*Sobre o meio e a mensagem *Ana Dubeux [EMAIL PROTECTED]
A vasta discussão sobre a proibição de acesso ao site You Tube — ocasionada pela vitória na Justiça do parceiro de Daniela Cicarelli nas tórridas cenas de sexo numa praia espanhola — é apenas mais um ingrediente deste mundo, vasto mundo, em que nos metemos e que chamamos de internet. À moça ou ao namorado, reserva-se o direito à reclamação judicial, instância comum e democrática aos que se julgam prejudicados moral e financeiramente, ainda que tenham sido os primeiros a negligenciar a própria privacidade. Às nações democráticas, que abominam qualquer forma de censura, cabe o recurso, a reação, o repúdio, neste caso, plenamente aceito. Encerrado o caso, fica a reflexão. Daniela e seu par querem vetar o que já não pode ser vetado. Querem colocar limites num espaço ilimitado, cuja única barreira possível seria a do livre arbítrio humano. Ainda assim, nem sempre. Anos atrás, estávamos preocupados em ser flagrados pelo moço que vigiava as câmeras instaladas em elevadores, bancos, lojas de conveniência e lombadas eletrônicas. Um sutil indício dos tempos que viriam. Sabíamos exatamente os locais onde não poderíamos mais cometer nossas pequenas indiscrições cotidianas. Hoje, a tal câmera nos persegue, está por todo lugar onde haja um portador de uma arma chamada celular. Deveriam começar a exigir porte de celular, só destinado a quem tem o mínimo de bom senso… Quem sabe no futuro… Longe de mim maldizer a tecnologia ou os incontáveis benefícios que ela nos traz. Não se trata disso. O certo é que descobrimos a internet e ela nos descobriu. Assim como nos aventuramos nela, a tornamos aventureira. Como a devassamos, ela devassa nossas vidas. Por meio dela, nos informamos e todos se informam sobre nós. Conhece algum sujeito que tenha a sorte (ou será o azar?) de não ter um só registro no Google? Praticamente impossível. Vivemos a dualidade de pertencer à família ponto.com e querer ser incógnito quando nos convêm. Temos Orkut, estamos no second life, criamos um blog, publicamos nossas fotos de família na web e ainda assim assumimos o discurso estéril de que queremos nos preservar. A verdade é que nos deslumbramos. Estamos amando a devassidão do meio em que é permitido tanto saciar nossa fome de conhecimento quanto as mais reles curiosidades sobre a vida alheia. Mas odiamos cair na rede de forma leviana, o que pode levar à destruição de uma reputação. Tanto o apego quanto a preocupação são plenamente legítimos. Mas se alguém aguarda solução breve, imagino que ela esteja longe. A internet veio para ficar e ela tem a dimensão da natureza humana. Pode materializar, mesmo no mundo virtual, a bondade, numa corrente para localizar uma criança desaparecida, ou o mau-caratismo em sua mais perversa — porque ilimitada — face. Portanto, não é o meio; é a mensagem.
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