sabor reminiscente do Budismo Zen:
>
> "Para uma resposta que não pode ser expressa, tampouco a pergunta pode ser
> expressa. O *enigma* não existe. (...)
> Sentimos que, mesmo se respondêssemos a *todas as possíveis* perguntas
> científicas, mesmo assim os problemas da vida continuariam intocados. É
> claro, não restará então pergunta alguma e esta é precisamente a resposta.
> A solução do problema da vida vislumbra-se quando esse problema se dissipa.
> (Não é essa, porventura, a razão pela qual os homens a quem, após longas
> dúvidas, o sentido da vida se lhes torna claro, não podem dizer em que
> consiste esse sentido?)
> Existe, sem dúvida, o inexpressável. Este *mostra-se* a si mesmo, é o
> místico...
> Do que não podemos falar, devemos guardar silêncio."
>
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Marcelo Finger
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