Olá, Julio:

Esta é mais uma boa pergunta.  Tenho a impressão, contudo, de que não
tenho muito mais a acrescentar, em princípio, do que aquilo que já foi
dito pelo Décio: não é papel da Lógica fornecer critérios ou
justificativas para a verdade, a falsidade, a
indeterminação/indecidibilidade ou a inconsistência de uma
sentença(++).  Você mesmo tem falado em linguagens para *descrever* o
mundo de forma eficiente ou adequada, mas não para *regulá-lo*.
Ninguém tem dúvida assim na hora de dizer por exemplo que as
definições matemáticas devem se comportar bem, isto é, que a definição
de "função" por exemplo deve ser consistente.

Na minha reconstrução particular da abordagem da "consistência
formal", eu entendo na realidade que a verdadeira motivação por trás
do design de linguagens suficientemente ricas a ponto de serem capazes
de expressar a consistência mesmo em um contexto paraconsistente se
baseia na proposta mais geral de que o raciocínio clássico deveria ser
de alguma forma recuperável sempre que possível.  Há outras formas de
proceder a esta recuperação, contudo --- e algumas não são vistas com
particular boa vontade no Brasil, embora sejam bastante interessantes.
 Este é o caso, por exemplo, da abordagem não-monotônica segundo a
qual as sentenças são consideradas consistentes por defeito, até prova
em contrário.

Mas a questão, repito, é interessante: haverá alguma forma de decidir
"de forma prévia" quais sentenças são confiáveis, e quais são
potencialmente mal-comportadas?  Seria surpreendente se houvesse um
método geral com tal efeito, já que o problema da consistência em
casos práticos tem solução custosa, e em teoria frequentemente beira o
indecidível.  No caso não-monotônico, em particular, a dificuldade de
decisão fica mais clara, já que em geral não há nem mesmo um _critério
positivo_ para o meta-predicado "ser teorema" (no caso monotônico
clássico faltam apenas _critérios negativos_ para este meta-predicado,
já que os teoremas podem ao menos ser enumerados).

Joao Marcos

(++) Admito que a busca por tais "justificativas" talvez faça sentido,
contudo, da perspectiva do Dritte Reich do pensamento fregeano, no
qual a lógica serve para _descobrir_ verdades _intersubjetivas_.
Mas fora de um tal reino ideal dificilmente este seria o caso


2010/8/14 julio cesar <[email protected]>:
> Olá, pessoal,
> estou com outra dúvida! Assumindo que certas lógicas paraconsistentes não
> querem rejeitar o princípio da não-contradição, mas apenas restringi-lo, há
> algum parâmetro prévio em tais lógicas para diferenciar quais tipos de
> formulas a não-contradição se aplica e quais não? Isto é, há alguma outra
> diferença entre fórmulas bem-comportadas e mal-comportadas sem ser as
> diferenças geradas pelo fato de que uma aceita a contradição e outra não?
> Em outras palavras, existe alguma outra justificativa lógica, interna ao
> sistema, para se aceitar as contradições de certas fórmulas sem ser o fato
> de que, se não aceitássemos tais contradições, o sistema explodiria?
> Abraços,
> Júlio
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