Posto de observa��o

 Uma das id�ias que sustenta o software livre baseia-se no
 pressuposto de que o trabalho em inform�tica � basicamente
 cooperativo. Muito dificilmente um programador, ou mesmo uma
 equipe de programadores, seria capaz de criar sozinha, a
 partir do zero, todos os c�digos necess�rios para o
 funcionamento de um software. No trabalho, sempre haveria, em
 alguma medida, o reaproveitamento, a reutiliza��o do trabalho
 alheio. Assim, a deten��o do direito autoral sobre
 determinados programas n�o se justificaria, j� que o trabalho
 � eminentemente coletivo. Al�m disso, imagina-se que, quanto
 maior for compartilhamento dos c�digos de um programa, melhor
 este ser�, j� que haver� um grande n�mero de possoas
 trabalhando colaborativamente.

 Oliveira coloca a liberdade de c�pia como um dos maiores
 entraves das solu��es livres. Por causa dessa liberdade, n�o
 haveria est�mulo para o desenvolvimento, pois os investidores
 n�o financiariam um produto sobre o qual n�o poderiam cobrar.
 Ele defende as leis de propriedade intelectual, que foram
 bastante enrigecidas em meados da d�cada de 90, como
 promotoras do "fant�stico desenvolvimento da ind�stria de
 tecnologia". Ao fazer essa defesa, acaba dando a impress�o,
 de maneira indireta, de que a comunidade livre defende a
 c�pia ilegal, indevida. Ao contr�rio, o que a comunidade
 pretende � a institui��o de um novo modelo de prote��o, a
 licen�a GPL (General Public License), por meio da qual o
 desenvolvedor coloca o seu trabalho � disposi��o do p�blico
 sem restri��es, apenas garantindo a manuten��o da autoria e
 dos princ�pios de utiliza��o da licen�a (liberdade de c�pia,
 compartilhamento e utiliza��o). Ningu�m � mais antipirataria
 do que a comunidade do software livre, que desenvolveu um
 sistema operacional pr�prio, o GNU/Linux, para, entre outros
 motivos, deixar de usar sistemas propriet�rios como o Windows.

 A palavra "liberdade" talvez seja um dos maiores focos de
 tens�o entre os defensores do software livre e do software
 propriet�rio. Ambos os grupos afirmam defender a liberdade.
 Entretanto, enquanto o primeiro a busca em sua atividade
 cotidana de desenvolvimento e tamb�m para o usu�rio, o
 segundo enfatiza a "liberdade de escolha" que as
 administra��es p�blicas deveriam ter para escolher seus
 softwares, criticando as leis que instituem a prefer�ncia
 legal por determinadas tecnologias.

 Entre os grupos, a interpreta��o sobre o que � e qual deve
 ser a liberdade � bastante diferente. Os "propriet�rios"
 defendem a liberdade do neoliberalismo, ou seja, aquela em
 que o Estado deve interferir o m�nimo no com�rcio dos
 produtos, a n�o ser que seja para defender os direitos de
 propriedade (direitos autorais). Os "livres" postulam uma
 liberdade quase an�rquica (o que est� muito longe do sentido
 de bagun�a). Talvez nessa avers�o �s leis possa ser entendida
 a relut�ncia manifestada por Marcelo Branco em defender uma
 legisla��o que institua a prefer�ncia pelos sistemas livres.

 Os defensores do software livre e do software propriet�rio
 filiam-se a grupos ideologicamente distintos. Como toda
 filia��o, ela n�o � direta, homog�nea, un�voca e aceita por
 todos - � muitas vezes recha�ada por membros importantes e
 cheia de contradi��es. Mas � imposs�vel deixar de notar a
 afinidade entre o ide�rio neoliberal, que parece ter vivido
 seu apogeu nos anos 90, e o grupo dos "propriet�rios"; do
 mesmo modo como � clara a afinidade entre os "livres" e o
 novo ide�rio expresso nas manifesta��es antiglobaliza��o,
 cujos grandes exemplos s�o Seattle, G�nova e o F�rum Social
 Mundial. Portanto, faz sentido a presen�a de Richard
 Stallman, um dos gurus do software livre, no F�rum Social
 Mundial, em Porto Alegre, e a assiduidade de Bill Gates, em Davos.

 Com estrutura que favorece as grandes corpora��es e os
 investimentos financeiros, com sua defesa de um
 desenvolvimento tecnocient�fico voraz e acelerado, que
 sucateia rapidamente os produtos criados, o esquema
 propriet�rio se encaixa perfeitamente no modelo de
 desenvolvimento pretendido pelo neoliberalismo. Alguns
 soci�logos t�m apontado como uma das caracter�sticas da
 tecnoci�ncia, ligada � atual fase do capitalismo, essa
 acelera��o desenfreada. Ao mesmo tempo, a impress�o de
 realismo (daquele que conhece o cotidiano do mercado), dada
 pelo discurso de Oliveira, � similar � que funciona quando a
 imprensa classifica toda manifesta��o neoliberal como
 "realista" enquanto rotula as falas dissonantes como
 "ut�picas" e "ing�nuas".

 Recentemente o historiador ingl�s Eric Hobsbawm disse que a
 elei��o do presidente Luiz In�cio Lula da Silva foi uma
 resposta do pa�s ao mercado e ao neoliberalismo representado
 pelo Consenso de Washington. Um dos lugares para se observar
 se esse � um cap�tulo que se encerra na hist�ria brasileira
 ser� revelado pelos debates em torno da op��o tecnol�gica a
 ser feita. A conferir.

 Revista Consultor Jur�dico, 16 de janeiro de 2003.




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