João Marcos:

    Traduzi e enviei minha questão sobre a "epistemologia intuicionista"
    para a lista FOM (http://www.cs.nyu.edu/mailman/listinfo/fom/).
    Martin Davis, moderador da lista, consultou o grupo de editores da
    lista (William Tait, Harvey Friedman, John Baldwin, Alasdair
    Urquhart, Andreas Blass, Steve Simpson), e enviou-me a resposta
    abaixo, que pode ser do interesse de quem acompanhou esta discussão
    aqui na LOGICA-L.


Grande João Marcos, não dá para não admirar o seu compromisso com o 
conhecimento. Epa! Esta não é uma maneira muito intuicionista de admirar 
alguém! As favas com o intuicionismo. Te admiro, e de hoje em diante sou 
relevante. Tudo, menos clássico :)

De qualquer forma, mesmo que o exemplo dos primos não tenha sido bom, a 
sua questão, no geral, me parece apropriada. Acho que ela indica uma 
diferença fundamental entre conhecimento a priori e a posteriori. No 
conhecimento a priori, aquele que uma demonstração nos daria, os 
princípios que utilizamos são fundamentais, e estes princípios só podem 
ser justificados (ou explicados) a partir de concepções metafísicas 
também a priori. Bem, se divergimos em nossas concepções 
metafísico-ontológicas, então divergiremos sobre alguns princípios a 
priori e tal divergência pode eventualmente nos levar a divergirmos 
sobre itens específicos de conhecimento. Neste ponto minha posição é a 
da tolerância pragmatista: nossa divergência resulta em alguma diferença 
prática? Se não, então convivo bem com nossas divergências, não me 
importando muito com o que você acredita ou não. Esta me parece a 
situação das matemáticas clássica e intuicionista. Agora, se nossas 
divergências resultarem em alguma diferença prática, então não serei tão 
tolerante com suas crenças. Estas diferenças práticas podem estar tanto 
no campo dos valores, que influenciam nossas atitudes, quanto no campo 
da empiria. Se for o primeiro caso, desconfio que nossa discussão será 
longa e muito parecida com a que houve aqui sobre a existência ou não de 
Deus. Muito provavelmente vamos continuar divergindo. Mas se as 
diferenças práticas resultantes de nossas divergências metafísicas 
estiverem no campo da empiria, então teremos um tribunal a meu ver mais 
justo para decidir sobre nossas divergências. Enfim, nosso conhecimento 
a priori tem obrigação de se harmonizar com nosso conhecimento a 
posteriori, pois como Popper bem nos ensinou, fatos refutam conjecturas.

Tudo isso para dizer que caso haja alguma divergência real entre 
clássicos e intuicionistas que habilite apenas aos clássicos justificar 
um algoritmo que funciona, então este, a meu ver, seria um argumento 
bastante sério contra o intuicionismo. Me parece que foi isso que você 
tentou mostrar!

Saudações relevantes,
Daniel


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