Olá, Julio Cesar:

Confesso que não conheço o trabalho de Constance Jones para além de
uma rápida leitura no verbete recente sobre ela da SEP que eu próprio
divulguei há alguns meses aqui na lista...  Acrescento portanto apenas
alguns breves comentários sobre alguns dos pontos que você levantou.

> 1- A questão sobre a polivalência dos valores de verdade:
> se qualquer proposição "S é P" é uma Identidade de Denotação
> na Diversidade de Intenção (usando aqui já os termos da
> Constance Jones), isso quer dizer que a própria relação
> de "pertencer a um conjunto" ou "cair sob um conceito" também
> pode ser assim analisada. Ou seja, "A pertence ao conjunto B"
> ou "A cai sob o conceito B" deve ser entendido como "aquilo
> denotado por A é igual a um subconjunto daquilo denotado por B".
> O que quero dizer é que se ela estiver correta (isto é, se os
> predicados forem mesmo "implicitamente quantificados") e toda
> proposição então se reduzir a relações de identidade (semântica!)
> então dado um Sujeito e um Predicado qualquer, as opção possíveis
> são apenas se suas denotações são iguais ou diferentes, ou seja,
> apenas Verdadeiro ou Falso, não sendo possível um outro valor
> lógico (o princípio de bivalência seria talvez uma consequência
> em se aproximar a Lógica e a Semântica da maneira como ela o faz)

Não me parece que seja ponto pacífico na literatura o quanto a
proposta de Constance Jones sobre diversidade intensional realmente
diferiria da hoje mais conhecida proposta fregeana, posterior, de
distinção entre diferentes sentidos para uma mesma denotação...

No que diz respeito à proposta fregeana, de todo modo, creio que vale
a pena citar a interpretação que Roman Suszko, um dos mais iminentes
defensores recentes do princípio da bivalência no domínio do
multi-valorado.  Para Suszko os diferentes sentidos / intensões
estariam refletidos na abordagem algébrica, que ele reputava como uma
"farsa", enquanto que os valores lógicos corresponderiam, estes sim, à
denotação (Bedeutung).

(Posso lhe passar referências sobre o assunto, caso deseje.)

A questão é: será que haveria no caso da proposta suszkiana uma
coincidência de interpretação com relação ao que você apontou acima?

> 2 - Outro ponto, é que isso mostra a 'estranheza' em se falar de
> Sistemas Formais Não-Interpretados, onde uma estrutura
> Semântica seria 'opcional'. Pode talvez ser possível mostrar
> que ao menos na metalinguagem é sempre necessário uma
> semântica anterior à sintaxe, pois todo Axioma, Definição ou
> Regra de Inferência precisa ser expresso em uma proposição
> (uma "Asserção Significativa" e, novamente, desculpe o abuso
> de linguagem mas do que valeria uma expressão, lei, princípio
> ou regra sem significado?) ou seja, qualquer sintaxe é logicamente
> dependente de uma interpretação semântica, e não haveria assim,
> sistemas não-interpretados, pois símbolos meramente jogados
> num papel não passam disso: rabiscos num papel
> (Naturalmente, isso precisa ser melhor trabalhado e especificado,
> não sei se consegui ser claro ou suficientemente 'não-ingênuo' ;)

Há uma anedota que diz que uma das vantagens de se ser um formalista é
que você não precisa entender o que está fazendo. :-D

Vamos ver mais uma vez se consigo esclarecer o que eu pretendia
defender, na sequência de mensagens contra "consequência sintática".
No sentido que eu proponho para o uso do termo "sintaxe" (que, de
resto, é o sentido usual do termo na literatura
linguístico-computacional), os mencionados rabiscos no papel, ou as
letras deste email, realmente são símbolos não-interpretados (que
outra coisa eles poderiam ser?).  No entanto, é óbvio que não é assim
que _nós pretendemos que eles permaneçam_, e não é por outro motivo
senão a nossa pretensão de _comunicar algo com sentido_ que nos damos
ao trabalho de inventar linguagens baseadas em conjuntos de rabiscos
que admitimos como "bem-formados", e em seguida nos damos ao trabalho
de imputar uma interpretação mais ou menos precisa a esta linguagem, e
ensiná-la aos nossos coetâneos.  Nos esforçamos inclusive por criar
linguagens que sejam bem projetadas, afinal uma boa escolha de
formalismo frequentemente vale mais do que mil palavras.  Veja por
exemplo o que Church escreveu a este respeito:

The superficial linguistic analogy of ... two arguments is deceptive.
Because of this, it is desirable or practically necessary for purposes
of logic to employ a specially devised language, a formalized language
as we shall call it, which shall reverse the tendency of the natural
languages and shall follow or reproduce the logical form -- at the
expense, where necessary of brevity and facility of communication.  To
adopt a particular formalized language thus involves adopting a
particular theory or system of logical analysis.
--Church 1956

Já alcançamos uma clareza conceitual hoje em dia, eu diria, para
enxergar muitas coisas que no passado não pareciam tão claras.  Nos
trabalhos de Russell e Frege, por exemplo, dentre tantos outros
trabalhos de precursores da lógica moderna, a distinção entre
demonstração e verdade não estava clara, como já sabemos.  Nos
trabalhos de muitos de nossos tataravós científicos também não estava
clara a distinção simples entre a sintaxe pura e o "sistema" dedutivo
subjacente a ela, a distinção importante entre a "linguagem
formalizada" e a particular "teoria" lógica na qual esta linguagem é
empregada.  Hoje já temos claras todas estas distinções, mesmo que
nossos idioletos por vezes ainda estejam contaminados por termos de
outrora, que hoje já não fazem qualquer sentido.  Era sobre _isto_ que
tratava o meu alerta original (que após a discussão que se seguiu
acabou me parecendo menos banal do que eu imaginava que seria).

> 3- Um adendo extra; sobre o Importe Existencial (olha eu aqui
> talvez revirando múmias!): se os predicados forem mesmo
> implicitamente quantificados, isso 'restauraria' novamente
> o importe existencial de "Todo A é B" para "Algum A é B", não?
> Se "Todo A é B" significa "Todo A é algum B", essa quantificação
> no predicado (que envolve a igualdade de A com algum B) já não
> é suficiente para garantir a existência de algum A?

Nada tenho a acrescentar sobre isso...  Não seria verdade que a teoria
russelliana da denotação neste ponto foi ainda mais além, corrigindo
mesmo algumas deficiências da proposta de Constance Jones?

Abraços,
Joao Marcos

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