Prezada Gisele (S):

Fico contente em vê-la participando das discussões da LOGICA-L, e
aproveito para parabenizá-la pela organização do *IV Workshop de
Filosofia e Ensino*, semana passada:
https://wfeufrgs.wordpress.com/

> O texto em questão, embora seu contexto seja estadunidense, merece alguma
> atenção no Brasil pelo simples fato de que a filosofia corre, atualmente, o
> risco de não mais ser componente curricular obrigatório nas escolas de
> Ensino Médio (assim como muitas outras, vale dizer). No nosso contexto,
> quando então se intensifica a produção de argumentos em favor da presença da
> filosofia na fase média de ensino básico, não é rara uma modalidade de
> defesa calcada em pesquisas como as mencionadas no texto, louvando-se as
> capacidades de pensamento crítico supostamente desenvolvidas nas aulas de
> filosofia. Daí que o texto nos seja relevante, para compararmos com o que se
> diz por aqui.
>
> (Digo "supostamente" porque nunca fica muito claro, nos eventos e textos em
> que o tema é discutido, o que se entende por pensamento crítico, nem se
> explicitam seus vínculos com a lógica stricto sensu - tampouco se oferecem
> exemplos de experiências didáticas de sucesso nesse sentido. Os livros
> didáticos selecionados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) até o
> último edital possuem capítulos de lógica muito fracos, desconectados dos
> demais, e é bem sabido que a maioria dos professores de filosofia do Ensino
> Médio não tiveram boas aulas de lógica durante a graduação (o que gera
> insegurança para trabalha-la quando se tornam professores, um nefasto
> círculo de expectativas antimatemáticas entre postulantes a estudantes e
> futuros professores de filosofia) nem tampouco uma preparação para o
> trabalho didático com lógica em contextos de escola média e fundamental.
> Isso tudo sem contar boa parcela dos envolvidos com ensino de filosofia que
> simplesmente desprezam a lógica como instrumento de pensamento e filosofia.)

O conteúdo do seu relato é realmente preocupante!

Com relação aos pontos de contato entre o conteúdo do texto que
circulei antes e a realidade brasileira, choca-me em particular
perceber a forma como a educação no Brasil é muitas vezes tratada de
uma forma puramente ideologizada --- mesmo por cientistas da área, e
pelos especialistas nacionais em teoria pedagógica.  Recordo-me por
exemplo de uma reunião da qual participei há dois anos em um instituto
da minha universidade, na qual um colega de outra universidade
apresentou as inúmeras vantagens do problem-based learning (PBL), tal
como aplicado em um curso da área de TI de sua universidade, e todos
saíram da palestra maravilhados com tudo aquilo...  Uma postura
minimamente crítica e científica permitiria contudo identificar ali
dois problemas.  O primeiro era que na citada universidade não foi
feito nenhum esforço de *comparar* o resultado obtido através do PBL
com o resultado obtido em outras formas tradicionais de ensino.  De
fato, *todas* as turmas daquele curso, lá, são submetidas ao PBL desde
o início!  O segundo estava no fato de que no blog da Communications
of the ACM acabava de ser publicado um post que comentava que *não há
evidências* de que PBL, por mais bonito que pareça, realmente funciona
tão bem quanto desejaríamos:
http://cacm.acm.org/magazines/2015/2/182637-whats-the-best-way-to-teach-computer-science-to-beginners/fulltext
Noto que este post cita um artigo extremamente influente [1], cujos
autores comentam:
  "Why do outstanding scientists who demand rigorous proof for
  scientific assertions in their research continue to use and indeed
  defend on the bias of intuition alone, teaching methods that are
  not the most effective?"
Creio que isto vai ao encontro de algumas das preocupações do Sesardic.

A propósito, há um outro paper do Sesardic (com Rafael De Clercq) [2]
que comenta sobre a *disparidade de gênero* na área de Filosofia e
coloca em questão as alegadas evidências da hipótese segundo a qual
haveria algum tipo de *discriminação* contra as mulheres na área de
Filosofia.

[1] Why Minimal Guidance During Instruction Does Not Work: An Analysis
of the Failure of Constructivist, Discovery, Problem-Based,
Experiential, and Inquiry-Based Teaching
http://www.cogtech.usc.edu/publications/kirschner_Sweller_Clark.pdf

[2] Women in Philosophy: Problems with the Discrimination Hypothesis
https://www.nas.org/articles/women_in_philosophy_problems_with_the_discrimination_hypothesis

> Há muito ainda por ser pesquisado em termos de didática da lógica entre nós,
> por isso me alegrou muito a notícia de que a nova diretoria da SBL está
> sensível ao tópico.

Sem dúvida é saudável (é de se saudar) esta iniciativa da nova
Diretoria da SBL!  Suponho que teremos mais notícias em breve sobre
estas coisas, de Cassiano e outros.  A propósito, há dois anos
participei da organização do *Fourth International Congress on Tools
for Teaching Logic* (http://ttl2015.irisa.fr/), em Rennes.  Há uma boa
chance de que o próximo evento da série ocorra no Brasil, em conjunto
com o próximo EBL.

Ah, vale notar que há nesta lista outros pesquisadores com bastante
envolvimento na área de Ensino (incluindo o uso de MOOCs).  Seria
muito bom vê-los participando desta discussão, e das iniciativas
correlatas!

Abraços,
Joao Marcos

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