Devagar e sempre
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JC e-mail 4317, de 08 de agosto de 2011.
Movimento 'Slow Science'
defende o direito de cientistas fugirem da corrida pelo grande número de
publicações e priorizarem qualidade da pesquisa.
Um movimento que começou na
Alemanha está ganhando, aos poucos, os corredores acadêmicos. A causa é
nobre:
mais tempo para os cientistas fazerem pesquisa. Quem encabeça a ideia é a
organização "Slow Science" (http://slow-science.org), criada por
cientistas gabaritados da Alemanha.
Aderir ao movimento significa não se
render à produção desenfreada de artigos em revistas especializadas, que
conta
muitos pontos nos sistemas de avaliação de produção científica. Hoje, quem
publica em revistas científicas muito lidas e mencionadas por outros
cientistas
consegue mais recursos para pesquisa.
Por isso, os cientistas acabam
centrando seu trabalho nos resultados (publicações). "Somos uma guerrilha de
neurocientistas que luta para que o modelo midiático de produção
científica seja
revisto", disse à Folha o neurocientista Jonas Obleser, do Instituto Max
Planck,
um dos criadores do "Slow Science". O grupo chegou a criar um manifesto, no
final do ano passado, em que proclama: "Somos cientistas, não blogamos, não
tuitamos, temos nosso tempo".
"A ciência lenta sempre existiu ao longo de
séculos. Agora, precisa de proteção." O documento está na porta da
geladeira do
laboratório do médico brasileiro Rachid Karam, que faz pós-doutorado na
Universidade da Califórnia em San Diego.
"O manifesto faz sentido.
Temos de verificar os dados antes de tirarmos conclusões precipitadas",
analisa.
"A 'Slow Science' nos daria tempo para analisar uma hipótese em
profundidade e
tirar conclusões acertadas."
De acordo com Obleser, o número de
cientistas simpatizantes do movimento está crescendo, "especialmente na
América
Latina". "Mas não é preciso se filiar formalmente. Basta imprimir o
manifesto e
montar guarda no seu departamento", diz.
O Slow Science é um braço do já
conhecido "Slow Food", que defende uma alimentação mais lenta e
saudável, tanto
no preparo quanto no consumo dos alimentos. Na ciência, a ideia é pregar a
pesquisa que não se paute só pelo resultado rápido.
Ceticismo - "É
improvável que o ritmo de fazer pesquisa seja diminuído por meio de um
acordo
mundial em que cada cientista assume o compromisso de desacelerar seus
trabalhos", diz o especialista em cientometria (medição da produtividade
científica) Rogério Meneghini.
Ele é coordenador científico do Projeto
SciELO, que reúne publicações da América Latina com acesso livre.
Para
Meneghini, o "Slow Science" é um movimento "anêmico" num contexto em que a
rapidez do fluxo de ideias e informações acelera as descobertas. "Parece uma
reivindicação de um velho movimento com uma roupagem nova. É certamente a
sensação de quem está perdendo as pernas para correr", conclui.
(Folha de São
Paulo)
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