João,

O comentário do Thomas Foster que você citou é historicamente correto. Ao
contrário do que argumentava Aristóteles no Organon, sobre as ciências
demonstrativas, não é verdade que todo conhecimento matemático tivesse sido
criado de conhecimento matemático pré-existente: a Matemática avançou com a
inovação, com gente ousando resolver problemas difíceis por ideias novas e
mesmo apresentando soluções corretas que os outros matemáticos da mesma
época achavam matematicamente erradas. Certamente, vários devem ter sido
acusados de não saber fazer as contas e não me espantaria se dissessem ou
isso ou algo equivalente acerca de Cantor. Ou seja, é sim fato que os
matemáticos estão conseguindo estender o universo de entidades matemáticas,
senão não estaríamos vendo tantas aplicações desses conceitos a tantas
classes de problemas. Não vejo problema no comentário dele, é até uma
verdade muito evidente.

Em 21 de janeiro de 2013 23:28, Joao Marcos <[email protected]> escreveu:

> Entendo que o argumento lógico-filosófico de Thomas Forster pretendia
> ir ser mais do que um "ponto histórico para auxiliar numa aula"...
>
> Entendo que não é esta a sua preocupação neste momento, Tony, mas
> seria interessante ouvir a opinião dos colegas mais "filosoficamente
> sensíveis" sobre o supra-citado argumento.
>
> Abraço,
> Joao Marcos
>
>
> 2013/1/21 Tony Marmo <[email protected]>:
> > Então João, você encontrou um ponto histórico interessante para auxiliar
> > numa aula.
> > Mas, veja outro caso: começar a ensinar topologia pelo problema das 7
> pontes
> > de Conisberga funciona bem, melhora o entendimento e desperta mais o
> > interesse.
> >
> > Em 21 de janeiro de 2013 19:27, Joao Marcos <[email protected]>
> escreveu:
> >>
> >> > A explicação em si não esclarece nada.
> >>
> >> Há controvérsias... :-)
> >> (vide os comentários no blog, no sentido contrário)
> >>
> >> > Para passar a ideia, é bom saber dizer a que ela se associa, ou se
> >> > aplica
> >> > ou de que serve saber aquilo. Por exemplo, no caso ensinar que os
> reais
> >> > não
> >> > são um conjunto infinito enumerável soa como "beletrismo" se a pessoa
> >> > não
> >> > souber em primeiro lugar dizer que problemas historicamente motivaram
> os
> >> > matemáticos a diferenciar tipos de infinitos, ou que conceitos
> práticos
> >> > utilizam isso. Por exemplo, falar dos axiomas da geometria, falar dos
> >> > problemas paradoxos depois descobertos, ajuda a contextualizar a
> >> > contribuição de Cantor e depois a entender seus teoremas.
> >>
> >> Não me parece óbvio como o contexto histórico facilitaria a
> >> compreensão do teorema em si.  Posto de outra forma: posso imaginar
> >> perfeitamente como um *matemático moderno* poderia compreender
> >> perfeitamente o argumento matemático da diagonal sem jamais ter ouvido
> >> falar em Cantor.
> >>
> >> * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
> >> * * * * * * *
> >>
> >> Há não obstante um ponto interessante que valeria a pena discutir
> >> aqui, e que diz respeito ao motivo pelo qual o argumento de Cantor foi
> >> muito mal recebido pelo *matemático do século XIX*.  No século XVIII,
> >> um matemático poderia certamente começar um argumento pedindo para o
> >> leitor considerar "um número inteiro arbitrário", ou um "número real
> >> arbitrário", mas NÃO poderia pedir para o leitor considerar um
> >> "conjunto arbitrário" ou uma "função arbitrária sobre os reais" ou um
> >> "algoritmo arbitrário".  O motivo estaria justamente no fato de que
> >> estas últimas entidades não estariam entre aquelas "entidades de
> >> verdade" sobre as quais se poderia quantificar.  Elas não estavam bem
> >> definidas antes dos trabalhos de Cantor, Dedekind, Hilbert, Church e
> >> Turing.  A respeitabilidade destas _entidades_ (no sentido quineano do
> >> termo) são uma contribuição da Lógica Moderna.  Quando Cantor falava
> >> sobre "Menge", em abstrato, ele não era compreendido pelos matemáticos
> >> de sua época (mas pode ser compreendido hoje por um jovem arbitrário
> >> que esteja cursando o Ensino Médio).  A dificuldade de pensar em
> >> abstrato no "Verfahren" que permitiria resolver equações diofantinas
> >> afastava de Hilbert a possibilidade de resolver seu 10o problema (que
> >> ainda teve que esperar até Matiyasevich e Robinson, na recente década
> >> de 70).
> >>
> >> Se Thomas Forster estiver correto no argumento do parágrafo acima, que
> >> adaptei semi-servilmente da Introdução do seu interessante livro
> >> "Logic, Induction and Sets", novos progressos seguirão da nossa
> >> capacidade de estender ainda mais o universo de entidades
> >> matematicamente respeitáveis, adicionando ao nosso repertório, por
> >> exemplo, a possibilidade de falar em "demonstrações arbitrárias" e em
> >> "jogos arbitrários" (os exemplos são do Forster).  [E a isto a área de
> >> Computação, com sua visão _estrutural_ do universo matemático,
> >> contribuirá no século XXI mais do que a Filosofia e a Matemática.]
> >>
> >> * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
> >> * * * * * * *
> >>
> >> O filme sobre Cantor trabalhou exatamente sobre a ideia de que já é
> >> possível compreender o que significa quantificar sobre "enumerações
> >> arbitrárias" --- o que é MUITO interessante.  Antes de Cantor isto não
> >> era compreensível, e neste sentido a perspectiva histórica talvez
> >> possa nos beneficiar.
> >>
> >> Seria interessante ouvir a opinião dos colegas sobre o argumento de
> >> Thomas Forster [independente do que pus entre colchetes].
> >> Joao Marcos
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