Oi todos,

vou tentar participar amanhã como ouvinte, mas não tenho condições de
ajudar na organização e acho que não vou ter nada, ou quase nada, pra
dizer...

Por enquanto os dois debates/lives por Zoom mais interessantes que eu
assisti sobre essas questão - eu assisti bem poucos - foram o do
pessoal de Applied Category Theory, que eu compartilhei aqui uns dias
atrás, e este aqui:

  https://www.youtube.com/watch?v=xJK85IRtzYM
  Black Like Me, past, present and future: Behind the Stratford
  Festival Curtain

que não teve nenhum advogado do diabo entre os participantes, e que
talvez tenha funcionado especialmente bem exatamente por causa disso.
É uma conversa entre pessoas de teatro, então é meio off-topic =). Eu
anotei onde cada um dos trechos que eu gostei mais começava mas acabei
não escrevendo palavras-chave:

    14:19
    42:30
  1:33:30
  1:40:00
  1:50:30

  [[]],
    E.

On Tue, 9 Jun 2020 at 22:21, Joao Marcos <[email protected]> wrote:
>
> > Eu próprio só sei fazer o papel de advogado do diabo!
>
> Estes dias também recebi da minha sobrinha no WhatsApp uma daqueles
> links de Instagram bem populares:
>
> "Muitas palavras e expressões da nossa língua tem uma origem
> preconceituosa, e quando as usamos acabamos reproduzindo o racismo,
> mesmo que não seja nossa intenção.  Passa pro lado pra descobrir
> alguns desses termos e alternativas pra substitui-los no dia a dia!"
> https://www.instagram.com/p/CAp9cAJlMm_/?igshid=w7fnrcv5ddep
>
> Respondi assim a ela:
>
> %%%
> Interessante!
>
> Alguns comentários:
>
> - "boçal": surpreendeu-me a ligação com os escravagistas brasileiros!
> A palavra já existia, contudo, bem antes de ser sequestrada em terras
> tupiniquins:
> https://dicionario.priberam.org/bo%C3%A7al
> Há até mesmo um significado positivo para a palavra, tal como foi
> usada por Bocage:
> https://pt.wiktionary.org/wiki/bo%C3%A7al
> Talvez não muitos se lembrem mais hoje desta associação mais recente
> (a saber, com o africano recém-chegado)? Isto que eu chamo de
> "sequestro linguístico" é um fenômeno comum, e afetou particularmente
> a Alemanha nazista, por exemplo.
>
> - "criado-mudo": eu só me dei conta do quão estranha era esta palavra
> quando vivi em Portugal e descobri que o termo não existia por lá! Eu
> até então achava que o termo brasileiro era uma adaptação de
> dumbwaiter:
> https://en.wikipedia.org/wiki/Dumbwaiter
> (A propósito, ainda falando dos garçons, também achei estranha em
> Portugal a ausência de uma palavra de origem latina que inventamos no
> Brasil: "cardápio".)
>
> - "feito nas coxas"
> Em Portugal se diz que é "feito em cima dos joelhos", "feito às três
> pancadas", ou "atamancado". As expressões não têm, obviamente, a mesma
> origem. O curioso é que também se diz que os charutos cubanos são
> "feitos nas coxas" das mulheres cubanas, e supostamente isto serviria
> para valorizar o produto.
>
> - "denegrir"
> Que judiação!
>
> - "mulata"
> Sobre sermos eternamente reféns da etimologia:
> https://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/8216-mulata-8217-veio-de-8216-mula-8217-isso-torna-a-palavra-racista/
> A seguinte alternativa etimológica também trata de mestiçagem (que na
> cultura brasileira não é exatamente algo visto como negativo):
> https://bahia.ba/entretenimento/historiadora-defende-que-palavra-mulata-nao-vem-de-mula/
>
> - "mercado negro":
> A acepção racista não parece encontrar suporte etimológico:
> https://www.etymonline.com/word/black%20market
>
> - "lista negra":
> Novamente, vale conferir:
> https://en.wikipedia.org/wiki/Blacklisting#Origins_of_the_term
>
> - "humor negro":
> Mais uma vez, parece um equívoco associar "negro" com "ruim", e também
> não parece haver conexão etimológica clara neste caso:
> https://en.wikipedia.org/wiki/Black_comedy#History_and_etymology
> Note-se, com referência às três expressões anteriores, que o uso de
> "negro" para fazer referência a pessoas de pele preta é razoavelmente
> recente. Em Portugal (país também bastante racista), ainda se usa
> "preto" (eles alegam que este é o nome da cor; não existe lápis-de-cor
> "negro").
>
> - "não sou tuas negas"
> Nem é preciso comentar... Racista + sexista.
>
> - "inveja branca"
> Confesso que sempre fiz um paralelo disto com a "magia negra" e seu
> oposto no espectro das cores. Como todo mundo sabe (hahaha), a inveja
> de verdade é um "monstro de olhos verdes":
> https://www.sensationalcolor.com/green-with-envy/
> Isto não chega, de todo modo, a ser tão terrível quanto "negro de alma
> branca", que eu próprio já vi ser usado por gente que se pensa "muito
> branca"...
>
> - "a coisa tá preta"
> Quando eu era pequeno a gente dizia com mais frequência "a coisa tá
> russa". Confesso que não fiquei com preconceito com os soviéticos por
> causa disso. Mas agora o mundo todo tá "cheio de comunistas", né?
>
> Nota de pé-de-página:
> As línguas têm um monte de palavras cujas associações se perderam ao
> longo dos tempos. Basta lembrar da origem da palavra "bárbaro", usada
> pelos gregos para designar todos os povos estrangeiros ---por
> extensão, gente selvagem e inculta--- que balbuciavam coisas
> incompreensíveis como bar-bar-bar, ao invés do grego clássico. Muito
> racistas, aqueles gregos!
> (Como vingança, talvez, a palavra "gringo", que também tem um
> significado depreciativo, vem do espanhol "griego".)
> %%%
>
> Isto tudo pode até ser _urgente_, nestes nossos tempos, mas vai bem
> além da Lógica, então é a minha última mensagem sobre isto nesta
> lista.  Alguém quer acrescentar algo?  Teremos para isto um momento
> mais _inclusivo_ online, amanhã!
>
> JM
>
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