Caro Marco Antonio,
sou atualmente aluno de graduação no Rio de Janeiro e compartilho de
seus sentimentos. Fui aluno de escolas públicas a vida inteira, federais ao
menos, então tenho experiência de caso nesse quesito.
A realidade é triste mesmo. O que é cobrado hoje dos alunos é um
utilitarismo que beira a ignorância. Atualmente o que o aluno precisa saber
de matemática ao sair do ensino médio é equivalente a ser 'razoavelmente'
alfabetizado em português. Infelizmente, os alunos em grande maioria assim
preferem e pouca gente se levanta para discutir isso como um problema.
É lamentável que haja um abismo tão escandaloso entre a matemática do
ensino médio e a matemática desejada para um bom desempenho na graduação
(qualquer que seja, quiçá no próprio bacharel de matemática). Tão grande é
a distância entre as duas exigências que as faculdades estão começando a
incluir algo como espécie de Cálculo 0 (Disfarçado de Cálculo I) para poder
dar ao aluno de graduação as ferramentas básicas que o E.M. não foi capaz
de passar.
Não ouvirá da maioria dos alunos o que estou prestes a dizer: não abaixe o
nível da aula. Alguns irão odiar sua didática, te acusar de exagerado,
louco. Você irá passar por um exame de auto-consciência. O que é ser um bom
professor? Satisfazer a vontade do aluno e ensinar-lhe apenas o suficiente
ou tentar despertar em todos alguma inspiração, algum interesse na
matemática?
Se você abaixar o nível da aula, pode ter certeza que será um professor
muito querido entre futuros alunos. Irão se referir ao senhor como um
professor muito legal, muito tranquilo e com uma matéria bem *relax*. Mas
qual é o produto final disto? É realmente necessário um diploma de
licenciatura pra fazer *só isso*?
Tentar extrair o máximo possível de uma classe é o que eu vejo como ser um
bom professor. Meu maior lamento é que não tive professores assim a vida
inteira. Sou minoria, sou daqueles que defendia o professor de matemática
quando diziam que ele era carrasco e *garfava* todo mundo na prova.
Mas os anos passaram. Quem não gostava da aula por achar que não era
necessário saber tanto mas se dedicou passou de ano assim mesmo. Quem
gostava da aula e se interessou cresceu e aproveitou ao máximo.
Se apenas um aluno, um de milhares alunos, algum dia, olhar pra trás e ver
que foi bom que o senhor tenha exigido um pouco a mais, então terá sido
proveitoso.
Essa é minha opinião.
Atte.
Victor Chaves
Em 3 de junho de 2012 19:49, Francisco Barreto <[email protected]>
escreveu:
> Saudações Marco Antonio,
> Vou sugerir uma leitura, A Arte de Resolver Problemas (How to Solve It)
de
> George Pólya, para você, caso ainda não tenha lido é claro.
> A outra coisa que eu gostaria de sugerir é inscrever-se no
> Programa de Aperfeiçoamento para Professores de Matemática do Ensino Médio
>
http://www.impa.br/opencms/pt/programas/programa_ensino_medio/ensino_medio_2012_modulo2.html
>
> ou assitir alguns dos vídeos disponíveis gratuitamente no site do IMPA de
> eventos passados.
>
> Abraços
>
>
>
> 2012/6/3 Gabriel Merêncio <[email protected]>
>>
>> Posso falar apenas como aluno, mas espero que seja relevante à
>> discussão. Acredito que a escola deva ser um agente auxiliar à formação
do
>> indivíduo, possibilitando um desenvolvimento pleno e sadio. Desse ponto
de
>> vista, é muito bom que você queira oferecer algo além que pode
complementar
>> a bagagem de conhecimento do aluno, mas, ao mesmo tempo, não dá para
querer
>> impor a todos.
>>
>> Não vejo como questão de abaixar o nível, porém adequar-se ao contexto:
>> não são todos que verão o conteúdo como algo significativo em suas vidas.
>> Uma boa parte só tem interesse em matemática até onde o vestibular
cobra, o
>> que é perfeitamente compreensível. Aliás, o que parece trivial pode ser
um
>> verdadeiro pesadelo aos que, por exemplo, preferem dedicar-se ao estudo
de
>> idiomas ou textos filosóficos de pensadores.
>>
>> Uma boa alternativa são aulas extras fora do horário normal voltadas aos
>> alunos interessados; por exemplo, muitas escolas têm cursos preparatórios
>> para olimpíadas.
>>
>> 2012/6/2 Marco Antonio Leal <[email protected]>
>>>
>>> Sou professor de matemática em Belém do Pará e sempre tento incentivar
os
>>> alunos a estudar forte, buscar mais problemas, falo e resolvo problemas
>>> sobre olimpíadas, mostro teoremas como menelaus, ceva e demonstro todos
os
>>> teoremas, mas, para minha surpresa, os alunos se preocupam apenas em
tentar
>>> resolver problemas triviais das universidades estadual, federal e
Cesupa,
>>> que é uma universidade particular. Estas universidades junto com o ENEM
>>> cobram problemas triviais, sem profundidade e imediatos que, na minha
>>> opinião, não selecionam os melhores candidatos nem fazem jus ao conteudo
>>> ministrado. Me deixa muito triste esse fato, ja que, começo a perceber
que
>>> uma geração de alunos esta se formando, onde o contexto da questão é
mais
>>> importante do que o conteudo. Gostaria de saber dos meus colegas de
>>> profissão se passam pela mesma angustia em suas escolas, melhor ainda,
se
>>> para ser um bom professor, é necessario baixar o nível da aula e
excluir a
>>> abordagem mais profunda do conteudo
>>
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> Sinceramente,
> Francisco Costa D. Barreto
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