Por *Karla Dunder *e *João Luiz Sampaio*
em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br/>
11 junho 2006

E se pudéssemos reunir em um só lugar todo o conhecimento colhido através
dos tempos? Foi com esse intuito que surgiu em 280 a.C. a Biblioteca de
Alexandria que, segundo historiadores, chegou a contar com 70% da produção
da época. Séculos depois, com a chegada da internet e iniciativas como a do
Google <http://books.google.com/> - que está digitalizando o acervo completo
de cinco das maiores bibliotecas do mundo - só fizeram o sonho de um futuro
de obras digitalizadas, acessíveis pelo computador, parecer cada vez mais
próximo. Na semana passada, porém, o grupo editorial francês La
Martinière<http://www.lamartiniere.fr/>denunciou o Google por "ataque
ao direito de propriedade intelectual". É
apenas um entre muitos indícios de que, do temor pelo desaparecimento do
livro como o conhecemos à questão dos direitos autorais, a criação da
superbiblioteca virtual é um empreendimento mais complexo do que se supunha.
E de que previsões como a dos editores americanos - que, em 2000, reuniram a
imprensa para anunciar que, até 2005, 10% do mercado editorial seria digital
- foram um tanto precipitadas.

O projeto do Google inclui instituições como a Universidade de
Stanford<http://www.stanford.edu/>,
onde um robô scaneia mil páginas por hora de livros e documentos raros. Já a
americana Carnegie Mellon University <http://www.cmu.edu/> enviou à China -
onde custa três vezes menos scanear cada livro, US$ 10 - 30 mil títulos de
sua biblioteca: 100 mil páginas estão sendo digitalizadas por dia e a
expectativa é de que, em dois anos, 1 milhão de livros estejam acessíveis
pelo computador. A idéia não é apenas facilitar o acesso a obras: espera-se
que as bibliotecas virtuais possibilitem aos usuários criar rapidamente
inter-relações entre obras e temas. Deparando-se com uma palavra
desconhecida, por exemplo, o usuário teria acesso a todos os textos em que
ela já foi utilizada. Mais: em poucos cliques, poder-se-ia ter acesso a todo
o material já publicado sobre determinado tema, o que provocaria uma
revolução sem precedentes na atividade intelectual.

No Brasil, também existem iniciativas. A USP <http://www.usp.br/>, por
exemplo, criou a sua Biblioteca Virtual
<http://www.bibvirt.futuro.usp.br/>e oferece, além das teses
defendidas na universidade, textos clássicos de
diversas áreas, da literatura e das ciências humanas até saúde pública a
psicologia. O governo também criou o site www.dominiopublico.gov.br, que
oferece obras de autores brasileiros livres de direitos autorais. Longe da
iniciativa oficial, também há movimento em uma variedade de sites que não
apenas disponibilizam livros, como também são espaço de encontro entre os
leitores que utilizam esse tipo de tecnologia. Ali, são oferecidas várias
opções para download - você pode tanto baixar o arquivo em formato para
computadores e palm-tops como escolher um tipo de acesso ligado ao seu
e-book, o pequeno aparelho no qual você pode armazenar os livros baixados.

Toda essa movimentação não significa, porém, que não exista gente contrária
às bibliotecas virtuais e seus significados. Em recente feira literária nos
EUA, o escritor John Updike engrossou a lista de descontentes e bradou em
favor do contato físico com o livro. Apesar das críticas, porém, os
especialistas garantem que o crescimento do mercado digital de livros é uma
questão de tempo. "Tudo que achávamos que sabíamos sobre livros vai mudar",
escreveu Kevin Kelly, autor de Out of Control: The New Biology of Machines,
em artigo recente no New York Times <http://www.nytimes.com/>.

"Tempo", aqui, inclui uma série de definições. Uma delas é a tecnológica:
todo o conhecimento humano cabe em 50 petabytes que, convertidos em
disquetes, ocupariam um prédio de dois andares. Mas Kelly mostra que as
pesquisas caminham no sentido de tornar possível a "superbiblioteca
virtual". E adverte: não vai demorar tanto quanto se imagina. "Tempo",
porém, também significa a necessidade de se encontrar novos padrões. "Vamos
ter de repensar o negócio do livro. O livro digital precisa ser encarado
como um novo negócio", diz Carlos Augusto Lacerda, editor da Nova
Fronteira<http://www.novafronteira.com.br/>.
"Esperamos que uma grande editora internacional abra caminho, que se crie um
modelo a ser seguido. Os e-books precisam ter uma tecnologia bem estruturada
e serem economicamente viáveis do ponto de vista comercial. Hoje, eles não
são viáveis", diz Sérgio Machado, editor da
Record<http://www.editorarecord.com.br/>- e os números estão ao seu
lado: um novo aparelho, apresentado na Bienal do
Livro de São Paulo pela E-BookCult, armazena até 40 livros, mas é importado
e custa US$ 600.


SEGUNDO A LEI...

A questão mais delicada, porém, parece ser a dos direitos autorais. Com a
reprodutibilidade permitida pela internet, como preservar os direitos dos
autores e editoras? A denúncia feita esta semana pelas editoras francesas é
exemplo do terreno movediço em que está fundamentada a questão. O Google
está digitalizando as obras de domínio público presentes nos acervos de
bibliotecas como a da Universidade de Stanford - já os livros protegidos
pelos direitos de propriedades intelectual têm apenas trechos reproduzidos
na rede. O Google se defende afirmando que está divulgando as obras. Para as
editoras, porém, trata-se de apropriação ilegal. Aqui no Brasil, as empresas
pedem por orientação. "Precisamos criar mecanismos para o pagamento dos
autores", diz Sérgio Machado. "A digitalização é um caminho irreversível,
mas quanto tempo levará para chegar aos livros protegidos pela lei de
direito autoral?", complementa Carlos Lacerda. Segundo Kevin Kelly, 15% dos
livros estão em domínio público, 10% estão no catálogo das editoras e 75%
estão fora de catálogo. "É melhor ter um livro protegido esgotado ou ter um
livro circulando de graça?", pergunta Lacerda. "Talvez com a redução dos
custos, ao se eliminar o papel, por exemplo, as editoras possam pagar mais
aos autores", diz o escritor e professor de Direito da Universidade de
Yale<http://www.yale.edu/>,
Yochai Benkler. "Não sabemos como funcionaria a questão financeira, acho que
dependeria mesmo de um acordo com as editoras. Eu abriria mão facilmente dos
meus direitos autorais, que nunca são muitos, caso o site não fosse com fins
lucrativos. Dirigido a estudantes por exemplo, ou a projetos sociais", diz o
escritor Ricardo Lísias, autor de Duas Praças (Editora Globo).

Mas se Lísias quiser fazer isso, não terá a proteção legal ao seu lado: a
questão é que não existe uma legislação que especifique os direitos autorais
perante a era virtual. "Quando se publica um livro, firma-se um contrato de
edição que institui uma relação de direito autoral. Nele, o autor permite
que a editora reproduza e comercialize o livro. Mas quando este livro é
digitalizado e passa a fazer parte de um banco de dados, trata-se de uma
outra utilização da obra, o que pressupõe outra autorização", explica o
advogado Rodrigo Salinas, especialista na legislação de direitos autorais.
"Isso é o que está na lei. Mas não existem seções específicas que tratem,
por exemplo, de liberação das obras no caso de projeto de interesse público,
como é o caso de uma biblioteca, por exemplo. Neste contexto, estamos
desamparados perante a lei", completa.

E os leitores, o que acham de tudo isso? O estudante Paulo Kon, de 17 anos,
reconhece que a internet torna o caminho à informação cada vez mais fácil.
"Mas não acho a leitura no computador confortável, o mérito mesmo é
possibilitar o acesso a livros esgotados", diz. O escritor Mario Prata segue
pelo mesmo caminho: "Nunca vi alguém com um e-book na mão. É algo frio,
impessoal demais." Dono do maior acervo bibliográfico particular da América
Latina, José Mindlin não descarta de cara os e-books. "Se permitir constante
acesso a obras raras, será uma vantagem", diz. "Mas o contato com o livro é
insubstituível." E não pára por aí. "Uma vez vieram aqui em casa para eu
experimentar o e-book. Prepararam tudo mas, quando fui mexer, não funcionou.
Isso não acontece com o original."


***

*NA REDE*

CLÁSSICOS: Marcos da literatura brasileira e mundial podem ser encontrados
em diversos sites, como o E-BookCult <http://www.ebookcult.com.br/>, Domínio
Público <http://www.dominiopublico.gov.br/> e Virtual
Books<http://virtualbooks.terra.com.br/>
.

PROJETO GUTENBERG: Entre os sites estrangeiros, destaque para o do Projeto
Gutenberg <http://www.gutenberg.org/>, que reúne cerca de 17 mil livros e
tem dois milhões de downloads por mês.

UNIVERSIDADES: Instituições de ensino cada vez mais disponibilizam conteúdo
na rede. A USP, por exemplo, oferece as teses
<http://www.teses.usp.br/>defendidas por alunos e
livros <http://www.bibvirt.futuro.usp.br/>.


Fonte:
http://www.estado.com.br/editorias/2006/06/11/cad-1.93.2.20060611.9.1.xml


--
Jonathan Pereira
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