Lógica X TDHA Mesmo sabendo dos seus onze dedos Bom Tainah, faz tempo que quero te dizer algo. É sempre difícil começar, mas toda vez que se diz isso o início já foi promovido, e assim, dizer “é difícil começar” é uma ótima forma de começar, e diria até uma forma fácil de começar. Pensando bem, nem sempre é tão difícil assim começar. De todo modo eu já comecei, mas não exatamente a dizer o que queria. Isso é estranho, pois parece que comecei e não comecei, o que seria impossível. Mas é só uma contradição aparente. Sei disso Tainah, porque sou lógico. E sou lógico porque precisava controlar meu déficit de atenção. Talvez você não tenha notado ainda, mas eu mudo muito de assunto, e peno muito para chegar no que interessa de verdade, e precisamente por essa razão, eu recorri à razão, digo, à lógica. Queria estruturar minhas ideias, e ser atento a tudo que falo. E sou! Mas é um problema ser um lógico com déficit de atenção, prestar atenção em tudo que se fala faz com que se torne necessário comentar tudo que se diz. Eu estou sempre comentando minhas afirmações! Espera, na verdade, cada comentário sobre uma afirmação é uma nova afirmação, nesse caso se eu estivesse sempre comentando minhas afirmações eu estaria até hoje fazendo apenas um comentário, de um comentário, de um comentário… de um comentário da primeira afirmação que fiz. Nesse caso, eu acho que não é sempre que eu comento minhas afirmações. De todo modo, o período anterior é um comentário do que vem antes dele, e este período é também um comentário do anterior (ok, parei). Falei alguma coisa sobre déficit de atenção e ser atento às minhas frases. É algo que gostaria de comentar, mas entendo que não devo fazer isso pela sua cara de inquietação. 1– Vamos ao que interessa então? 2 – Ao que interessa. Digo, o que eu acho que pode te interessar, sem pretensão, é claro. 3 –Prossiga. 4 – Eu sei que você tem onze dedos, mas, quero te conhecer melhor. 5 – Eu tenho o que?! 6 – Por favor, não fique brava. Calma! 7 – Você deve ser louco! 8 – Não, louco não. Tenho déficit de atenção, eu já disse isso? 9 –Você disse que eu tenho 6 dedos em uma mão, disse que queria me conhecer melhor e não é maluco? 10 – Não! Eu não disse que você tinha 6 dedos em uma mão. Disse que tinha onze dedos. E acho que ainda tem. 11 – Ah, você insiste nessa insinuação de que eu tenho 11 dedos. 12 – Eu não insinuei nada, eu afirmei. E note uma coisa, essa afirmação eu não comentei, embora você esteja fazendo isso. Você é uma lógica com déficit de atenção Tainah? 13 – Não sei porque ainda não fui embora. Mas não fuja do assunto, você vai me explicar essa sua asneira direitinho. 14 – Tem razão, desculpe. Não mudo mais de assunto. É uma das minhas características enquanto DDA. DDA é uma das abreviações para o déficit de atenção, mas já está meio em desuso agora é TDAH. Gosto mais de DDA. 15 – Eu só vou dizer essa vez. Volte ao assunto A-GO-RA. 16 – Foi mal. Onze dedos, tem razão. 17 – Ah vá à merda. Então que dizer que eu só tenho onze dedos, é isso seu retardado? E quem te disse isso? 18– É, mais uma vez você está botando palavras na minha boca, eu não disse que você tem apenas onze dedos. 19 – Então eu agora sou louca e entendo as coisas erradas para botar palavras na sua boca. 20 – Não, claro que não estou dizendo que você é louca e entende as coisas da forma errada. Eu estou dizendo apenas que você entende as coisas da forma errada. 21 – E qual é a diferença? 22 – A diferença é que eu não disse que você é louca. Só disse uma das partes da conjunção. Na verdade nem disse, só pensei. 23 – Então pode ter pensado também que eu sou louca. 24 – Sim, é claro que eu posso ter pensado também que você é louca, tudo que é possível é passível de pensamento, mas nem tudo que é passível de pensamento é possível, eu acho. 25 - Então pensou que eu sou louca. 26 – Não disse que pensei que você é louca, só disse que poderia ter pensado. 27 – Acha então que eu sou burra e esqueci a razão dessa conversa? 28 –Pelo contrário, acho você muito inteligente. E tudo bem, podemos voltar à história dos onze dedos. 29 – Como diz que quer me conhecer fazendo um insulto desses? 30 – Sei que não é o jeito certo de dizer que se quer conhecer alguém fazendo um insulto a essa pessoa. Mas não era isso que eu pretendia Tainah. 31 – Ah tá, você queria me dizer que eu tenho onze dedos, mas não queria me ofender. Meio estúpido. 32 – E o que tem de errado em dizer que você tem onze dedos? 33 – Sua mãe deve ser uma bela de uma puta. – Acho que se Tainah existisse não diria isso. 34 –Mamãe?! 35 – Tudo bem, sua mãe não tem nada a ver com isso – Ah, ok, foi só um surto de Tainah – tenho que me concentrar no idiota que diz que eu tenho mais dedos que os outros. 36 – Não é bem assim, o fato de eu dizer “não disse que você tem apenas onze dedos” não implica que eu esteja dizendo que você tenha mais dedos que os outros, de fato pode ter até menos. 37 – AAAHHH! Sua mãe tem onze dedos! – Parece que ela ficou realmente irritada. 38 – Tem sim. 39 – E você tem onze dedos, seu idiota. 40 – Tenho. 41 – E seu pai tem onze dedos. 42 –Bem, tinha. 43 – É um problema de genético? 44 – Acho que não chega a ser um problema, a maioria das pessoas que eu conheço são como nós. Só que provavelmente é genético. Além disso, as que não são também não considero como se tivessem um problema. 45– Mas você não disse que tem onze dedos junto com sua família?! 46 – Sim, tenho. 47 – E disse também que as outras pessoas eram assim?! 48 – Sim, disse. 49 – Então! Que palhaçada é essa? 50 – Que palhaçada? 51 – De dizer que a maioria, que na verdade tem vinte dedos, tem onze. 52 – E quem tem vinte não tem também onze? 53 – Tem. 54 –Então. 55 – Você queria dizer desde o início que uma vez que eu tenho vinte dedos eu obrigatoriamente tenho onze? 56 – Sim, era isso que eu queria dizer desde o início. 57 – Mas eu pensei que você tivesse dito no início “ Eu sei que você tem onze dedos, mas, quero te conhecer melhor” 58 – Foi isso que eu disse. 59 – Nesse caso você quis dizer que “ Eu sei que você tem onze dedos e quero te conhecer melhor”. 60 – E não é a mesma coisa? Eu só estou afirmando que quero te conhecer melhor ao mesmo tempo que estou afirmando que você tem onze dedos. 61 –Tá bom, eu admito que as frases dizem a mesma coisa nesse caso. Por outro lado, o que você disse foi apenas que eu tenho vinte dedos, mas, todo mundo tem vinte dedos. 62 – Sim, a maioria das pessoas tem. 63 – E a razão desse papo é me dizer que eu sou igual aos outros? O que exatamente você quer dizer com sua afirmação? 64– É que você é igual aos outros, mas se eu quero te conhecer, e não quero conhecer os outros, então você não é igual aos outros. E isso é uma contradição. 65 – Assim, a conclusão a que eu devo chegar é que você está apaixonado por mim? 66 – Bem, de uma contradição tudo se segue. _______________________________________________ Logica-l mailing list Logica-l@dimap.ufrn.br http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l