Olá Edson,

Acho que aqui tu ta forçando a barra. Uma coisa é ter a preocupação com o 
sentido da vida, outra muito diferente é mostrar que é logicamente possível 
admitir contradições que estão presentes no cotidiano por tê-las notado em 
sessão de psicanálise ou na leitura de um texto de Freud. Acho que o Dória pode 
deixar isso mais claro do que eu, mas do texto abaixo não se segue uma 
preocupação com o sentido da vida ou com a salvação apenas com as contradições 
em três tipos de discurso, o da psicanálise, o do marxismo e o da matemática.

Abraço a todxs*,
Dídimo Matos
http://didimomatos.zip.net
* x=<o,a>
_______________________
As explicações científicas são reais e completas, 
tal como as explicações da vida quotidiana e das religiões 
tradicionais. Diferem destas últimas unicamente por serem mais 
precisas e mais facilmente refutadas pela observação dos factos.


From: Edson Dognaldo Gil 
Sent: Wednesday, October 01, 2008 3:45 PM
To: Dídimo Matos 
Cc: [email protected] 
Subject: Re: [Logica-l] Poeta, poeto e poetisa


Dídimo,
Claro que se pode filosofar sobre qualquer coisa, até sobre futebol e
piada, p.ex. A filosofia só começou a ramificar-se na Idade Moderna,
quando aliás as ciências começaram a se separar dela. Filósofo
especialista é coisa recentíssima. Não vejo problema em alguém ser
especialista numa disciplina filosófica, uma vez que todas as
disciplinas filosóficas têm a mesma raiz: o que importa é não cortar a
raiz! Você cita o Da Costa, o que vem bem ao caso. Você sabia que o
que levou o grande lógico brasileiro a investigar a paraconsistência
foi, antes de tudo, a procura pela cura psicológica? E a cura não é um
tipo de salvação? Se não acredita, leia você mesmo a seguir.
Abraço, edg

PSICANÁLISE & LÓGICA

Newton C.A. da Costa:

Comecei a me preocupar com a lógica paraconsistente, basicamente, por
três motivos. O primeiro foi que, desde jovem, tive vários problemas
de natureza psicológica, e sendo meu avô psiquiatra e minha mãe uma.
grande admiradora de Freud, naturalmente fui levado à teoria de Freud,
para ver se conseguia me "curar". Em particular, me interessei muito
por seus discípulos, principalmente F. Alexander, cuja teoria conheço
relativamente bem e procurei empregar para me "autocurar". Além disso,
depois, muitos anos depois, estive durante quatro anos em tratamento
psicanalítico. Então, com essa experiência, comecei a ver que; no que
posso chamar de discurso analítico, no sentido de diálogo entre a
pessoa que está sendo psicanalisada e o psicanalista, evidentemente há
contradições. Há contradições em sonhos. Eu cansei de ter sonhos, se
bem me lembro, que eram evidentemente contraditórios. Ouvia coisas e
fazia coisas que eram contraditórias. Então, pensei cá comigo, também
com base em alguns textos de Freud: é possível formalizar um tal
discurso? O segundo motivo que me levou aos estudos sobre
paraconsistência foram minhas preocupações com o socialismo,
especialmente com Marx. Sempre gostei muito dele, embora não o aceite
in totum; hoje em dia estou meio afastado de Marx, mas a filosofia
marxista, pelo menos em algumas de suas interpretações, admite a
existência de contradições. Aparentemente, algumas interpretações de
Hegel também. E por essas e outras razões, isto é, para ver se era
possível, de algum modo, codificar, formalizar, alguns aspectos do
pensamento dialético, foi que me preocupei com a paraconsistência. Não
tanto que eu quisesse legitimar o pensamento dialético através de uma
nova lógica, mas simplesmente para evitar raciocínios do seguinte
tipo: Popper, num artigo célebre, What is Dialetic?, diz que a
dialética é impossível - se realmente ela contém contradições, como na
lógica clássica não é possível haver contradição, quer dizer, se
houver contradição, isso "trivializa" a teoria, logo, a dialética
seria "trivial". Assim, poder-se-ia demonstrar a impossibilidade da
dialética com base na lógica Então, pensei que se conseguisse
construir um novo tipo de lógica, que permitisse que as contradições
fossem aceitas e não esbarrasse em trivialização, então seria possível
que esse argumento de Popper não se aplicasse mais à dialética. Quer
dizer, a dialética não poderia ser criticada do ponto de vista
puramente lógico. Isso não legitima a dialética simplesmente mostra
que um argumento deste tipo contra a dialética não vinga. E a terceira
razão foi que, desde jovem, dediquei-me à matemática, estudando
especialmente a teoria dos conjuntos e certas dificuldades que nela
apareceram no começo do século e que se chamam antinomias cantorianas,
ou paradoxos cantorianos, ou as contradições da teoria dos conjuntos.
Pensei, então, que, ao invés de adotar uma solução para superar essas
dificuldades, que consiste em se manter a lógica usual e, vamos dizer
assim, mutilar grande parte da teoria dos conjuntos, por que não fazer
ao contrário? Manter a teoria dos conjuntos com suas antinomias, etc.,
desde que se modifique a lógica subjacente.

Esses foram os três principais motivos que me levaram ao estudo
sistemático da lógica paraconsistente. Repito: problemas de caráter
psicológico, via psicanálise; problemas referentes à dialética; e
problemas matemáticos de caráter extremamente técnico, sobre os quais
não tem sentido falar aqui. Com o correr do tempo, tive que porfiar
muito para poder desenvolver minhas idéias, pois elas eram
demasiadamente heterodoxas.



2008/10/1 Dídimo Matos <[EMAIL PROTECTED]>:
> Olá Edson,
>
> Sei o que é um filósofo, e sei o que não é um filósofo, mas não sei o que é
> um filósofo tradicional em contraposição a, que mesmo? Filósofo não
> tradicional?
>
> Penso que não há um assunto sem o qual a filosofia não seria filosofia. Um
> dos maiores filósofos brasileiros de todos os tempos, Newton da Costa, nunca
> tratou, ao que eu saiba, do sentido da vida ou da salvação e não sei no que
> isso o reduz como filósofo ou o faz um filósofo não tradicional, seja isso o
> que for.
>
> Há diversos ramos na filosofia e não sei como dedicar o seu trabalho a um
> deles o reduz como filósofo. É quase certo que todos os filósofos desde
> sempre se dedicaram a mais que um ramo mas nem todos se dedicaram a todos e
> não vejo nenhuma redução no tamanho deles por isso.
>
> Abraço a todxs*,
> Dídimo Matos
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