O que é realmente importante é saber que justificação há para acreditar ou não acreditar em tais coisas.
E ainda mais importante é não fechar a possibilidade da discussão inventando métodos especiais igualmente válidos, mas que 1) são insusceptíveis de ser discutidos; e 2) implicam que os aceitemos previamente antes de os discutirmos, o que torna a discussão uma farsa, e 3) implicam uma epistemologia de excepção: invocam metodologias de descoberta das coisas inerentemente diferentes das maneiras banais como descobrimos as coisas banais da vida. Qualquer epistemologia de excepção é sempre uma farsa. Se não podemos justificar a crença de que há deus da mesma maneira que podemos justificar a crença de que há leite na geladeira ou da mesma maneira que podemos justificar a crença de que hoje é segunda-feira, é porque não podemos realmente justificar a crença de que há deus e estamos apenas a inventar uma patranha para fingir que o podemos fazer. Sinal disto é o seguinte: quem despreza os métodos banais com os quais sabemos que a água é H2O, é o primeiro a aceitar esses mesmos métodos quando estes parecem apontar na direcção das suas crenças preferidas. O que mostra que só se despreza tais métodos quando sabemos, no nosso mais profundo íntimo, que tais métodos eliminam as possibilidades maravilhosas em que gostamos de acreditar porque são confortáveis espiritualmente. Quem põe o conforto do seu mesquinho espírito à frente da procura honesta da verdade não pode ser um bom investigador e na verdade prostitui os métodos abertos e críticos que os investigadores seguem há milénios, contra todos os obscurantismos que procuram fazer-nos crer sem qualquer razão para tal que é possível conhecer as coisas sem usar tais métodos. Um abraço, Desidério From: Francisco Antonio Doria [mailto:[EMAIL PROTECTED] Sent: segunda-feira, 15 de Setembro de 2008 1:15 To: Desidério Murcho Cc: Logica-L Subject: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica Vamos fazer uma enquête aqui? quem acredita que nas tripas do porco sacrificado se pode ler o futuro/ quem acha que Hermes Trimegisto tem as verdades inefáveis do Antigo Egito? fa 2008/9/15 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]> A ciência, seja ocidental ou não (e admitindo que tal coisa faz realmente sentido, coisa que não faz), não merece qualquer respeito. Pelo contrário, só há ciência, quando não há respeito. Há ciência quando há crítica aberta, discussão desassombrada e quando não se aceita a ideia evidentemente falsa de que algumas pessoas têm um acesso privilegiado à verdade e que por isso merecem um respeitoso e reverente silêncio crítico. Fazer parar o pensamento é o que fazem as tradições sapienciais, as religiões, as atitudes que gostam de se apresentar como epistemicamente tolerantes, mas que são de facto epistemicamente totalitárias. Tudo nestas práticas foi cuidadosamente concebido para fazer parar a crítica, o pensamento, a pergunta incómoda, a interrogação desassombrada. Isto consegue-se relativizando tudo menos o que se quer introduzir como Verdade insusceptível de ser posta em causa. Põe-se em causa que dois mais dois sejam quatro, mas não que uma cantilena cantada à beira de um rio possa ajudar a purificar a água, ou que nas tripas de um porco se encontra, se olharmos bem, a chave da compreensão do futuro. Não é talvez fácil compreender o que é a ciência precisamente porque infelizmente a maior parte das universidades, sobretudo as menos boas, transmitem a ciência aos estudantes como quem recita salmos na missa sem perceber bem o que está a dizer. Mas nunca devemos confundir os maus ensinos da ciência com o que permitiu e permite aos cientistas uma compreensão muitíssimo mais profunda, rigorosa e precisa do que alguma vez foi possível em qualquer tradição sapiencial. Acresce que acertar na verdade por acaso não é relevante para se poder dizer que uma dada metodologia funciona. A agricultura empírica teve de acertar mais ou menos por acaso, pois de contrário os seres humanos ter-se-iam extinguido. Mas acertar por acaso é muito diferente de saber justificar adequadamente o que acerta. E mais diferente ainda é a atitude de estar sempre aberto a refutar as justificações que pensávamos que funcionavam. Esta abertura só é possível quando se recusa a ideia de que há pessoas, textos ou tradições que têm um acesso privilegiado à verdade. Não há tal coisa. Somos todos falíveis e cognitivamente mais ou menos iguais, e tudo o que podemos fazer é avaliar criticamente todas as ideias, com cuidado e imparcialidade, sem dogmatismos e sem sonhar alto. Na verdade, quanto mais uma ideia é agradável emocionalmente, religiosamente, espiritualmente ou seja como for, mais devemos precavermo-nos contra a ideia de que estamos a sonhar alto, encontrando nas coisas o que antes lá pusemos porque queríamos que lá estivesse só porque nos faz felizes. Procurar a verdade das coisas é um acto de pressupõe uma superação do desejo infantil de fazer a realidade ser exactamente o que gostaríamos que fosse. Um abraço, Desidério From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Arthur Buchsbaum Sent: domingo, 14 de Setembro de 2008 22:19 To: 'Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA' Subject: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica Ciência, essencialmente, é conhecimento sistematizado e organizado, em seu mais elevado sentido. Nesta acepção, práticas científicas não são exclusivas da Europa. Existem e existiram formas científicas ao redor do mundo, como por exemplo: Egito Antigo, Maias, Incas, Índia, Suméria. Outras formas de Ciência não a praticam exatamente da mesma forma que a Europa (e filhos) dos últimos séculos, mas, nem por isso, deixam de ser Ciência, até muito pelo contrário. Os Druidas, por exemplo, desenvolveram formas de canalização de energia para a agricultura e pecuária, cujo manejo é bem mais natural e menos agressivo e tóxico que as formas modernas. Isto também é Ciência, pois parte de um conhecimento e leva a aplicações bem relevantes, embora não seja Ciência no sentido europeu estrito, mas merece no mínimo tanto respeito quanto a Ciência moderna. A acupuntura, originária da China, também possui um extenso corpo sistematizado de conhecimentos e uma ampla gama de aplicações na saúde. É, portanto, Ciência, e é muito mais eficaz, em vários sentidos, que a Medicina convencional. O Hermetismo, vindo do Egito Antigo, é um corpo de conhecimentos que deu diversos frutos no Ocidente, como, por exemplo, as práticas agrícolas e pecuárias dos Druídas. Pitágoras estudou, segundo muitos, nos templos dos Mistérios Egípcios, e Platâo foi um de seus frutos. É, portanto, Ciência, no mais elevado grau. É uma ciência viva, com a sua plêiade de estudiosos e praticantes, mas ao largo do mundo acadêmico tradicional. Um abraço, Arthur Buchsbaum De: Francisco Antonio Doria [mailto:[EMAIL PROTECTED] Enviada em: domingo, 14 de setembro de 2008 21:27 Para: Arthur Buchsbaum Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA Assunto: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica Arthur, Ciência ***é*** européia. Formas de conhecimento como acupunctura, sufismo, doutrinas ditas herméticas (na verdade coisa bem recente, tipo os rosacruzes) podem até ter seu valor, mas nada que tenha o valor e a eficácia da ciência e tecnologia modernas. Ontem estava conversando, câmera ligada, via Skype, com meu filho mais velho e minha nora; eles moram nos EUA. Qual a diferença entre isso e uma bola de cristal de conto de fadas? Ciência e tecnologia realizam muito do projeto das artes mágicas esotéricas, ou dos contos de fadas... fa 2008/9/14 Arthur Buchsbaum <[EMAIL PROTECTED]> Tampouco considero que uma decisão tão importante pode ser tomada exclusivamente por cientistas formados pelas universidades tradicionais, como parece que vem sendo feito, até porque tais universidades pecam pela incompletude e fragmentação. (http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e _Incompleta.pdf <http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada _e_Incompleta.pdf> ) A atual fauna e flora vem de uma evolução de pelo menos centenas de milhões de anos, e ainda não são suficientemente conhecidas as conseqüências da introdução na Natureza de novos genótipos, não acho que toda a população deveria servir de cobaia a experimentos das grandes empresas que visam sobretudo o lucro. O conhecimento vindo da ciência de origem européia ainda é muito incompleto e fragmentado para que o mesmo possa servir de suporte exclusivo à tomada de decisões tão importantes, que podem envolver uma alteração completa da fauna e flora. É preciso consultar também peritos provenientes de outras formas de ciência não oriundas da Europa, e muitas outras coisas mais. Entre tais formas, exemplifico: as doutrinas herméticas do Antigo Egito, as doutrinas chinesas, o sufismo, etc. Um abraço, Arthur Buchsbaum De: Francisco Antonio Doria [mailto:[EMAIL PROTECTED] Enviada em: domingo, 14 de setembro de 2008 08:14 Para: Arthur Buchsbaum Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA Assunto: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica Um ministro ou ministra de área cujos fundamentos - a ecologia - vêm da ciência e que tem que decidir sobre soja transgênica etc, não pode ser criacionista. 2008/9/14 Arthur Buchsbaum <[EMAIL PROTECTED]> O que está sendo apontado abaixo pelo colega João Marcos não deveria ser confundido com Religião, mas sim com formas ideológicas disfarçadas de religião. Religião vem do latim "religare", que quer dizer religar com o Todo. Uma experiência religiosa plena é um estado de consciência de união com o Todo, um estado de inefável felicidade e paz, de bem-aventurança, de amor. Levar todos a tais vivências foi a verdadeira intenção de grandes avatares tais como Jesus, Buda, Muhammad, Bahá'u'lláh e outros. Os mesmos não têm culpa se das formas religiosas originais apareceram eventualmente diversas ideologias fanáticas. O Rio Tietê também nasce puro e límpido na Serra do Mar, mas, quando passa por São Paulo, o mesmo passa a ser muito sujo. Isto não é culpa da nascente deste rio, mas sim dos poluidores que vão descarregando neste rio os mais diversos dejetos. Assim também acontece, em geral, com as religiões, ao longo de sua história. Isto não tem nada a ver com ideologias dos mais diversos matizes ou com dogmas. São tais ideologias dogmáticas disfarçadas de "religião" que confundem muita gente, e denigrem a essência do significado de Religião. No entanto, eu simpatizo com a ex-ministra Marina Silva, pelo seu trabalho enquanto ministra, e agora enquanto senadora. Ela tem todo o direito de sustentar as suas crenças, assim como todos os demais. Ela não deveria ser discriminada por questões de crença, mas sim deve ser avaliada pelos seus atos, os quais tem revelado boas intenções e uma mulher de boa índole. Um abraço, Arthur Buchsbaum _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
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