Mensagem do nosso colega do instituto de fisica da UFRJ, Luiz Felipe Coelho:
Prezado colega Tomo a liberdade de encaminhar este mail para discutir a greve docente decretada pela ADUFRJ e para enfatizar a importância da sua presença na próxima assembléia da ADUFRJ, que se realizará nesta quarta, às !2:30, no auditório do Centro de Tecnologia (bloco A do edifício do CT). Caso não seja professor da UFRJ ou receba este e-mail em duplicata, peço desculpas pelo equívoco. A greve foi decretada numa assembléia com 150 votos favoráveis e depois reafirmada numa assembléia com 200 votos favoráveis. Considerando que a UFRJ tem quase 4000 professores esta greve foi decidida por cerca de 5% dos professores para ser "construída" depois convencendo os restantes, como foi dito nessa segunda assembléia por um membro da direção da ADUFRJ. Nessa segunda assembléia esse espírito apareceu também na fala de diversos representantes de unidades que diziam que nas reuniões de suas unidades não foi colocado se a unidade devia ou não entrar em greve, isto já estava primeira decidido pela assembléia e cabia aos professores entrar em greve ou “furar a greve”. Isto independentemente do quorum extremamente baixo e que já ocorreu em outras assembléias da ADUFRJque decidiram greves no passado. Uma solicitação histórica para compensar o quorum muito baixo de assembléias é fazer uma consulta eletrônica aos docentes, com encaminhamentos contra e a favor, para confirmar ou não o resultado das assembléias. Esta solicitação, de implementação banal e de profundo caráter democrático, foi feita repetidas vezes por professores e foi repetidas vezes negada por direções passadas da ADUFRJ. Ela foi feita de novo pelo representante do IF na última assembléia e foi negada de novo. Porque o quorum baixo das assembléias?, isto é o que a direção da ADUFRJ precisa se perguntar. Houve um desgaste progressivo da imagem da ADUFRJ e da ANDES nestes trinta anos, principalmente devido ao abuso de greves anuais por tempo indeterminado como única ação do movimento docente, com pautas e calendário definidas de forma pouco democrática pela ANDES. É impossível parar no tempo por 3 décadas, hoje o Brasil e a UFRJ são mais democráticos, mais complexos e mais desenvolvidos, as pessoas não aceitam mais análises primárias sobre a UFRJ, a universidade brasileira, o Brasil e o mundo, levando a pautas e a métodos de ação que são sempre os mesmos. Como as pessoas também não aceitam pautas de reivindicações e formas de encaminhamento decididas pela ANDES, e não por elas, aí julga-se necessário considerar representativas assembléias que não o são. Há certamente reivindicações específicas importantes (salariais e de carreira) não são as tradicionais "bandeiras históricas do Movimento": anti-avaliação, anti-produtivismo, pro-isonomia, anti-neoliberalismo, etc, etc. Essencialmente nós professores queremos uma universidade que seja de qualidade e não burocraticamente engessada por normas e por corporativismos, nós queremos produzir, criar, inventar, descobrir, criar e ensinar, com os alunos participando de tudo e com o apoio eficiente de servidores técnicos e administrativos. Queremos mais ensino, mais pesquisa, mais inserção na sociedade e melhor administração para viabilizar tudo isso, queremos o futuro. Nada mais distante desse sonho do que as “bandeiras históricas”, a olhar para o passado. Além desse problema de legitimidade (a categoria não votou pela greve e a direção da ADUFRJ tenta a posteriori convencê-la) a greve é fraca devido a uma pauta ambiciosa e confusa que discuto num anexo. A greve também é fraca devido à sua conotação partidária anti-PT (o deputado Babá do PSOL foi um dos oradores da última assembléia, e é só olhar os jornais e as faixas da ADUFRJ e da ANDES). Quer sejamos eleitores do PT ou não, acredito que a maioria discorda de atos institucionais da UFRJ apoiando o PT, o Lula ou a Dilma, através de manifestos eleitorais ou da concessão de diplomas, mas também acredito que a maioria desaprova fortemente que a ADUFRJ faça o mesmo com fins anti-PT. A UFRJ e a ADUFRJ não podem ter ou tomar partido. Essas razões tornaram a greve numa greve amplamente minoritária, cujos proponentes não tem coragem de submeter suas propostas ao voto universal dos docentes. No entanto esses mesmos proponentes (a direção da ADUFRJ e cerca de 20 professores) foram nesta última quarta ao Conselho de Ensino de Graduação para pedir que a greve fosse tornada obrigatória através da suspensão do calendário escolar, o que leva a adiar sine die o começo do segundo semestre! Para esses colegas o professor que avisou seus alunos que não entraria em greve, e portanto deu aulas e aplicou provas, terá que fazer o mesmo para os alunos que tiverem entrado em greve, ou seja, terá que fazer duas vezes o mesmo trabalho. Nas palavras de um docente representante do CCJE no CEG "o direito coletivo é superior ao direito individual", ou seja, os professores são obrigados a obedecer os 5% da assembléia da ADUFRJ e não tem direito de decidir quanto a entrar ou não em greve. Essa posição foi aplaudida por outro docente do CCJE que, pasmem, é da Faculdade Nacional de Direito e do Comissão de Ética da greve da ADUFRJ! O professor que não obedece à decisão da assembléia é, na opinião desses e de outros docentes, uma pessoa problemática que tem que se submeter a essa "maioria" de 5%. Isto até soa bem, a administração realmente flui melhor se todos obedecem a ordens, mas a droga é que idéia de que os direitos individuais se anulam perante uma decisão da autoridade superior, legítima ou não, é arrepiantemente autoritária, lembra a União Soviética do passado em que dissidentes eram internados em hospícios. Além disso a universidade sempre foi um terreno de liberdade, até durante ditaduras. O Conselho de Ensino de Graduação (que no passado já fez deliberações infelizes deslegitimando qualquer aula ou prova dada por professores que não aderiram à greve, fazendo um locaute), desta vez tomou apenas a decisão de apenas suspender os atos acadêmicos (inscrição, trancamento, lançamento de notas, etc) ou seja os professores poderão entrar ou não em greve e, ao final da greve, eventuais casos problemáticos serão discutidos pelas unidades com direito de apelação ao CEG. Esta decisão foi tomada após ouvir representantes de três unidades, de três centros distintos (CLA, CCS e CFCH), informando que as suas unidades não estavam em greve ou seja pelo menos em 3 casos suspender o calendário é uma violência. A reunião na verdade começou com uma declaração da Pro-reitora dizendo que o calendário "na prática" já estava suspenso. Essa opinião dela foi referendada pela maioria do CEG e significa que os cursos onde não há greve terão que adiar o início do segundo semestre e provavelmente este irá terminar em janeiro ou fevereiro. O direito dos docentes de esperar que seja seguido o calendário aprovado pelo CEG e pelo Consuni é assim desrespeitado, sem que a Administração da UFRJ julgue necessário consultar os docentes. Hoje temos dois calendários acadêmicos: o do curso de Medicina e os demais cursos. Ao invés de suspender estes dois calendários o óbvio seria criar um terceiro para os cursos que entraram em greve, onde os atos acadêmicos seriam suspensos para terem seus prazos definidos ao final da greve, mantendo os dois calendários originais para os cursos que não estivessem em greve. Só que essa proposta tornaria evidente que a greve não é unânime , aí ela parece ser impensável quer para a direção da UFRJ (PR-1 e CEG) quer para a ADUFRJ. Adicionalmente todos nós sabemos que a ADUFRJ fará campanha de desinformação dizendo que os professores não-grevistas (essas pessoas problemáticas...) serão obrigados a repor as aulas e as provas que já deram, pois isso já foi dito nesta mesma reunião do CEG pela representante do docente da FND, que declarou ser da "Comissão de Ética" da greve da ADUFRJ. Solicito assim ao colega que compareça à próxima assembléia da ADUFRJ para encerrar essa greve que se apoia nesses artíficios administrativos para tentar torná-la num locaute, não uma greve democrática em defesa de uma universidade de qualidade. Essa greve tenta e já conseguiu, desorganizar o nosso calendário para 2013 e talvez 2014, prejudicando alunos e professores, e vai na contra-mão da luta por uma universidade de qualidade no ensino, na pesquisa e na extensão e com democracia interna. No momento temos preocupantes deficits democráticos na ADUFRJ e na UFRJ. Atenciosamente, Luiz Felipe Coelho (ex-representante do IF na ADUFRJ e ex-representante dos docentes do CCMN no CEG, onde estive 5 anos) _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
