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> Gödel com se sabe trabalhou a partir do livro do Hilbert e Ackerman
> que tem pouco a ver com Frege.
> E o Hilbert que formalizou as coisas da forma que se aproxima mais
> de como a gente trata a logica de predicados hoje em dia

Jean-Yves é um polemista nato, como muitos aqui devem saber, mas minha
opinião pessoal, neste caso, é de que esta crítica à tendência de
situar Frege como "pai da lógica moderna" não é NADA absurda.  Os
conceitos de "moderno" e de "lógica moderna", evidentemente, variam o
tempo inteiro, mas não me parece nem um pouco clara qual seria a linha
histórica contínua que uniria Frege à "lógica matemática" ou mesmo à
"lógica filosófica" que fazemos na contemporaneidade.  Frege parece
ter sido pouco lido e ter tido pouquíssima influência nos
desenvolvimentos realmente notáveis que se seguiram --- os quais
passaram claramente por Skolem e Tarski.

O recente "The Handbook of the History of Logic" talvez ajude a
esclarecer o mito criado em torno de Frege e o "nascimento da lógica
moderna".  O volume 3 do Handbook se chama "The Rise of Modern Logic
I: Leibniz to Frege" (http://www.johnwoods.ca/HHL/#Vol3), e o volume
5, que deve ser publicado em breve, se chama "Logic from Russell to
Church" (http://www.johnwoods.ca/HHL/#Vol5), e conterá em particular
um artigo muito elogiado intitulado "Gödel's Logic", de Mark Van Atten
e Juliette Kennedy.

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> Nao acho exagerado dizer que a influencia do Frege sobre Gödel foi zero.

Consta, por outro lado, da (também excelente) biografia de Hilbert
feita por Constance Reid afirma-se que Gödel e Hilbert JAMAIS se
corresponderam, e isto se reflete de fato nos volumes IV e V de
"Selected Correspondence" do "Collected Works" de Gödel, onde se podem
ler contudo cartas de Gödel para Bernays, Büchi, Carnap, Church, Paul
Cohen, Herbrand, Heyting, Robinson, Tarski, Ulam, von Neumann, Popper,
Emil Post, Russell, Skolem, Suppes, Zermelo, obviamente Hao Wang e o
próprio van Heijenoort, entre outras figuras.

* * *

Digo mais, pra finalizar: poderíamos com muito mais razão chamar
Frege, quando muito, de "pai da filosofia analítica", a começar pela
releitura sensacional que ele fez da epistemologia kantiana, já desde
o Begriffschrift (que seria novamente subvertida várias décadas mais
tarde, pelo Kripke de "Naming and Necessity", e que podemos deixar
para discutir em outra linha de mensagens).  A este propósito
recomendo a todos, aliás, a leitura do excelente livro "Frege, an
introduction to the founder of modern analytic philosophy", de Anthony
Kenny.

Nada do que afirmo acima, em princípio, parece ir diretamente contra o
que o Luiz Henrique defende em seu livro, que ainda não tive a
oportunidade de ler.  Sem querer me meter a historiador da "lógica",
ou da "filosofia da lógica", ainda assim me parece importante não
confundir "lógica" com "filosofia analítica", e não super-estimar
conexões históricas que de fato não existem, ou que são na realidade
bem mais tênues do que alguns gostariam que fossem.

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JM
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