Ola Carissimo Prof Nicolau e demais
colegas desta lista ... OBM-L,

Concordo completamente com suas observacoes.

A principio eu nao tinha uma posicao definida sobre estas correntes filosoficas da Matematica e hoje percebo que inconscientemente acreditava que os Matematicos realmente constroem e inventam os conceitos e objetos que estudamos. Entretanto, conforme evoluia minha compreensao interna e concomitantemente estudava outras coisas, alem de refletir sobre os problemas do Mundo contemporaneo , fui gradativamente sentindo necessidade de me posicionar, mesmo que provisoriamente, sobre estas correntes filosoficas.

Para mim foi decisivo a leitura de dois artigos do Godel, que sairam no THE AMERICAM MATHEMATICAL MONTHLY - 54 em 1947 { Neste epoca meus pais ainda eram criancas ) e que consegui le em uma Biblioteca. Os artigos estavam em ingles, mas uma traducao valida seria :

1) A Logica-Matematica de Russel.
2) O que e o Problema do continuo de Cantor ?

Desde a leitura destes artigos eu estudei muitas coisa e a minha FE na existencia independente dos objetos matematicos so se reforcou ao longo deste tempo ...

Para exemplificar e parafraseando o Penrose, eu gostaria de ver algum Matematico dizer seriamente que o Mandelbrot "criou" ou "contruiu" o conjunto M ... Me parece obvio, um OBVIO ULULANTE, que o conjunto M ja exista "LA", do "outro lado", e apenas aguardava que alguem o visse ... Ele era tao real e pre-existente quanto era o Brasil antes de Pedro Alvares Cabral chegar aqui ...

Essa FE nao influi diretamente no trabalho de um Matematico e creio mesmo que a maioria deles nao se preocupam com isso, ocupando o seu tempo com suas pesquisas em campos especificos com problemas ja bem definidos. Essa FE e uma percepcao individual, claramente Metafisica, e que funciona como uma FORCA MOTIVADORA nas investigacoes e, ao mesmo tempo, como uma defesa contra muitas bravatas e idiossincrasias negativas que tao rotineiramente vemos na area academica.

Seja qual for o nosso destino, ele indubitavelmente passa pela nossa relacao com o Mundo que nos cerca. Isso e obvio. Como e obvio que a compreensao que dele temos foi, e e muito provavelmente sera fundamental nesta caminhada. Ora, esta sobejamente demonstrado que nos so conseguimos compreender e falar com precisao sobre as coisas do Mundo atraves da Matematica e, portanto, esta Matematica e, no minimo, um ingrediente essencial da nosso destino e da nossa consolidacao.

A tecnologia tem as suas possibilidades, a sua criatividde propria, mas se ela hoje pode fazer objetivamente o que no passado seria considerado um sonho irrealizavel e porque nos, Matematicos, criamos previamente o instrumental com o qual os Fisicos puderam compreender melhor o mundo e portanto disponibilizar aos tecnicos e engenheiros as condicoes para a realizacao dos sonhos humanos ... Me parece que, em parte, esse e um dos papeis que nos Matematicos desempenhamos na sociedade.

Mas, sem duvida, nao e o unico e acredito que nao e o mais interessante ...

O ser humano tem necessidades e angustias que nao se circunscrevem e nao podem ser completamente explicadas pelas meras exigencias somaticas e sociais ... Existe, por exemplo, a angustia existencial de estarmos numa vida que nao nos diz claramente qual o seu sentido ...

Ora, se a Matematica tem se mostrado competente para resolver nossas demandas materias porque razao devemos crer que ela nunca sera util para resolver outras demandas ?

Em que pese as criticas que existem ( e que eu conheco ), podemos dizer com boa aproximacao que o Freud foi um cara cuja maior contribuicao foi mostrar que o nosso aparelho psiquico nao se reduz ao aparelho cerebral, vale dizer, existe uma estrutura nao-material na nossa cabeca cujos dessarranjos justifica muitas neuroses e psicoses humanas. Quando nos sonhamos, a censura no estado de vigilia se afrouxa e aquilo que e recalcado durante o dia encontra a possibilidade de se manifestar. mas a censura nao se extingue completamente. Assim, ela permite apenas a passagem de simbolos que vagamente lembram o objeto real. Qual a relacao entre o simbolo e o simbolizado ?

Lacan observou o seguinte : O Simbolo e o simbolizado sao objetos HOMEOMORFOS, vale dizer, sao topologicamente equivalentes. Na nossa linguagem diriamos que existe uma bijecao continua com inversa continua entre o simbolo o simbolizado.

Lacan tornou matematicamente precisas muitas outras observacoes anteriores do Freud. Por exemplo. Freud observou que os erros involuntarios e cotidianos de linguagem, quando trocamos uma palavra por outra, sem perceber, sao pulsoes inconscientes que se manifestam. Lacan observou que a somente havendo um ERRO LOGICO no discurso podemos supor que o erro e provocado pou uma pulsao inconsciente.

Eu acho que estes dois exemplos sao suficientes. Sao potencias aplicacoes da Matematica ( Neste caso da Logica-Matematica e da Topologia ) a um campo que, a priori, nao pensariamos que poderia acomodar uma descricao Matematica e, claramente, conforme falei, nao esta se limitando a satisfazer necessidades materiais humanas como comumente ocorre com a tecnologia atual.

Desculpem, mas eu me prolonguei um pouco motivado pela observacao do Prof Nicolau e terminei fazendo uma mensagem longa, talvez um pouco desfocada ( um troll ). Mas acredito sinceramente que existe alguma coisa boa - mesmo que pouca - ai em cima.

Um Abraco a Todos
Paulo Santa Rita
1,2106,260905


From: "Nicolau C. Saldanha" <[EMAIL PROTECTED]>
Reply-To: [email protected]
To: [email protected]
Subject: Re: [obm-l] conjecturas
Date: Sun, 25 Sep 2005 09:09:27 -0300

On Sat, Sep 24, 2005 at 12:57:16AM +0000, Paulo Santa Rita wrote:
> Ola Dirichlet e demais
> colegas desta lista ... OBM-L,
>
> A hipotese do continuo me interessa subsidiariamente. Entretanto, salvo
> melhor juizo, ME PARECE que o fato de ser demonstravel que a Hipotese do
> Continuo e independente dos demais axiomas da teoria do conjuntos NAO
> RETIRA O CARATER PROBLEMATICO da questao, vale dizer, e licito e saudavel > querermos saber se existe algum numero cardinal "entre" o primeiro alefe e
> a cardinalidade do continuo ...

Perdão por apagar a maior parte da sua excelente mensagem da resposta,
mas se eu não fizesse isso a minha mensagem seria quase que só citação.

O ponto de vista que você defende é o de muitos, mas de nenhuma maneira
todos, os especialistas da área. O próprio Gödel tentou até o final da vida
dele decidir se a hipótese do contínuo era verdadeira ou falsa.

Esta questão está relacionada, mas não é idêntica, com o debate
platonista/formalista. Para um platonista como Gödel os cardinais infinitos
têm uma existência muito real e independente de nós, e portanto uma frase
como a hipótese do contínuo ou é verdadeira ou é falsa, apenas não sabemos
qual. Para um formalista o significado de a hipótese do contínuo ser
verdadeira ou falsa é filosoficamente bem mais problemático.
Mas mesmo o formalista mais estrito deve concordar que alguns axiomas
são mais interessantes do que outros e que talvez possamos no futuro
vir a compreender que um dos axiomas (hipótese do contínuo ou sua negação)
é muito mais interessante do que o outro.

[]s, N.

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