Pessoal, sobre essa questão da " "Construção do Reino de Deus" na UFRN, parece que algumas pessoas não estão percebendo bem o ponto.
Claro que seria fantástico fazer um curso sobre o Talmud , sobre o Budismo, sobre a teologia cristã na filosofia , ou sobre o Candomblé, ou sobre o Sufismo. O problema é que o curso em questão *quase certamente* não é isso, mas é apologia ao "Estado Bíblico", coisa das igrejas neopentecostais. Alguém francanebte duvida disso? Walter Em sex., 10 de dez. de 2021 11:10, <logica-l@dimap.ufrn.br> escreveu: > logica-l@dimap.ufrn.br > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/forum/?utm_source=digest&utm_medium=email#!forum/logica-l/topics> > Grupos > do Google > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/forum/?utm_source=digest&utm_medium=email/#!overview> > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/forum/?utm_source=digest&utm_medium=email/#!overview> > Resumo por e-mail dos temas > Ver todos os temas > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/forum/?utm_source=digest&utm_medium=email#!forum/logica-l/topics> > > - Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN > <#m_2239023017344212513_group_thread_0> - 4 atualizações > - E-mail de compilação para logica-l@dimap.ufrn.br - 8 atualizações em > 1 tema <#m_2239023017344212513_group_thread_1> - 1 atualização > > Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN > <http://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/group/logica-l/t/58a45e315bcc771f?utm_source=digest&utm_medium=email> > Daniel Durante <durant...@gmail.com>: Dec 09 11:38AM -0800 > > Oi Eduardo e colegas, > > Nunca tinha ouvido falar deste curso. Não consigo ler o artigo do Globo. > Tem um paywall. > > Mas a ementa da disciplina "medicina, saúde e espiritualidade", que o João > Marcos postou, me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real > interesse em cursar uma disciplina sobre medicina e espiritualidade, > principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista no que tange à > religião. > > Antes da pandemia andei frequentando um grupo de estudos aqui do Depto de > Filosofia da UFRN sobre os pensamentos indígenas brasileiros. A proposta > não é antropologia, é filosófica mesmo. E é bem legal. Recomendo muito o > livro "A Queda do Céu", do xamã yanomami Davi Kopenawa e do antropólogo > Bruce Albert. Sem falar nos excelentes livros do Ailton Krenak. > > A medicina "ocidental" acadêmica é ainda um luxo em muitos lugares do > "Brasil profundo" e do raso também. Os passes, rezas, chás, impostação de > mãos, promessas,... sempre estiveram lá, com os doentes e as doenças, > muito > antes da medicina chegar. E não vão embora quando as ambulâncias chegam. > Em > minha opinião, faz muito bem à universidade, aos médicos e demais > profissionais interessados em saúde aprenderem um pouco sobre estas > tradições, sob diversos aspectos, inclusive sob a perspectiva dos que a > praticam e nelas acreditam. > > Claro que eu não conheço este curso e não sei exatamente o que eles fazem. > Mas enquanto ideia geral, me parece positivo. Afinal, a saúde é um > conceito > muito mais amplo do que aquilo que cabe na medicina e mesmo na biologia. > > Saudações xamânicas, > Daniel. > > Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs > escreveu: > > Joao Marcos <botoc...@gmail.com>: Dec 09 05:13PM -0300 > > > me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real interesse em cursar > uma disciplina > > sobre medicina e espiritualidade, principalmente se ela fosse > verdadeiramente pluralista > > no que tange à religião. > > Boa, Daniel, então depois que você cursar a disciplina pode nos ajudar > a esclarecer os seguintes itens, abaixo. > > > Seguir os princípios científicos através de uma abrangência > > eclética, valendo-se dos conceitos abordados durante o curso. > > Gostaria de saber mais sobre o "ecletismo científico" que será seguido no > curso. > > > Utiliza-se como conteúdo, temas que envolvem assuntos > > relacionados a medicina, saúde e espiritualidade, > > abrangendo conceitos da física newtoniana e quântica, > > Gostaria de saber quais os "conceitos da física newtoniana e quântica" > que serão abrangidos, e como. > > > a conceituação de Deus na visão religiosa, a anatomofisiologia > multidimensional, a medicina ayurvédica, > > É, infelizmente o CFM já favoreceu faz tempo a inclusão das "Práticas > Integrativas e Complementares" no SUS. > https://aps.saude.gov.br/ape/pics > Discordo frontalmente, contudo, que isto seja pago com dinheiro público. > > > a função do pensamento, das emoções e sentimentos como instrumentos da > cura da alma, a instrumentalização terapêutica da prece e meditação, > > Muito legal tudo isso, mas não funciona. Ou há estudos científicos > sobre essas coisas? > > O(s) inexistente(s) currículo(s) do(s) nosso(s) colega(s) envolvidos > nesta disciplina não ajudam a passar uma boa impressão da empreitada > toda. > > Noto, de todo modo, que a "abertura religiosa" na UFRN é bastante > conhecida. Temos um "templo ecumênico" no câmpus, financiado com > dinheiro público, temos professores que publicam livros sobre "os > dinossauros e a Bíblia", e cansei de ver a estrutura do câmpus ser > oficialmente emprestada aos fins de semana para encontros de grupos > religiosos. Mas tudo isto está errado, fora de lugar. > > []s, JM > Eduardo Ochs <eduardoo...@gmail.com>: Dec 09 09:19PM -0300 > > Oi Daniel! > > Eu consigo imaginar disciplinas chamada "medicina, saúde e > espiritualidade" que seriam interessantíssimas... a primeira imagem > que me vem à cabeça é um curso dado por um médico que fez formação > complementar em Homeopatia (ou: Homeopatia-no-sentido-Eduardo, que é > algo completamente diferente de Homeopatia-no-sentido-João-Marcos) e > que tenha um pouquinho de noção de Antropologia... e aí esse médico > mostraria vários modelos mentais de como os seres humanos funcionam, > mostraria várias noções diferentes de "saúde" e "doença", mostraria os > pontos cegos que cada grupo aponta nas visões de ser humano, saúde e > doença dos outros grupos, e poria todo mundo pra estudar e discutir... > > Só que tem alguns grupos que eu _acho_ que têm um modelo mental tão > ruim de como os seres humanos funcionam que eu fico achando que > pessoas desses grupos não têm como ter a estrutura mental necessária > pra dar um curso como o acima. > > Um dos links que eu mandei no meu post inicial foi esse aqui, > > https://archive.md/TeS69 > > que leva pra uma versão despaywallizada do artigo d'O Globo, e esse > trecho aqui do artigo. Olha esse trecho: > > "A Universidade tem a vocação institucional da busca do conhecimento > em qualquer vertente que ele se apresente. Um dos conhecimentos mais > significativos para a humanidade, foi aquele trazido por Jesus, que > se dizia filho de Deus e comprovava isso com a produção de fenômenos > que estasvam acima da capacidade humana do seu tempo e até os dias > atuais, conforme relatos aceitos majoritariame pela maioria das > pessoas que é informada. > > Ele explicava que veio ao mundo a pedido do Pai (Deus), assumir a > personalidade do Cristo (Messias, Salvador) para ensinar a > humanidade sobre o Amor, e a partir daí construir a família > universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma > sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus. > > A importância de sua vida foi importante, a humanidade reconhece, > pois dividiu o calendário em antes e depois do seu nascimento, nos > fatos pré e pós Cristo. > > Muitas teses, livros, religiões foram desenvolvidas a partir dessas > circunstâncias, que pretendem envolver o mundo e tornar realidade o > Reino de Deus, a partir da Reforma Íntima feita por cada pessoa em > seu próprio coração, tornando-se um cidadão do Reino de Deus, mesmo > que esse reino não esteja ainda vigente na sociedade." > > Esse trecho ativa vários gatilhos meus. Pra mim a frase "a família > universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma > sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus" soa > como algo só pode ser dito por alguém que acha que indígenas e LGBTs > são não só pessoas doentes como maçãs podres que contaminam as outras > maçãs do cesto... > > [[]], > Eduardo Ochs > > Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com>: Dec 09 07:51PM -0800 > > Camaradas, boas noites. > > Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas > considerações. Perdoem-me a loquacidade. > 1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F > 2º enlace: > > https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus > Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser > bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias. > Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a > Bolsonaro? #mistérioprofundo > Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo > salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já > foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q, > como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não > gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para > oferecer. > Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas > ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se > raciocinar, > por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de > raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a > conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do > senso-comum, a relação é complicada. > Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos > atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem > identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a > expressão > q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como > efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez > na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente > especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação > da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da > população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as > pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica > reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era > astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein, > Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa: > quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação > etc.? > Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer > critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de > esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade > produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a > si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho > não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os > outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia > liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo, > aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido > dos > jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta > pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo > assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da > sociedade > política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O > abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as > bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de > natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q > mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público > e > notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de > racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem > se > interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A > Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu > poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do > livro > e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy > Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo > em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de > trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais > informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a > civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi > uma > vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a > ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é > mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não > precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o > peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito > trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente. > Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de > espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!) > acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o > maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra > pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou > somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou > somos > deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. > Eu, > infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei > gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe > aqui o contexto). > A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria > fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a > comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz > política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de > fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na > massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é > bem > simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às > da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se > oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada > com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral > (vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a > minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser > falso, > fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o > problema: > o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer > ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet. > Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um > realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas > transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de > pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do > ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção > dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda > Viva, dando aula de democracia e saúde pública para uma bancada de > neo-yuppies que já obtiveram fama municipal. O tema era a proibição de > fumar em lugares públicos e fechados, qdo Maluf era prefeito de SP, lá em > 1990 e bolinhas. Cada um que escolha qual exemplo mais atual pode ser > invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o > mesmo. Na verdade, o sentido da frase é mais cínico e mais certeiro: para > que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude. > Saudações a quem luta. Ou não. > cass. > > > On Thursday, December 9, 2021 at 9:19:44 PM UTC-3 eduardoochs wrote: > > Voltar ao início <#m_2239023017344212513_digest_top> > E-mail de compilação para logica-l@dimap.ufrn.br - 8 atualizações em 1 > tema > <http://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/group/logica-l/t/ef6b5ebdbaa48910?utm_source=digest&utm_medium=email> > Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com>: Dec 10 12:50AM -0300 > > Camaradas, boas noites. > > Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas > considerações. Perdoem-me a loquacidade. > 1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F > 2º enlace: > > https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus > Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser > bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias. > Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a > Bolsonaro? #mistérioprofundo > Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo > salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já > foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q, > como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não > gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer. > Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas > ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar, > por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de > raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a > conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do > senso-comum, a relação é complicada. > Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos > atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem > identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão > q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como > efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez > na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente > especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação > da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da > população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as > pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica > reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era > astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein, > Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa: > quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.? > Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer > critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de > esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade > produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a > si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho > não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os > outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia > liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo, > aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos > jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta > pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo > assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade > política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O > abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as > bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de > natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q > mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e > notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de > racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se > interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A > Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu > poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro > e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy > Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo > em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de > trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais > informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a > civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma > vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a > ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é > mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não > precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o > peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito > trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente. > Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de > espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!) > acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o > maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra > pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou > somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos > deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu, > infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei > gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe > aqui o contexto). > A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria > fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a > comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz > política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de > fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na > massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem > simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às > da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se > oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada > com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral > (vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a > minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso, > fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema: > o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer > ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet. > Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um > realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas > transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de > pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do > ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção > dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda > Viva, dando aula de democracia e saúde pública para uma bancada de > neo-yuppies que já obtiveram fama municipal. O tema era a proibição de > fumar em lugares públicos e fechados, qdo Maluf era prefeito de SP, lá em > 1990 e bolinhas. Cada um que escolha qual exemplo mais atual pode ser > invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o > mesmo. Na verdade, o sentido da frase é mais cínico e mais certeiro: para > que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude. > Saudações a quem luta. Ou não. > cass. > > > > > > . > > Para cancelar sua inscrição neste grupo e deixar de receber e-mails do > > mesmo, envie um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. > > -- > Cassiano Terra Rodrigues > Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA > > Praça Marechal Eduardo Gomes, Nº 50 > Vila das Acácias > São José dos Campos > São Paulo, Brasil > CEP: 12228-970 > Tel. (+55)-12-3305-8438 > - Sala F0-206 - > > -- > lealdade, humildade, procedimento > Voltar ao início <#m_2239023017344212513_digest_top> > Você recebeu esse resumo porque está inscrito para receber atualizações > deste grupo. 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