Eis uma nova forma de cognição: eu digo que os triângulos têm quatro lados porque tenho uma maneira especial de pensar em triângulos ficando sem pensar. E como tenho um acesso privilegiado à verdade, toda a gente tem de aceitar isto com reverência.
E eis um novo método para andar de bicicleta: deitamo-nos na rede e fechamos os olhos. Não precisamos nem de bicicleta nem de magoar o traseiro no assento. É só abrir o espírito a novas formas, igualmente válidas, de andar de bicicleta. Tudo isto é absurdo. Não há formas de falar em silêncio nem de pensar sem pensar nem de andar de bicicleta sem andar de bicicleta. Tudo o que há é pensar ou não. E, claro, cada qual é livre de não pensar. Mas não vale a pena mentir dizendo que isso é uma forma igualmente válida de pensar. Seja o que for que alguém pensar, é irrelevante como o pensa, em silêncio ou não; o que conta é que tem de justificar as suas ideias. E se tudo o que faz para as justificar é dizer que se eu me sentar, aceitar e parar de pensar vou também ver que isso é verdade, está a fazer batota pela simples razão de que é óbvio que se eu aceitar o que essa pessoa está a dizer vou aceitar o que ela está a dizer. O que quero saber é como se justifica o que ela diz, e não quero saber de como ela chegou ao que descobriu. Isso é irrelevante. Até pode ter sido um deus que lhe disse. Eu vou pedir-lhe o mesmo: provas e argumentação. E vou fazer o mesmo: tentar refutar o que ela está a dizer. Porque tentar refutar ideias é a melhor maneira de ver se estas são plausíveis. Ninguém tem um acesso privilegiado à verdade. Há pessoas mais informadas e mais inteligentes do que outras, mas isso não é um acesso privilegiado à verdade, tal como ter melhores pulmões para poder correr mais não é ter um acesso privilegiado ao oxigénio. A ideia de que há gente com acesso privilegiado à verdade é uma mentira comum que persiste porque todos temos memória de uns seres que andavam à nossa volta e que pareciam ter tal acesso, quando éramos crianças: os nossos pais. Eles guiavam-nos, protegiam-nos, compreendiam e sabiam as coisas, e ensinavam-nos e tinham capacidades cognitivas incomparáveis às nossas. Quando descobrimos que afinal os nossos amados pais eram apenas humanos como nós, transferimos isso para outros seres distantes, baseando o pensamento em provas como diz-se que Einstein qualquer coisa. Pois diz-se. E diz-se também que quem diz isso está a repetir o que outra pessoa disse sem ninguém saber ao certo qual é a fonte de tal dizer-se. E podemos chamar a esta original forma de argumentar uma maneira mais rica e mais aberta de argumentar, mas não passa à mesma de um péssimo argumento, baseado em boatos e wishful thinking. Um abraço, Desidério From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Arthur Buchsbaum Sent: segunda-feira, 15 de Setembro de 2008 2:10 To: 'Logica-L' Subject: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica Desidério: A ciência, seja ocidental ou não (e admitindo que tal coisa faz realmente sentido, coisa que não faz), não merece qualquer respeito. Pelo contrário, só há ciência, quando não há respeito. Há ciência quando há crítica aberta, discussão desassombrada e... Arthur: Até aqui estou basicamente de acordo. Desidério: ...quando não se aceita a ideia evidentemente falsa de que algumas pessoas têm um acesso privilegiado à verdade e que por isso merecem um respeitoso e reverente silêncio crítico. Arthur: Acredito que algumas pessoas são dotadas de uma sabedoria e/ou inteligência excepcionais. Um exemplo bem conhecido é o matemático hindu Ramanujan ( <http://en.wikipedia.org/wiki/Srinivasa_Ramanujan> http://en.wikipedia.org/wiki/Srinivasa_Ramanujan), quanto a uma inteligência ímpar para a matemática. Exemplos recentes de pessoas dotadas de uma sabedoria e grau espiritual incomum: Ramana Maharshi ( <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramana_Maharshi> http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramana_Maharshi), Krishnamurti ( <http://pt.wikipedia.org/wiki/Krishnamurti> http://pt.wikipedia.org/wiki/Krishnamurti), Bahá'u'lláh ( <http://pt.wikipedia.org/wiki/Bahá'u'lláh> http://pt.wikipedia.org/wiki/Bahá'u'lláh). Existem pois pessoas super-dotadas, de uma sabedoria ímpar, que merecem ser escutadas, pois muito poderíamos aprender com as mesmas. Isto não implica em aceitar nada sem um exame de foro íntimo, nem tampouco na adoção de quaisquer dogmas. Desidério: Fazer parar o pensamento é o que fazem as tradições sapienciais, as religiões, as atitudes que gostam de se apresentar como epistemicamente tolerantes, mas que são de facto epistemicamente totalitárias. Tudo nestas práticas foi cuidadosamente concebido para fazer parar a crítica, o pensamento, a pergunta incómoda, a interrogação desassombrada. Isto consegue-se relativizando tudo menos o que se quer introduzir como Verdade insusceptível de ser posta em causa. Põe-se em causa que dois mais dois sejam quatro, mas não que uma cantilena cantada à beira de um rio possa ajudar a purificar a água, ou que nas tripas de um porco se encontra, se olharmos bem, a chave da compreensão do futuro. Arthur: O pensamento e o raciocínio são apenas uma das ferramentas cognitivas, entre outras. Existem outras formas de cognição que podem ser ainda muito mais poderosas, tais como a intuição. Dizem que pela intuição Einstein apreendeu de forma quase instantânea as idéias da Relatividade. Ou que Kekulé ( <http://pt.wikipedia.org/wiki/Kekulé> http://pt.wikipedia.org/wiki/Kekulé) apreendeu fórmulas da química orgânica. Para que algo sublime como a intuição se manifeste é preciso um estado de silêncio interno, o que implica em parar o pensamento. Isto não tem nada a ver com dogmas ou totalitarismo, é algo bem diferente. Eu mesmo percebi muitas idéias de Lógica de uma forma quase instantânea quando estava em silêncio, portanto sem pensamentos. Desidério: Não é talvez fácil compreender o que é a ciência precisamente porque infelizmente a maior parte das universidades, sobretudo as menos boas, transmitem a ciência aos estudantes como quem recita salmos na missa sem perceber bem o que está a dizer. Mas nunca devemos confundir os maus ensinos da ciência com o que permitiu e permite aos cientistas uma compreensão muitíssimo mais profunda, rigorosa e precisa do que alguma vez foi possível em qualquer tradição sapiencial. Arthur: Mesmo que a ciência de origem européia seja bem ensinada nas escolas e universidades, isto não resolve o problema da educação, pois conduz muitos dos estudantes a uma visão preconceituosa e unilateral do que seja ciência, pois há várias outras formas válidas que as universidades e escolas públicas ainda não abrigam. Por exemplo: Acupuntura, Reiki, Cromoterapia, etc. Desidério: Acresce que acertar na verdade por acaso não é relevante para se poder dizer que uma dada metodologia funciona. A agricultura empírica teve de acertar mais ou menos por acaso, pois de contrário os seres humanos ter-se-iam extinguido. Mas acertar por acaso é muito diferente de saber justificar adequadamente o que acerta. E mais diferente ainda é a atitude de estar sempre aberto a refutar as justificações que pensávamos que funcionavam. Esta abertura só é possível quando se recusa a ideia de que há pessoas, textos ou tradições que têm um acesso privilegiado à verdade. Não há tal coisa. Arthur: Em todos os campos do conhecimento existem pessoas super-dotadas, como é bem conhecido. E existem pessoas tão super-dotadas que muitos chamam de sábios. Elas merecem ser ouvidas, a fim de que não tenhamos que ficar reinventando a roda o tempo todo. Desidério: Somos todos falíveis e cognitivamente mais ou menos iguais, e tudo o que podemos fazer é avaliar criticamente todas as ideias, com cuidado e imparcialidade, sem dogmatismos e sem sonhar alto. Na verdade, quanto mais uma ideia é agradável emocionalmente, religiosamente, espiritualmente ou seja como for, mais devemos precavermo-nos contra a ideia de que estamos a sonhar alto, encontrando nas coisas o que antes lá pusemos porque queríamos que lá estivesse só porque nos faz felizes. Procurar a verdade das coisas é um acto de pressupõe uma superação do desejo infantil de fazer a realidade ser exactamente o que gostaríamos que fosse. Arthur: Nem todos são igualmente falíveis, se reconhecemos a existência de pessoas realmente excepcionais. Estar aberto a outras formas de cognição que não apenas o pensamento e o raciocínio não implica em adesão a quaisquer dogmas, apenas amplia a capacidade de aprender e de apreender novas idéias e práticas.
_______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
