Pessoal, sobre essa questão da " "Construção do Reino de Deus" na UFRN,
parece que  algumas pessoas não estão percebendo bem o ponto.

Claro que seria fantástico fazer um curso sobre o Talmud , sobre o Budismo,
sobre a teologia cristã na filosofia , ou sobre o Candomblé, ou sobre o
Sufismo.


 O problema é que  o curso em questão *quase certamente* não é isso, mas é
apologia ao "Estado Bíblico", coisa das igrejas neopentecostais.

Alguém francanebte duvida disso?

Walter

Em sex., 10 de dez. de 2021 11:10, <logica-l@dimap.ufrn.br> escreveu:

> logica-l@dimap.ufrn.br
> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/forum/?utm_source=digest&utm_medium=email#!forum/logica-l/topics>
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>
>    - Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN
>    <#m_2239023017344212513_group_thread_0> - 4 atualizações
>    - E-mail de compilação para logica-l@dimap.ufrn.br - 8 atualizações em
>    1 tema <#m_2239023017344212513_group_thread_1> - 1 atualização
>
> Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN
> <http://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/group/logica-l/t/58a45e315bcc771f?utm_source=digest&utm_medium=email>
> Daniel Durante <durant...@gmail.com>: Dec 09 11:38AM -0800
>
> Oi Eduardo e colegas,
>
> Nunca tinha ouvido falar deste curso. Não consigo ler o artigo do Globo.
> Tem um paywall.
>
> Mas a ementa da disciplina "medicina, saúde e espiritualidade", que o João
> Marcos postou, me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real
> interesse em cursar uma disciplina sobre medicina e espiritualidade,
> principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista no que tange à
> religião.
>
> Antes da pandemia andei frequentando um grupo de estudos aqui do Depto de
> Filosofia da UFRN sobre os pensamentos indígenas brasileiros. A proposta
> não é antropologia, é filosófica mesmo. E é bem legal. Recomendo muito o
> livro "A Queda do Céu", do xamã yanomami Davi Kopenawa e do antropólogo
> Bruce Albert. Sem falar nos excelentes livros do Ailton Krenak.
>
> A medicina "ocidental" acadêmica é ainda um luxo em muitos lugares do
> "Brasil profundo" e do raso também. Os passes, rezas, chás, impostação de
> mãos, promessas,... sempre estiveram lá, com os doentes e as doenças,
> muito
> antes da medicina chegar. E não vão embora quando as ambulâncias chegam.
> Em
> minha opinião, faz muito bem à universidade, aos médicos e demais
> profissionais interessados em saúde aprenderem um pouco sobre estas
> tradições, sob diversos aspectos, inclusive sob a perspectiva dos que a
> praticam e nelas acreditam.
>
> Claro que eu não conheço este curso e não sei exatamente o que eles fazem.
> Mas enquanto ideia geral, me parece positivo. Afinal, a saúde é um
> conceito
> muito mais amplo do que aquilo que cabe na medicina e mesmo na biologia.
>
> Saudações xamânicas,
> Daniel.
>
> Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs
> escreveu:
>
> Joao Marcos <botoc...@gmail.com>: Dec 09 05:13PM -0300
>
> > me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real interesse em cursar
> uma disciplina
> > sobre medicina e espiritualidade, principalmente se ela fosse
> verdadeiramente pluralista
> > no que tange à religião.
>
> Boa, Daniel, então depois que você cursar a disciplina pode nos ajudar
> a esclarecer os seguintes itens, abaixo.
>
> > Seguir os princípios científicos através de uma abrangência
> > eclética, valendo-se dos conceitos abordados durante o curso.
>
> Gostaria de saber mais sobre o "ecletismo científico" que será seguido no
> curso.
>
> > Utiliza-se como conteúdo, temas que envolvem assuntos
> > relacionados a medicina, saúde e espiritualidade,
> > abrangendo conceitos da física newtoniana e quântica,
>
> Gostaria de saber quais os "conceitos da física newtoniana e quântica"
> que serão abrangidos, e como.
>
> > a conceituação de Deus na visão religiosa, a anatomofisiologia
> multidimensional, a medicina ayurvédica,
>
> É, infelizmente o CFM já favoreceu faz tempo a inclusão das "Práticas
> Integrativas e Complementares" no SUS.
> https://aps.saude.gov.br/ape/pics
> Discordo frontalmente, contudo, que isto seja pago com dinheiro público.
>
> > a função do pensamento, das emoções e sentimentos como instrumentos da
> cura da alma, a instrumentalização terapêutica da prece e meditação,
>
> Muito legal tudo isso, mas não funciona. Ou há estudos científicos
> sobre essas coisas?
>
> O(s) inexistente(s) currículo(s) do(s) nosso(s) colega(s) envolvidos
> nesta disciplina não ajudam a passar uma boa impressão da empreitada
> toda.
>
> Noto, de todo modo, que a "abertura religiosa" na UFRN é bastante
> conhecida. Temos um "templo ecumênico" no câmpus, financiado com
> dinheiro público, temos professores que publicam livros sobre "os
> dinossauros e a Bíblia", e cansei de ver a estrutura do câmpus ser
> oficialmente emprestada aos fins de semana para encontros de grupos
> religiosos. Mas tudo isto está errado, fora de lugar.
>
> []s, JM
> Eduardo Ochs <eduardoo...@gmail.com>: Dec 09 09:19PM -0300
>
> Oi Daniel!
>
> Eu consigo imaginar disciplinas chamada "medicina, saúde e
> espiritualidade" que seriam interessantíssimas... a primeira imagem
> que me vem à cabeça é um curso dado por um médico que fez formação
> complementar em Homeopatia (ou: Homeopatia-no-sentido-Eduardo, que é
> algo completamente diferente de Homeopatia-no-sentido-João-Marcos) e
> que tenha um pouquinho de noção de Antropologia... e aí esse médico
> mostraria vários modelos mentais de como os seres humanos funcionam,
> mostraria várias noções diferentes de "saúde" e "doença", mostraria os
> pontos cegos que cada grupo aponta nas visões de ser humano, saúde e
> doença dos outros grupos, e poria todo mundo pra estudar e discutir...
>
> Só que tem alguns grupos que eu _acho_ que têm um modelo mental tão
> ruim de como os seres humanos funcionam que eu fico achando que
> pessoas desses grupos não têm como ter a estrutura mental necessária
> pra dar um curso como o acima.
>
> Um dos links que eu mandei no meu post inicial foi esse aqui,
>
> https://archive.md/TeS69
>
> que leva pra uma versão despaywallizada do artigo d'O Globo, e esse
> trecho aqui do artigo. Olha esse trecho:
>
> "A Universidade tem a vocação institucional da busca do conhecimento
> em qualquer vertente que ele se apresente. Um dos conhecimentos mais
> significativos para a humanidade, foi aquele trazido por Jesus, que
> se dizia filho de Deus e comprovava isso com a produção de fenômenos
> que estasvam acima da capacidade humana do seu tempo e até os dias
> atuais, conforme relatos aceitos majoritariame pela maioria das
> pessoas que é informada.
>
> Ele explicava que veio ao mundo a pedido do Pai (Deus), assumir a
> personalidade do Cristo (Messias, Salvador) para ensinar a
> humanidade sobre o Amor, e a partir daí construir a família
> universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
> sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus.
>
> A importância de sua vida foi importante, a humanidade reconhece,
> pois dividiu o calendário em antes e depois do seu nascimento, nos
> fatos pré e pós Cristo.
>
> Muitas teses, livros, religiões foram desenvolvidas a partir dessas
> circunstâncias, que pretendem envolver o mundo e tornar realidade o
> Reino de Deus, a partir da Reforma Íntima feita por cada pessoa em
> seu próprio coração, tornando-se um cidadão do Reino de Deus, mesmo
> que esse reino não esteja ainda vigente na sociedade."
>
> Esse trecho ativa vários gatilhos meus. Pra mim a frase "a família
> universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
> sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus" soa
> como algo só pode ser dito por alguém que acha que indígenas e LGBTs
> são não só pessoas doentes como maçãs podres que contaminam as outras
> maçãs do cesto...
>
> [[]],
> Eduardo Ochs
>
> Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com>: Dec 09 07:51PM -0800
>
> Camaradas, boas noites.
>
> Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
> considerações. Perdoem-me a loquacidade.
> 1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
> 2º enlace:
>
> https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
> Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
> bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
> Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
> Bolsonaro? #mistérioprofundo
> Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
> salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
> foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
> como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
> gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para
> oferecer.
> Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
> ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se
> raciocinar,
> por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
> raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
> conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
> senso-comum, a relação é complicada.
> Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
> atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
> identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a
> expressão
> q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
> efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
> na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
> especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
> da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
> população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
> pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
> reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
> astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
> Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
> quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação
> etc.?
> Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
> critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
> esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
> produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
> si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
> não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
> outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
> liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
> aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido
> dos
> jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
> pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
> assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da
> sociedade
> política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
> abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
> bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
> natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
> mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público
> e
> notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
> racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem
> se
> interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
> Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
> poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do
> livro
> e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
> Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
> em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
> trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
> informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
> civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi
> uma
> vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
> ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
> mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
> precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
> peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
> trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
> Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
> espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
> acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
> maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
> pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
> somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou
> somos
> deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo.
> Eu,
> infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
> gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
> aqui o contexto).
> A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
> fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
> comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
> política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
> fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
> massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é
> bem
> simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
> da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
> oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
> com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
> (vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
> minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser
> falso,
> fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o
> problema:
> o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
> ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
> Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um
> realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas
> transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
> pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
> ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
> dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda
> Viva, dando aula de democracia e saúde pública para uma bancada de
> neo-yuppies que já obtiveram fama municipal. O tema era a proibição de
> fumar em lugares públicos e fechados, qdo Maluf era prefeito de SP, lá em
> 1990 e bolinhas. Cada um que escolha qual exemplo mais atual pode ser
> invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o
> mesmo. Na verdade, o sentido da frase é mais cínico e mais certeiro: para
> que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude.
> Saudações a quem luta. Ou não.
> cass.
>
>
> On Thursday, December 9, 2021 at 9:19:44 PM UTC-3 eduardoochs wrote:
>
> Voltar ao início <#m_2239023017344212513_digest_top>
> E-mail de compilação para logica-l@dimap.ufrn.br - 8 atualizações em 1
> tema
> <http://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/group/logica-l/t/ef6b5ebdbaa48910?utm_source=digest&utm_medium=email>
> Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com>: Dec 10 12:50AM -0300
>
> Camaradas, boas noites.
>
> Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
> considerações. Perdoem-me a loquacidade.
> 1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
> 2º enlace:
>
> https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
> Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
> bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
> Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
> Bolsonaro? #mistérioprofundo
> Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
> salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
> foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
> como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
> gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer.
> Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
> ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar,
> por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
> raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
> conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
> senso-comum, a relação é complicada.
> Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
> atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
> identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
> q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
> efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
> na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
> especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
> da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
> população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
> pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
> reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
> astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
> Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
> quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.?
> Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
> critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
> esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
> produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
> si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
> não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
> outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
> liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
> aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos
> jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
> pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
> assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade
> política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
> abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
> bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
> natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
> mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e
> notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
> racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se
> interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
> Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
> poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro
> e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
> Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
> em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
> trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
> informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
> civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma
> vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
> ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
> mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
> precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
> peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
> trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
> Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
> espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
> acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
> maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
> pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
> somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos
> deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu,
> infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
> gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
> aqui o contexto).
> A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
> fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
> comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
> política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
> fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
> massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem
> simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
> da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
> oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
> com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
> (vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
> minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso,
> fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema:
> o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
> ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
> Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um
> realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas
> transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
> pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
> ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
> dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda
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