Caro Tony,

Concordo inteiramente com as suas considerações. Acredito também que você
enuncia uma hipótese de trabalho ou premissa historiográfica a partir da
qual se podem escrever novas e boas histórias da lógica. Nesse sentido, é
interessante como uma história da lógica depende muito de uma certa
concepção de lógica e da contextualização teórica desta, de conhecimentos
filosóficos e históricos.

Parecem-me extremamente corretas suas considerações acerca do fenômeno da
expansão e do corte em contextos lógico-teóricos. Certamente, Aristóteles
era muito cauteloso com isso. Não pode ser sensata qualquer sistematização
de resultados lógicos, sem a devida consideração de sua pertinência e
adequação ao espírito do que pretendiam seus propositores.

Abraço,
Evandro Gomes.


2013/1/5 Tony Marmo <[email protected]>

> Caro Evandro,
>
> Eu já baixei no ano passado o seu artigo com Ítala e o li antes mesmo de
> me debruçar sobre o trecho referido dos Primeiros Analíticos de
> Aristóteles.
>
> Por que tem sido ignorada essa demonstração cabal contra o ECQ? A resposta
> é que a chamada "matematização" da lógica clássica, que deu origem à lógica
> clássica moderna, foi na verdade um "resumão" da tradição Aristotélica, não
> diretamente do próprio Aristóteles, mas do que seus discípulos puderam
> entender. Os argumentos contra a redução a um cálculo na verdade já
> apontavam que muitos aspectos importantes do pensamento aristotélico tinha
> sido colocado de lado.
>
> Isso dito, vale lembrar que, por outro lado, no século XX várias
> disciplinas surgiram que passaram a estudar, do ponto de vista das ciências
> tecnológicas e exatas principalmente, aspectos que o próprio Aristóteles
> focava e que não tinham um tratamento matemático óbvio ou conhecido. Esses
> novos desenvolvimentos ultrapassam os limites da tradição clássica conforme
> entendida atualmente.
>
> Do meu ponto de vista, o problema todo se resume a colocar no mesmo
> cálculo dois mecanismos traiçoeiros: expansão e corte. Não é bem esse o
> espírito de Aristóteles. Ele fala dos formatos dos raciocínios, mas mostra
> que os formatos não podem ser sobre informação vazia. A informação pode ser
> matemática, pode ser social, biológica, o que seja, mas tem de estar lá.
> Não se expande nem se corta informação arbitrariamente, Aristóteles
> argumenta o tempo todo, tem de a organizar e a manter organizada o tempo
> todo.
>
> Em 5 de janeiro de 2013 14:10, Evandro L. Gomes <[email protected]>escreveu:
>
>>  Caro Tony,
>>
>> Esse é realmente um texto-chave para aquilatar paraconsistência lato sensu
>> em Aristóteles. Tive o primeiro contato com esse texto em 2005, quando
>> preparava um curso de história da lógica que ministrei aqui na
>> Universidade
>> Estadual de Maringá.
>>
>> O resultado do Estagirita é surpreendente e o fato de ter ficado tanto
>> tempo sem ser debatido resulta, provavelmente, de um certo viés equivocado
>> na interpretação da lógica de Aristóteles, excessivamente
>> clássico. Apresento uma proposta de interpretação e contextualização desse
>> texto num paper de 2008, que publiquei com a professora Itala.  Segue o
>> link:
>>
>>
>> http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/principia/article/view/1808-1711.2010v14n1p71
>>
>> Em minha tese - que logo estará pronta - conto melhor essas e outras
>> histórias. Outro equívoco dessa história é atribuir o ex falso ao
>> Pseudo-Escoto.
>>
>> Abraço a todos,
>> Bom ano!
>>
>> Evandro Gomes.
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